1871-72- VISITA DOS IMPERADORES DO BRASIL A PORTUGAL CONTRIBUIÇÃO PARA O ANO BRASIL - PORTUGAL
Texto e pesquisa de imagens Raul Mendes Silva - Conforme o relato da autoria de José Alberto Corte Real, Manuel Antonio da Silva Rocha e Augusto Mendes Simões de Castro, Viagem dos imperadores do Brasil em Portugal, publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, Portugal, em 1872, contendo 350 págs.

O autor agradece a Alexandre Ramires, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e coordenador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da mesma Universidade – CEIS20, pelas informações que tornaram possível a localização do relato desta viagem dos imperadores.


Imperatriz Theresa Chistina

Imperador Dom Pedro II

A contínua preocupação com as questões de estado, razões de natureza familiar e pessoal, mais o interesse em visitar outros países (que tão bem conhecia através dos livros) despertaram em Dom Pedro II o desejo de viajar de férias ao exterior, o que aconteceu pela primeira vez em 1871-72. Além disto, quando soube que sua filha de 23 anos, a princesa Leopoldina, falecera de tifo em Viena, decidiu que chegara o dia de partir com a imperatriz e conhecer seus familiares austríacos. Nesse périplo pela Europa e África, foi Portugal, terra de seus ancestrais, onde estava sepultado seu pai e residia sua madrasta, Amélia de Leuchtenberg, que mereceu uma atenção especial. Dom Pedro II estava com 46 anos e planejou sua viagem pelo estrangeiro de modo a começar e terminar neste país.

Dia 25 de maio de 1871

Num cenário pejado de pequenas embarcações, além de muitos populares que se manifestavam com alegria à beira do cais, o imponente paquete Douro saiu do porto do Rio de Janeiro no dia 25 de maio de 1871, levando a bordo o Imperador Dom Pedro II e sua mulher, a imperatriz Theresa Christina de Bourbon, acompanhados de um grupo de cidadãos ilustres, onze serviçais e mais cerca de 300 passageiros com destino a Portugal. Dom Pedro II estava sobriamente vestido de preto e manteve-se de pé no convés, enquanto o navio se afastava, correspondendo com simpatia aos acenos de despedida que lhe enviavam da orla ou dos barcos que cercavam o navio.


Baía de Guanabara

O séquito imperial era composto pelo conselheiro Nicolau Antonio Nogueira da Gama, pelos barões do Bom Retiro e de Itaúna (este acompanhado da filha) e mais as damas Josephina Fonseca Costa e Leonilda dos Anjos Esporal.

Uma grande recepção tinha sido projetada  na Bahia, onde a embarcação chegou no dia 28 de maio, porém uma chuva torrencial frustrou as expectativas, o que levou os imperadores diretamente para o Recife, ali chegando no dia 30, para assistir a uma inauguração pública.

Nota do editor: estas informações não coincidem com o “Diário” do Imperador onde ele relata ter chegado ao porto de Salvador ao meio dia de 29 de maio de 1871. Descreve como foi requisitado e homenageado em terra, tendo voltado a bordo às 17,20 horas. Ainda segundo o “Diário”, chegou ao porto de Recife às 6,20 da manhã, percorreu a cidade, foi ciceroneado para conhecer diversas novidades, mas não registra a que horas voltou ao navio.

No dia 5 de junho, o navio passou por São Vicente, a caminho da Europa.

O imperador fez questão de viajar com a maior simplicidade possível, reservando seus lugares sob o nome de “D. Pedro d’Alcantara e sua mulher” , o que não impediu que logo fosse reconhecido e constantemente cercado de amabilidades e deferências pelos outros passageiros, a quem tratou com gentileza. Este clima de mútuo respeito e cordialidade permaneceu durante a viagem.


PRIMEIRA PARTE DA VISITA A PORTUGAL
ESTADIA EM LISBOA

Dias 12 a 22 de junho de 1871


A notícia da visita dos imperadores do Brasil a Portugal agitou as elites deste país, que envidaram todos os esforços para homenagear os soberanos de além-mar. Uma providência urgente foi mobilar confortavelmente a corveta Estephania, dado que nessa época grassava a febre amarela no Rio de Janeiro, o que impunha uma quarentena a todos os viajantes que chegassem à Europa provenientes daquela cidade.


Corveta Estephania, preparada para hospedar
os imperadores durante a quarentena

Como os imperadores, mesmo sem poder desembarcar imediatamente, estariam em águas portuguesas logo que entrassem no porto de Lisboa, forçoso seria lhes proporcionar alojamento à altura. E para os acomodar após a quarentena, o rei Dom Luiz de Portugal mandou preparar o Palácio de Belém na capital lusitana, ordenando uma completa arrumação e melhorias nos seus dez salões, desde a  decoração da sala de entrada, com seu teto de talha dourada, até à antecâmara reservada à imperatriz, preparada com moveis em jacarandá e reposteiros de seda amarela.  


Foram preparados aposentos para os acompanhantes mais importantes do séquito imperial e o rei português nomeou um comitê de notáveis para ficar permanentemente ao serviço dos imperadores, enquanto estivessem no país: o marquês de Ficalho, os condes de Penamacor e os generais Caula e Gromicho Couceiro. Havia uma evidente preocupação para que tudo corresse sem imprevistos desagradáveis. A intenção de Dom Pedro II de passear incógnito parecia definitivamente prejudicada.


Mas nenhuma destas providências teve utilidade, uma vez que o imperador decidira se hospedar em um hotel. O debilitado estado de saúde da Imperatriz Theresa Christina deve ter pesado nesta opção, pois assim teriam mais privacidade e, supostamente, evitariam muitos compromissos sociais. O que, de fato, não aconteceu.


Simultaneamente às providências lisboetas, na província foram constituídas comissões locais de acolhimento nas cidades que seriam contempladas com a visita dos soberanos. Na capital, a Câmara dos Deputados, em 2 de junho de 1871, votou uma moção de regozijo pela visita dos ilustres brasileiros.


Em Lisboa, no dia 12 de junho, ainda madrugada, se escutou uma salva de vinte e um tiros vindos da torre do Forte de São Julião da Barra, no Rio Tejo, saudando a chegada do Douro, enquanto içavam a bandeira brasileira. Logo depois, desfilando o navio em frente à Torre de Belém, outra salva, o mesmo sucedendo a bordo da corveta Estephania, toda embandeirada, a esperando que suas majestades ali fossem se instalar.  Podiam escutar-se os “vivas” dos marinheiros.


Eram seis horas da manhã quando o vapor parou na altura do Lazareto, local da alfândega, para que entrassem as autoridades do porto e os responsáveis pela saúde pública. Os passageiros foram avisados que teriam de cumprir um isolamento, por causa da febre amarela que assolava o Rio de Janeiro. Os funcionários portugueses receberam uma missiva de Dom Pedro II, solicitando ao rei lusitano que fossem mantidas as restrições legais aos imperadores, sem qualquer favorecimento.


Nos dias 13 e 14 de junho os imperadores receberam algumas visitas a bordo, na condição da quarentena. “Há um certo prazer em estar aqui encarcerado em nome da saúde de uma população de 300 mil pessoas, que eu estimo”, comentou Dom Pedro II. Um dos visitantes, Casal Ribeiro, conhecido homem da política, disse a sua majestade que havia trocado a carreira pela agricultura, no que foi amavelmente repreendido pelo monarca, que lhe disse não ser lícito a homens públicos abandonar os assuntos do estado.  


Manuel de Araújo Porto-Alegre,
cônsul brasileiro em Lisboa


Neste período, os imperadores receberam a visita de seus familiares portugueses, sempre com manifestações de júbilo, como se fossem íntimos. Durante estes dois dias a alfândega do Lazareto permaneceu  iluminada, com uma banda militar executando amenidades. Por seu lado, os imperadores cumpriam o protocolo, auto-assumido, de jantar em conjunto com seus companheiros de viagem e de quarentena. Uma presença assídua durante toda a visita foi o cônsul brasileiro, Manuel de Araújo Porto Alegre.

No dia 15 foi a vez de chegar uma deputação enviada pela Câmara Municipal do Porto (cidade que Dom Pedro I sempre distinguiu com sua gratidão, pelo auxílio na luta travada pelo poder, quando voltou do Brasil). A visita de José de Castilho, antigo confrade de Dom Pedro II nos salões literários do Palácio de São Cristovão, no Rio de Janeiro, demorou três horas e serviu para o imperador pôr em dia suas informações sobre as novidades literárias em Portugal.


No dia 16 recebeu visitas protocolares de membros da Academia Real de Ciências e do Conde Armand, ministro (embaixador) da França em Portugal. No dia seguinte, esteve a bordo um dos portugueses mais admirados pelo imperador, o historiador Alexandre Herculano. Este tinha-se refugiado na calma do interior, desiludido com os rumos do país. Da mesma forma que fizera com Casal Ribeiro, Dom Pedro II o instou a voltar à atividade de pesquisador. À noite, Dom Luiz, o rei português, e sua mulher, obsequiaram os visitantes com uma serenata iniciada com a execução do Hino Brasileiro e realizada em meio a fogos de artifício, sobre um Rio Tejo tranquilo.


O Rei Dom Luiz de Portugal

No dia 19 foram ao Lazareto, onde se achava fundeado o Douro, alguns artistas do Teatro D. Maria, o que proporcionou ao Imperador uma conversa agradável e erudita. A pedido dele, veio também o jovem intelectual, Saraga, profundo conhecedor da cultura hebraica, uma das paixões de Dom Pedro II. O último jantar a bordo decorreu com manifestações de simpatia por parte dos companheiros de viagem, com direito a discursos, que os imperadores ouviram pacientemente.

No dia 20, finalmente, terminou o prazo da quarentena e os soberanos brasileiros puderam, enfim, pisar o solo lusitano. O sol brilhava desde as oito da manhã, e Lisboa parecia encantada com a visita, exibindo letreiros com saudações e cores festivas.

O navio ficou cercado de pequenos botes, transportando curiosos que queriam avistar suas majestades, porque era conhecida a fama de grande soberano, atribuída a Dom Pedro II. Dom Fernando e seu filho, o infante Dom Augusto também chegaram, em um escaler pintado de verde, e saudaram os parentes brasileiros com alegria e afeto. Insistiram que os imperadores deveriam se transferir para bordo da Estephania, que tinha sido preparada para os albergar durante a quarentena, mas Dom Pedro permaneceu inflexível. Quando Dom Fernando o tratou de “sua Majestade”, recusou gentilmente: “Aqui não há imperador, nem Imperatriz. Chamo-me D. Pedro d’Alcantara, e minha mulher D. Thereza Christina.”


Bandeira Imperial Brasileira
(1822-1899)

Bandeira da Monarquia Portuguesa
(1834-1910)

Os imperadores desembarcaram às dez e meia da manhã, no cais do Lazareto. Às seis horas, o Imperador Dom Pedro II tinha tomado banho nos seus aposentos do navio. As autoridades portuguesas, avisadas sobre este “acontecimento”, providenciaram que a Banda do Regimento de Caçadores Nº 5 tocasse uma “suave harmonia” durante as abluções, o que constituiu uma grata surpresa para sua Majestade. Eram oito horas quando a comitiva imperial recebeu notícia de que a quarentena tinha terminado, estando autorizada a desembarcar.

Após uma hesitação pela parte de Dom Pedro II, que não queria aceitar favorecimento em relação à proibição, foi-lhe assegurado que a licença se aplicava a todos os passageiros. Às dez e meia, sua Majestade desembarcou no Lazareto e foi passear nos morros das imediações, onde colheu flores silvestres, que levou para a Imperatriz, que se encontrava no Hotel Bragança, reservado pelo Imperador. Após o almoço recebeu diversas personalidades e a comitiva preparou-se para deixar o Lazareto, após se despedir dos companheiros de viagem mais chegados.


A vista do Hotel de Bragança

Uma embarcação real aguardava os imperadores, na qual seguiram, acompanhados dos reis portugueses Dom Luiz e Dom Fernando, o duque de Saxe e o infante Dom Augusto.  Mais de cem embarcações, algumas levando personalidades portuguesas e brasileiras, acompanhavam os soberanos no trajeto pelo Tejo. Era um dia claro e do forte da Alfarrobeira ecoaram 21 tiros, enquanto no ar alegremente repicavam os sinos, misturados aos gritos de vivas aos imperadores. Dom Pedro II parecia feliz, distribuindo suas amabilidades e vendo todos os navios de guerra e mercantes embandeirados em sua homenagem. Ao meio dia, as embarcações chegaram ao Cais das Colunas, onde todos desembarcaram. O amplo espaço do Terreiro do Paço e as ruas vizinhas estavam apinhados de curiosos. O Regimento de Lanceiros e oito carruagens de cavalos aguardavam as comitivas. Entretanto, nas imediações havia dezenas de outras viaturas esperando a saída do cortejo real.  Junto com os monarcas lusitanos, os imperadores dirigiram-se à estátua equestre em bronze, de D. José I, erguida ao centro do Terreiro, demorando-se a contemplar aquela obra de arte durante alguns minutos.

A seguir, os imperadores do Brasil, os reis de Portugal e suas comitivas, formaram um cortejo com cerca de cem carruagens , enquanto nas ruas se ouvia o Hino Brasileiro, tocado pelas bandas dos regimentos. No Largo do Rossio eram aguardados pela multidão eufórica e, ao passar perante a estátua de seu pai, Dom Pedro I do Brasil (que foi Dom Pedro IV em Portugal), o Imperador ficou de pé na carruagem, descobriu-se e contemplou o monumento, entre respeitoso e enternecido, numa cena emocionante.


Dona Amélia, em seus últimos anos

Largo do Rossio, com o Teatro Dona Maria II

No contorno do largo admirou a fachada do Teatro D. Maria II, seguindo então o casal de imperadores pelo Chiado, em direção à moradia da Imperatriz, viúva de seu pai e sua madrasta, Dona Amélia Augusta Eugenia Napoelona de Beauharnais. Ela tinha “apenas” 58 anos, diríamos hoje. Mas sofrendo com uma vida agitada e marcada por infortúnios familiares, a senhora estava envelhecida e depauperada e morreria cinco anos depois.

O encontro durou cerca de uma hora e os imperadores saíram em direção a São Vicente de Fóra, para visitar o jazigo dos reis e príncipes da Casa de Bragança. Dom Pedro II dirigiu-se diretamente ao túmulo de seu pai e rezou, ajoelhado, no que foi imitado pelos acompanhantes.

Logo depois, orou junto das sepulturas de Dona Maria II, Dom Pedro V e do infante Dom João. Na próxima visita encaminhou-se para o Palácio da Ajuda, residência do rei Dom Luiz I, e depois dirigiu-se ao Palácio das Necessidades, onde vivia Dom Fernando e sua família.

Como se sabe, no dia 22 de abril de 1972, o corpo de Dom Pedro I chegou transladado ao Brasil, tendo sido enviado pelo governo português como sinal de respeito pelo povo brasileiro. Ficou na cidade do Porto apenas o coração do imperador, desejo por ele manifestado em vida, como sinal de amor e gratidão aquela cidade.

Após estes encontros familiares, acompanhado de Alexandre Herculano, o maior historiador português de seu tempo, foi admirar o Mosteiro dos Jerônimos, contemplando o vasto largo em frente ao monumento, restaurado em seus detalhes manuelinos, e passeando pelo seu interior e a Torre de Belém, junto ao Rio Tejo.

Voltou ao hotel Bragança, onde tinha se instalado, por volta das sete e meia da tarde, dispensando a guarda de honra do Regimento de Infantaria 16, que o esperava no local. Mas sua agenda de compromissos não havia terminado! Alguns personagens o esperavam e foram recebidos: o marquês de Vallada, transportado num imponente coche puxado por quatro cavalos (a riqueza e o prestígio eram então traduzidos na suntuosidade das carruagens, à semelhança do que as pessoas abastadas fazem hoje com os automóveis). Estavam também o poeta Francisco Gomes de Amorim e o escritor Rebello da Silva, que havia concluído sua História de Portugal e queria oferecer um exemplar autografado ao imperador. No único dia de sua chegada, Dom Pedro II teve ocasião de exercitar sua memória para nomes e acontecimentos, mostrar sua sensibilidade e amor pelos familiares e revelar, muita, muita - e bondosa paciência! - acolhendo com sorrisos aqueles que o procuraram.


Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora

Sala do Palácio das Necessidades

Paço da Ajuda

Como se viu, Dom Pedro II recusou polida, mas firmemente, a oferta dos reis portugueses para instalar-se em um palácio oficial, preferindo se hospedar no Hotel de Bragança, de onde se via a paisagem da cidade baixa e do Tejo. O casal imperador e serviçais ocuparam todo o segundo andar do hotel, reservando para seu séquito seis quartos no primeiro e seis no terceiro andares. A gerência do hotel providenciou que nada faltasse, mantendo um serviço impecável, tanto nos quartos como na sala principal, forrada de seda cor-de-canário e com lustres de prata. Esta sala estava reservada para receber as visitas.

O clima festivo em Lisboa continuou pela noite, com vários edifícios iluminados com capricho e imaginação, como a Rua do Alecrim, o Real Teatro Nacional dona Maria, alguns prédios do Chiado e da Rua do Ouro. Dom Pedro II e sua mulher não foram descansar, como seria de prever após aquele dia agitado, preferindo dar uma volta pelo Passeio Público. Tendo vasado este fato, imediatamente começou a chegar ao local uma multidão de umas seis mil pessoas, que queriam festejar os Imperadores. Ver um soberano passear na multidão era um espetáculo inédito e insólito para os portugueses, acostumados com as formalidades e a distância arrogante e protocolar da realeza.

Às dez da noite estalaram os foguetes.  Um português ilustre ofereceu uma cadeira ao monarca, que a recusou: ”Não me sento porque não estou cansado...Vá tratar da sua vida que eu me sentarei depois em qualquer lugar”. Logo depois, o nobre casal sumiu na multidão. Mas, ao passar diante de um coreto, foi reconhecido e um coral, acompanhado de banda, tocou o Hino Brasileiro, ouvido pelo Imperador de chapéu na mão. Os monarcas subiram na carruagem que lhes tinha sido destinada, passaram pelo Rossio e retiraram-se para descansar.  Eram onze horas quando suas majestades chegaram ao Hotel Bragança, após atravessar a multidão com dificuldade.

Entretanto, durante este período, como os imperadores estavam de luto (pelo falecimento da filha, a princesa Leopoldina, ocorrido em Viena) não foram a qualquer teatro ou espetáculo.


Torre de Belém

No dia 21 o rei Dom Fernando chegou ao Hotel de Bragança pelas seis da manhã, para passear com Dom Pedro II. Subiram a pé até à Praça Luiz de Camões, onde observaram a estátua desse poeta e prosseguiram num longo trajeto, que os levou pela Rua do Alecrim, Cais do Sodré até ao Palácio das Necessidades. Depois, a carruagem que os levou ao hotel, onde foi servida uma refeição às oito e quinze, retirando-se então Dom Fernando.

Lodo depois, os imperadores, recusando usufruir de privilégios, alugaram outra carruagem e foram visitar a Imperatriz Dona Amélia, indo posteriormente até à Escola Polytechnica, cumprindo uma anterior promessa do Imperador. Lá se encontravam seu sobrinho, o Rei Dom Luiz de Portugal, o diretor João de Andrade Corvo,  professores e alunos.


Escola Polytécnica

Mosteiro dos Jerônimos

O monarca brasileiro demorou-se no laboratório de química, informando-se sobre a produção de pigmentos industriais e teve oportunidade de avaliar uma coleção de fotografias científicas, além de conhecer uma nova fórmula de pólvora, extraída da madeira. Passaram às coleções de geologia e mineralogia e ao observatório metereológico, tudo interessando vivamente a Dom Pedro II, verdadeiro espírito humanístico, que se interessava tanto pela ciência como pelas artes. O ensino da física e os exemplares de zoologia, trazidos das áfricas, igualmente lhe mereceram atenção. A visita se prolongou por quatro horas, impedindo o soberano de ir conhecer a Imprensa Nacional. Numa gentileza rara para a sua estirpe, ignorando as etiquetas da realeza, prometeu visitar esta instituição tão logo retornasse ao país, pedindo que transmitissem suas desculpas aos funcionários da Imprensa Nacional.

Na volta ao Hotel de Bragança diversas personalidades o esperavam, incluindo ministros do reino e o patriarca de Lisboa, tendo o casal dos reis de Portugal chegado mais tarde, para levar os imperadores a um jantar de gala no Paço, que foi servido na baixela real a trinta e quatro personalidades (Dom Pedro bem que tentou evitar esta cerimônia, mas não conseguiu). Constrastando com as roupas coloridas das senhoras presentes, a Imperatriz Dona Amélia e suas acompanhantes vestiam-se de luto. 

Notas do autor

Referências a esta primeira viagem dos imperadores encontram-se no volume 11 do Diário de Dom Pedro II, que cobre o período entre 25 de maio e 23 de junho de 1871. Conforme informação do Museu Imperial (Petrópolis, RJ), que guarda documentação da Monarquia Brasileira, possivelmente nem todos os diários foram preservados ou ficaram sob a posse da família imperial após a proclamação da República, o que torna difícil a sua localização.

Quanto a outros tomos no Museu Imperial, o volume 13 abrange o período entre os dias 03 e 14 de novembro de 1871; e o volume 14, entre novembro de 1872 e junho de 1873. Não dispomos, portanto, de “Diário” para cobrir a segunda parte da viagem, entre 25 de fevereiro e 15 de março de 1871.

Dom Pedro II era dotado de fino humor, frequentemente sarcástico, às vezes quase impiedoso. Sempre admirou - e se extasiou - diante dos fenômenos da natureza em sua grandiosidade, como fizeram os escritores e artistas filiados ao Romantismo. Mas tudo é analisado com senso comum e críticas perante a fragilidade humana e a incompetência dos profissionais. Apesar de ser um poliglota, dentro do navio seguiu estudos de inglês com regularidade. Todos os dias de manhã tomava seu banho com um prazer ritual, o que não condiz com a conhecida falta de higiene daqueles tempos.

Durante esta parte da viagem, não escreveu uma só linha sobre preocupações com o governo, certamente porque queria estar de férias e livre de todas as questões de estado.

Na manhã de 3 de junho de 1871 manifestou seu ufanismo, e transcreveu uma estrofe do Marquês de Paranaguá: “Às 9h e 18 min descobri a estrela do Norte. Coitadinha! A lua ofuscava-a e exclamei, olhando para o Cruzeiro do Sul ainda tão alto e brilhante: O mundo há de ver um dia / Neste céu sereno e azul / Curvar-se a Ursa do Norte / Ante o Cruzeiro do Sul.”

No dia 12 de junho, às 11h 12, o navio já tinha fundeado em Lisboa e começaram a chegar as visitas familiares e protocolares. Dom Pedro II desabafou: “Estou no Lazareto. Uf! Custou-me a desvencilhar-me das cerimônias, mas tudo correu bem.”

Em 15 de junho recebeu nova visita da família real portuguesa: “Depois das 5 estiveram o rei e a rainha e os filhos, que são lindíssimos. A Rainha (Maria Pia de Sabóia, filha do rei Vitor Emanuel II da Itália) assenta-se que parece padecer da moléstia dos homens sedentários. Não gosto da cara dela, mas tem sofrível corpo e revela inteligência, embora não haja saca-rolha para fazê-la falar um pouco mais.”

No dia 17 de junho escreveu: “Ontem tive as visitas do Ministro francês, Conde St. Amand, que pareceu-me bom homem e ficou de telegrafar ao Gobineau sobre minha chegada a Bordeaux...” 
Dom Pedro refere-se a Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) que chegou em 1869 ao Brasil como diplomata enviado por Napoleão III da França, aqui fazendo amizade com o Imperador. Apesar de não seguir a cartilha racista do francês, o Imperador manteve correspondência com ele durante anos.

Segundo o Censo do Império, realizado em 1872, neste ano o Brasil tinha 9.930.478 habitantes, dos quais 58% dos residentes no país se declaravam pretos ou pardos, 4% índios e 38% brancos. Para uma boa parte dos estadistas do Império, fazia-se necessário atrair mais emigrantes de origem europeia, para “branquear” a população. Gobineau, com suas teses racistas, era um perfeito interlocutor neste campo.

Situações interessantes da visita a Portugal foram as conversas com o escritor e historiador Alexandre Herculano, que o Imperador admirava profundamente. Encontrou o intelectual no dia 18 de junho pela primeira vez (depois o visitaria em sua quinta de Santarém): “Enfim apareceu o Herculano, que logo conheci pela fotografia, que mandou-me. Tratou-me como amigo e chorou quando eu lhe pedi que fosse para mim tal qual foi para meu sobrinho e afilhado Pedro 2º (sic). Ficou de mandar-me garrafinhas de bom azeite para o peixe de mamãe” (assim se referia Dom Pedro II, carinhosamente, à imperatriz). “... Herculano falou com muita moderação. Descrê de Portugal, sobretudo porque há falta de religião – péssimo clero – e de instrução - dando as eleições, quando libérrimas, como agora, piores resultados quanto ao mérito dos eleitos. Elogiou os seminários todavia. Estigmatizou a igualdade em todo o reino do sistema das escolas, com obrigação de frequenta-la, pois tornam-se assim o maior vexame da população agrícola.”

20 de junho de 1871 - O Imperador dirigiu-se ao Palácio das Janelas Verdes e teve um encontro emocionante com sua mãe, a Imperatriz Dona Maria Leopoldina de Áustria, que ali residia: “...desembarquei no terreiro do Paço, indo logo às Janelas-Verdes chorei de alegria e também de dor vendo minha Mãe tão carinhosa para mim, mas tão avelhantada e doente.”

Alguns intelectuais portugueses, reunidos em torno da publicação de As Farpas, uma revista satírica, impiedosa com os poderosos, trataram de ridicularizar as atitudes de Dom Pedro II, desde seu desejado “anonimato” até à pasta preta que nunca abandonava. Além dos comentários jocosos, a figura do Imperador, segurando em uma das mãos o guarda-chuva e na outra a famosa “mala”, foi objeto de uma cômica litografia de Rafael Bordalo Pinheiro.

 

CONTINUAÇÃO DA VIAGEM PELA EUROPA E EGITO

Dias 22 de junho de 1871 a 29 de fevereiro de 1872


Comitiva imperial no Egito, Dom Pedro II está assinalado

No dia seguinte, o Imperador, que tinha fama de madrugador, levantou-se às quatro da manhã e tomou um banho frio. Fez questão de parabenizar o gerente do hotel pelos bons serviços e a comitiva dirigiu-se para a Estação de Santa Apolônia, onde era esperada pelos monarcas lusitanos e numerosas personalidades. O luxuoso trem compunha-se de duas carruagens de primeira classe, outras duas com salões de estar e um furgon real para as bagagens. Quando chegaram a Badajoz, na fronteira com a Espanha, eram cinco da tarde. O casal de imperadores não saiu do trem, ali preferindo pernoitar, em vez de se instalar em um hotel.

Da Espanha, a comitiva imperial partiu em direção à França, depois Inglaterra e Escócia, voltando ao continente por Calais e chegando à Bélgica, Alemanha, Áustria, Hungria e Itália. No porto de Nápoles embarcaram os viajantes em direção ao Egito, voltando à Europa pelo mesmo porto. No prosseguimento do périplo atravessarm o interior da França em direção a Paris, voltando para o sul até Bayone. Foi a vez de conhecerem algumas cidades espanholas, como Madri, Toledo, Sevilha, Granada e Cádiz. Ao todo, tinham consumido oito meses de viagem pela Europa.

 

 

SEGUNDA PARTE DA VISITA A PORTUGAL

No dia 29 de fevereiro de 1872, às cinco da tarde, os imperadores e sua comitiva chegavam de novo de trem a Badajoz, na fronteira da Espanha com Portugal. Haviam decorrido oito meses após sua partida de Lisboa. O governo português propôs colocar à disposição dos visitantes, em Badajós,  um “trem real”, gentileza que foi declinada, partindo toda a comitiva em um trem comum, sem luxos.

Na primeira estação portuguesa, na cidade de Elvas, suas majestades eram aguardadas pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros (João de Andrade Corvo); pelos cônsules brasileiros Manuel de Araújo Porto-Alegre (em Lisboa) e Manuel José Rabello (no Porto) além de outras autoridades.  Quando o trem parou na estação Entrocamento, onde havia as opções norte-sul, mais homenagens, ouvindo-se o Hino Nacional tocado pela banda de um regimento de infantaria.

No dia 1º de março de 1872, às 03:40 da madrugada, os imperadores chegaram a Coimbra, para uma ligeira parada de dezesseis minutos, nem saindo da carruagem. Apesar do horário, as altas autoridades locais os esperavam na estação, além de muitos populares, todos se descobrindo quando o Imperador assomou à portinhola do trem, enquanto de novo se ouvia o Hino brasileiro. Terminada a música, Dom Pedro II convidou os presentes a se cobrirem e a ignorarem as etiquetas. Tranquilizou a pequena multidão, dizendo que voltaria aquela cidade para visitar a Quinta das Lágrimas (local do assassinato de Inês de Castro), o Jardim Botânico, a Universidade e as Igrejas de Santa Cruz e da Sé Velha. Nas suas perguntas, Dom Pedro evidenciava perfeito conhecimento das pessoas, dos fatos e dos monumentos de Coimbra, deixando uma aura de simpatia e simplicidade. Entre os circunstantes achava-se Vasco Guedes, a quem o monarca perguntou se haveria no Porto algum sobrevivente do Batalhão de Caçadores 5, no qual seu pai, Dom Pedro I do Brasil, tinha sido coronel e combatente ao lado dos liberais.
O trem prosseguiu, daí em diante detendo-se nas estações apenas o indispensável para a movimentação de passageiros, já que se tratava de um trem comum. Mas em todas as paradas o Imperador vinha à portinhola, conversando amigavelmente com os populares. Após pequena demora em Ovar, o Imperador e sua comitiva chegaram à estação de Devezas, nas imediações do Porto, onde os aguardavam manifestações de grande empatia. Sob o ponto de vista emocional, provavelmente foi um dos momentos mais significativos em toda a viagem de Dom Pedro II. Afinal, esta cidade estava ligada, de uma maneira singular, à história de seu pai e da sua família.

 

ESTADIA NA CIDADE DO PORTO

Dias 1, 2, 3 e 4 de março de 1872

Na Vila Nova de Gaia, ao sul do Porto e encostada no Rio Douro, onde parou o trem dos imperadores, a Câmara Municipal tinha designado um comitê para recepcionar os monarcas, promovendo uma subscrição pública para financiar os festejos. O caminho até à ponte que atravessava o rio foi inundado de bandeiras do Brasil e de Portugal, enquanto se ouviam os acordes das bandas. Na Estação das Devesas esperavam as mais altas autoridades nortenhas, além de todos os componentes da vereação local. Um esquadrão do Cavalaria 6 fazia a guarda de honra.


Estação das Devezas

As paredes do salão nobre da Câmara de Gaia estavam forradas de veludo na cor carmim ao centro, seda azul e branca nas laterais e o teto recoberto de damasco amarelo. Quando o trem chegou à estação, pelas sete e meia da manhã, estalou uma salva de vinte e um tiros na fortaleza da Serra do Pilar, situada nas cercanias, acompanhada de outros tantos estrondos no Castelo da Foz. A esta altura, o Imperador saiu, sozinho com a Imperatriz pelo braço, atravessaram a antiga ponte pênsil e foram tomar outro trem que os levaria até o Porto. Um esquadrão de cavalaria se preparava para os acompanhar, mas o monarca fez sinal ao general que comandava, solicitando que não os seguissem.

Dom Pedro II envergava um terno preto, chapéu baixo, um cachecol preto e branco, portava uma pequena mala preta de couro na mão direita e um guarda-chuva na esquerda, sobraçando ainda um embrulho com papelada. A Imperatriz envergava o traje de luto. Entre a Estação das Devesas e a ponte havia profusão de bandeiras e enfeites.

Depois, toda a comitiva passou sobre o Rio Douro indo da ponte pênsil até à Praça Dom Pedro (homenagem ao pai do Imperador) passando pelas ruas dos Clérigos e de Santo Antonio,  enganaladas com flores e festões. A ponte ligava as duas margens do Douro, entre o Porto e Vila Nova de Gaia. Sua construção terminara em 1842, sendo substituída pela atual ponte em 1887.


Hotel do Louvre

Antiga ponte pênsil

Os portuenses, famosos pela sua gentileza e hospitalidade, não se furtaram a esforços para agradar os monarcas brasileiros. Na Rua São João erguiam-se dois grandes obeliscos, adornados com as bandeiras portuguesa e brasileira. No final da rua, um arco do triunfo, “imitando o de Paris”. Na entrada da Rua das Flores, outro arco triunfal, em estilo manuelino, do qual pendia um lustre em estilo gótico que, como todo o arco, era iluminado por candeeiros de azeite. Misturas estéticas e gostos aparte, as autoridades tinham se esmerado, tanto em cores como em motivos, realizando uma festa bem popular. Entretanto, o conhecido refinamento artístico de Dom Pedro II e, certamente, seu julgamento íntimo sobre o gosto das decorações, não o impediram de mostrar-se diplomaticamente cativado com tanta exuberância.

No Porto, Dom Imperador mandara reservar acomodações no Hotel do Louvre, situado à entrada da Rua do Triunfo. O imóvel havia sido redecorado pela proprietária, com todo o primeiro andar para os Imperadores e seus serviçais, e o segundo para a comitiva. Havia estatuetas, plantas e espelhos, ornatos dourados, damascos vermelhos, moveis tradicionais portugueses, porcelanas de Saxe, além de tapeçarias Gobellin, numa profusão de cores e objetos que não deixava margem de dúvidas ao empenho em agradar suas majestades. O povo circulava pelas ruas e as repartições públicas não abriram. Quanto à intenção de Dom Pedro em passear incógnito, ficou para outra ocasião.

Tão logo no Porto, os imperadores foram assistir uma missa e, antes de saírem do templo em festa, prostraram-se perante a urna que ali guardava o coração do seu pai. De fato, ao morrer, em sinal de gratidão por aquela cidade, Dom Pedro I do Brasil lhe doou seu coração, embora seu corpo fosse sepultado em Lisboa.

O Visconde de Trindade, dono de um histórico palácio repleto de obras de arte e decoração, empenhou-se em receber o Imperador. Nesta nobre residência havia uma galeria de retratos, dois deles da autoria pintor brasileiro Adolpho Cyrillo de Sousa Carneiro, que fora aluno da Academia Imperial do Rio de Janeiro. Outra visita foi à Lapa, na quinta de Agostinho Francisco Velho, onde serviram o almoço. Aquele local fora palco de encarniçadas batalhas, com a participação do pai de Dom Pedro II.

Foram depois conhecer o edifício da Bolsa, a Igreja da Ordem de São Francisco e a Santa Casa da Misericórdia, saindo de carruagem para passar defronte à Sé e atravessando o Largo da Batalha.


Interior do Palácio da Bolsa

Palácio da Batalha, Porto

Às duas e meia da tarde, os imperadores entravam na Academia de Belas Artes, onde lhes apresentaram os professores, alunos e funcionários. Como profundo conhecedor e mecenas, o Imperador desejou conhecer os melhores trabalhos e seus autores. Depois, a comitiva se dirigiu para o Ateneu. Dom Pedro viu expostos alguns objetos que tinham pertencido a seu pai. Ao ler as inscrições descritivas, verificou erros e avisou seus cicerones. Na biblioteca da instituição teve oportunidade de mostrar seu trato íntimo com os livros. Houve ainda uma passagem pela Igreja dos Clérigos, onde o casal de monarcas subiu à grande torre.

O dia chegava ao fim, recolheram-se ao hotel, que teve uma recepção às sete da noite. Havia sido um longo dia, porém outras homenagens e discursos estavam ainda reservados aos imperadores, durante as duas horas seguintes. Naquela ocasião recebeu uma delegação de estudantes brasileiros que viviam no Porto, a quem mostrou deferência especial.


Rua dos Clérigos

Certamente exausto, o casal compareceu ao Teatro Baquet às nove horas. No camarote à direita do palco, a simplicidade da roupa de Dom Pedro II e a singeleza do vestido preto e branco da imperatriz contrastava com o riquíssimo par de brincos de diamantes que ela  ostentava. Do espetáculo constava a comédia em um ato “O caminho da porta”, obra da juventude de Machado de Assis, que havia sido representado pela primeira vez em 1862, no Ateneu Dramático do Rio de Janeiro.

Diversas autoridades visitaram o camarote e a multidão aplaudiu os monarcas à saída, a caminho do hotel. Para os ilustres visitantes, terminara aquele aparentemente infindável 1º de março de 1872.

No dia seguinte, apesar das fadigas da véspera, eram oito da manhã e o Imperador saía do hotel para conhecer melhor a cidade, acompanhado de alguns portugueses ilustres, tendo visitado uma fundição e uma fábrica de têxteis. Pouco depois, saiu a imperatriz, vestida de preto, que foi assistir à missa na Igreja de Nossa Senhora do Carmo. No templo lhe ofereceram  uma almofada para se ajoelhar, o que recusou. Logo depois do ato religioso, regressou ao hotel.

Pelas 10 horas da manhã, o casal dirigiu-se às ruinas do convento da Serra do Pilar, que serviu de alvo à artilharia inimiga dos liberais, no memorável cerco ao Porto, durante as lutas em que Dom Pedro I do Brasil se engajou. Voltando o imperador à cidade, conheceu o Hospital de Santo Antonio e a escola médico-cirúrgica, onde foi interrompida uma aula para receber o monarca. No seu itinerário percorreu ainda o Instituto Industrial e a Companhia de Fiação Portuense.


O escritor Camilo Castelo Branco

Um dos propósitos de Dom Pedro II era conhecer Camilo Castelo Branco, um dos maiores prosadores do seu tempo, muito conhecido no Brasil, mas que nutria pelos brasileiros alguma hostilidade, sabe-se lá porquê. O escritor não vivia no Porto, alegou estar doente e informou que não poderia  deslocar-se ao Hotel do Louvre, o que levou o imperador a seguir de trem para a residência dele, acompanhado de um senhor, Forbes, que conhecia o escritor, e mais o Barão de Itaúca.

Certamente para os portugueses, este foi um gesto inesperado, de desprendimento, simplicidade e simpatia. Era difícil imaginar um rei europeu usar um transporte público para visitar um escritor...Camilo ainda alegou que sua casa era muito modesta, imprópria para receber tamanha  distinção, mas nada demoveu Dom Pedro II. Na habitação do escritor encontrava-se um poeta, que durante a apresentação ensaiou beijar a mão do imperador, que recusou no ato. O encontro logo se tornou afável e respeitoso, sem lugar para o mau humor de Camilo. Não faltaram elogios a dois autores admirados tanto pelo escritor quanto pelo imperador: o português Júlio Diniz e o brasileiro Gonçalves Dias. Uma hora depois despediram-se, com um democrático aperto de mão.


Palácio de Cristal

Junto com seus dois acompanhantes, o imperador voltou ao Porto, passando pela chapelaria do comerciante Costa Braga, um português que vivera longos anos no Brasil e que lhe apresentou sua esposa carioca. Desfazendo-se em amabilidades, o proprietário pediu ao monarca o favor de receber como presente dois chapéus que iria confeccionar para ele, no que foi autorizado. Na verdade, o intuito do imperador era saber se havia números expressivos na exportação de chapéus para o Brasil, e como esse comércio se processava. O interesse do monarca não era esdrúxulo. Não esqueçamos que, naquela época, os chapéus faziam parte de todas as indumentárias, tanto masculinas como femininas.

Pelas quatro da tarde, o pequeno grupo dirigiu-se ao Palácio de Cristal, que tivera origem na Exposição Industrial de 1865. O Imperador, que era aguardado por mais de duas mil pessoas, inteirou-se dos produtos industriais expostos no vasto recinto.

Na visita seguinte, junto com a esposa, Dom Pedro II e seu pequeno séquito seguiram até à Foz. Na residência do governador viram os retratos do próprio casal imperador e de alguns militares brasileiros que se distinguiram na Guerra do Paraguai, quadros oferecidos pelo filho do governador , que era 1º Secretário do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (e, aliás, pessoa conhecida do monarca). O que interessou particularmente ao monarca foi conhecer a estrada de ferro que estava em construção, conhecida então como “o caminho de ferro americano”.


Rua São João

No final do dia, após o jantar no hotel, mais uma recepção, onde apareceram velhos militares que haviam combatido junto com o pai do imperador e que foram cumprimentados, um a um, pelo monarca e sua mulher. E mais um passeio em carro aberto pelas imediações, apreciando a iluminação da Calçada dos Clérigos, Praça Dom Pedro, e ruas das Flores e de São João, sempre ovacionados pelos populares.

Na Praça Dom Pedro a claridade era tal “que rivalizava com a luz do dia”. Os portuenses se esmeravam em atenções e gentilezas, levando para suas majestades inúmeros presentes ao Hotel do Louvre. O famoso compositor local Miguel Angelo, que fora organista da Capela Imperial no Brasil, compôs uma marcha triunfal em homenagem ao soberano brasileiro, que se lembrou dele e agradeceu. O pintor Adolpho Cyrillo de Sousa Carneiro, o ex-aluno da Academia Imperial do Rio de Janeiro, ofereceu uma paisagem de sua autoria. A lista de presentes encheria algumas páginas, indo de bordados a medalhas comemorativas e álbuns de fotos. Por iniciativa popular, enquanto os imperadores permaneceram no Porto, até mesmo os presidiários foram lembrados, recebendo cada encarcerado uma esmola em dinheiro e sendo servido um lauto jantar a todos.

 

VISITA DE UM DIA A BRAGA

Dia 3 de março de 1872

No terceiro dia de estadia na cidade do Porto, um domingo, pelas seis horas da manhã, os imperadores partiram de trem em direção a Braga, na região do Minho. Em matéria de exuberância e imaginação decorativa, a cidade não queria ficar atrás da anterior.

Logo que chegaram , os soberanos tomaram um coche coberto, acompanhados de outras vinte carruagens, que transportavam personalidades locais. Na entrada da área urbana tinha sido construído um arco entre quatro pedestais. Sobre cada um destes, uma criança vestida de anjo jogava flores sobre os soberanos. Nas praças principais, os sons de três bandas agitavam o ambiente. O esquadrão de cavalaria, designado para seguir a comitiva, foi dispensado pelo Imperador de os acompanhar até o hotel, que tinha sido reservado na Rua de São João. O percurso estava adornado de brasões de armas brasileiros, festões e bandeiras.

Dom Pedro e seu pequeno séquito almoçaram no hotel. Os curiosos que se juntavam nas imediações iam sendo dispersos pelos soldados. Ainda no hotel, receberam a visita do Arcebispo Primaz, com quem seguiram, em carro descoberto, até à Catedral.


Sé de Braga

No início da tarde, o administrador do concelho, José Carlos de Araújo Motta, proporcionou aos imperadores uma digressão pela cidade. A milenar Sé de Braga foi um dos pontos altos da viagem (o primeiro bispo da urbe, então parte do império romano, foi eleito no ano 95 da nossa era). Já nessa época o templo albergava alguns tesouros ligados à fé católica, como inscrições romanas, cálices, galhetas, imagens, paramentos e crucifixos, que Dom Pedro observou com interesse, pois cada objeto possuía sua própria história. O imperador percorreu a sacristia e, no altar-mór, demorou-se junto aos túmulos do Conde dom Henrique e sua mulher dona Theresa, o casal ligado à fundação de Portugal. Debruçou-se sobre uma inscrição latina que atribui ao Conde origem da Hungria (confundida com a Borgonha, erro que continuou até 1596, quando a verdade histórica foi estabelecida). Contemplou o riquíssimo coro, construído em pau santo (jacarandá) levado do Brasil.

O grupo de visitantes encaminhou-se depois para o Campo das Carvalheiras, onde observaram catorze lápides romanas em granito, com inscrições. Passaram rapidamente pelo Quintal do Ìdolo, onde conheceram um monólito em baixo relevo, seguindo depois em direção ao Paço Episcopal. Dom Pedro II chegava de uma viagem pela Europa e Egito, onde as obras de arte de grande importância o tinham embevecido, e deve ter sentido tédio usando seu tempo com lápides e monólitos. Mas sua educação e bondade não deixaram transparecer qualquer aborrecimento.

À semelhança do Porto, também o comitê de recepção de Braga organizou um “jantar opulento” para os presos da cidade, que foi servido, em gesto de humildade, pelos próprios membros do comitê. Os bondosos sentimentos cristãos estavam tão exacerbados que, para acompanhar a refeição e melhorar os apetites, os encarcerados puderam escutar uma banda de música, que tocava do lado de fora da prisão.

No Paço havia numerosos retratos de antigos prelados, que evocavam épocas remotas e mereceram a atenção do séquito. Do Paço seguiram a pé até o Seminário Diocesano de São Pedro, onde os esperava o bispo da cidade. Aqui contemplaram os restos da Torre de São Geraldo, construída no século 15. O grupo encaminhou-se então para os jardins do Campo de Santa Ana, enfeitados e preparados para uma noite de luzes e festejos. O imperador separou-se dos acompanhantes e seguiu, apenas com o cônsul brasileiro no Porto, Manuel José Rabello e o Barão do Bom Retiro, para um rústico belvedere na Buraquinha, de onde contemplou Braga. Munido de um binóculo, demorou quase uma hora, observando cada detalhe do horizonte. Curiosamente, não se interessou em ver o Bom Jesus de Braga, um local que os turistas não perdem usualmente.

Saindo da Buraquinha, Dom Pedro II e seu pequeno grupo foram à Biblioteca Pública, onde o Imperador quis ver um exemplar do Memorial da Távola Redonda. Apesar do pouco tempo de que dispunha, foi assistir a uma aula prática de Introdução aos Três Reinos da Natureza, para conhecer os materiais utilizados na pedagogia da química, física e história natural, além de instrumentos para uso topográfico. A incursão cultural de Dom Pedro e seus dois acompanhantes prolongou-se pela Livraria Pereira Caldas, onde o proprietário o presenteou com uma raridade para bibliófilos e o imperador se deliciou com velhas edições de assuntos históricos.

Os monarcas voltaram ao hotel, descansaram um pouco e, por volta das quatro e meia da tarde, embarcaram num trem, de volta à cidade do Porto. Braga anoiteceu toda iluminada, em clima de festa, com quatro bandas animando os ambientes públicos, mas os homenageados já estavam ausentes. Chegaram ao Porto às nove da noite, acomodaram-se no hotel, livres de compromissos, e no dia seguinte, às seis da manhã, entraram num trem especial que os conduziu a Coimbra, onde chegaram três horas depois, sendo acolhidos por autoridades laicas, pelo bispo e alguns brasileiros.

 

ESTADIA EM COIMBRA

Dias 4 e 5 de março de 1872


Hotel Mondego

Logo que sua majestade se apeou do trem, alguém se apressou para lhe segurar a sua pequena mala favorita (que não largava nunca)porém Dom Pedro II não aceitou e perguntou onde estava a carruagem que os levaria ao Hotel Mondego. Indicaram-lhe um carro luxuoso, puxado por quatro cavalos brancos e servido por pessoal de ricas librés azuis. O Imperador só concordou em aceitar quando lhe garantiram que não era nada oficial, tudo aquilo fazendo parte, como diríamos hoje, do “pacote” do hotel. Um extenso cortejo acompanhou os ilustres brasileiros, percorrendo as ruas da Sofia, Visconde da Luz, Calçada, passando pela Portagem até ao hotel, que ficava no Largo das Ameias. Não houve salvas de tiros, mas alguns foguetes foram lançados ao longo do percurso. Eram 9 horas e dez quando chegaram ao destino.

Sem prejuízo das demonstrações de afeto e admiração, Coimbra recebeu os monarcas brasileiros com simplicidade, sem bandeiras nem fanfarras. Sob o ponto de vista arquitetônico, a cidade possui desde o século 11 – antes mesmo da existência de Portugal como nação - diversos monumentos de grande expressão. Sua universidade centenária era famosa no mundo inteiro, inclusive tendo entre seus alunos alguns brasileiros que vieram a tornar-se  homens de estado em seu país. E por último, mas não menos importante, no seu ambiente cultural estudantil já fervilhava o espírito revolucionário dos socialistas e dos republicanos, alguns afins do jacobinismo, inimigos da atrasada monarquia lusitana e que abominavam o regime de escravatura ainda instalado no Brasil. Todos estes, certamente, não consideravam a chegada de um imperador como um fato auspicioso, embora esta atitude nada tivesse de hostilidade pessoal em relação a Dom Pedro II.

A própria Câmara Municipal conteve seu regozijo, apenas providenciando colchas de damasco para decorar as janelas do seu paço e facilitando o acesso da comitiva ao Hotel Mondego, reservado pelos monarcas. Os sinos repicavam alegremente. A Universidade decidiu oferecer uma coleção de livros raros e proporcionar aos imperadores o espetáculo de um doutoramento.


Luiz Couto Ferraz,
Barão do Bom Retiro

Sala dos Capelos

Eram 10 horas e 45 quando o Imperador chegou à imponente Sala dos Capelos, na Universidade, para assistir à cerimônia. Estava acompanhado do cônsul geral do Brasil, Porto-Alegre, mais o Barão do Bom Retiro e o Barão de Itaúna.

Na presença de setenta e quatro doutores, a cerimônia decorreu sem incidentes, com uma pequena multidão se espremendo para participar do acontecimento. Pelo minucioso relato da época, deve ter sido uma tortura interminável escutar os oradores, com suas frases infindas e rebuscadas, lembrando um mundo antigo de que talvez o próprio imperador quisesse escapar. Enfim, naquela época, em Coimbra já não era fácil se tornar um catedrático.

O pátio da Universidade e as imediações fervilhavam de estudantes. O imperador e seus dois acompanhantes visitaram a deslumbrante Biblioteca (joanina. barroca, século 18),  atravessaram o pátio e desceram pelas Escadas de Minerva, chegando à Sé Velha, um dos monumentos românicos mais importantes do país.

 


Sé Velha

Pátio da Universidade de Coimbra

Candido Borges Monteiro,
Barão de Itaúna

Sua majestade percorreu a nave, demorando-se junto aos túmulos, as colunas, os capiteis de inspiração romano-bizantina, os azulejos de origem moçárabe, as pinturas com os retratos da rainha Santa Isabel e de Santa Úrsula, e leu uma inscrição da época da tomada da cidade aos mouros, em 1064. Saiu do templo desceu a Rua de Quebra-Costas, atravessou o Arco de Almedina (nome árabe que significa Cidade Grande) e dirigiu-se a pé até às ruinas do Mosteiro de Santa Clara (conhecido como Santa Clara-a-Velha, fundado em 1283).

Este lindíssimo edifício gótico havia sido abandonado em 1677 e estava desde então soterrado pelas areias e detritos provenientes do assoreamento do Rio Mondego, apenas mantendo descoberto o andar superior. Assim permaneceu durante séculos, até ter sido recuperado e somente aberto ao público em 2009.  

 

 


O Arco de Almedina

Biblioteca (joanina) da Universidade

Santa Clara-a-Velha

O imperador ouvira muitas vezes mencionar a beleza romântica da Lapa dos Esteios, situada na quinta do Conde de Cannas. Continuando acompanhado de Porto-Alegre e dos dois barões, seguiu de carruagem até o recanto idílico, sendo recebido pelos proprietários.

Dom Pedro voltou ao hotel e saiu a pé, desta vez com sua mulher, para visitarem a Igreja de Santa Cruz, bem no centro da urbe. Neste templo de arquitetura renascentista demoraram-se junto aos túmulos dos dois primeiros reis de Portugal, Dom Afonso Henriques e Dom Sancho I. Admiraram as pinturas antigas, a esculturas, o mobiliário, os retábulos e a sacristia. Junto ao templo visitaram a Associação dos Artistas.

Já passava das três da tarde quando o casal de monarcas, de carruagem, se dirigiu à Quinta das Lágrimas, onde existe a Fonte dos Amores, famosa por ter sido o suposto palco de uma tragédia romântica da história lusitana, envolvendo o assassinato de Inês de Castro, amante do príncipe, futuro rei Dom Pedro I de Portugal. Este episódio está relatado nos Lusíadas, Canto III, estancias 118-135 e foi abordado por inúmeros escritores e poetas. Na Fointe dos Amores, no ponto onde jorra a água, algumas pedrinhas apresentam uma cor avermelhada (até hoje) que a tradição afirma serem vestígios do sangue de Inês de Castro (mais que provêm de algas do local).


Fonte dos Amores

Quinta das Lágrimas

Os donos da quinta vieram receber os visitantes. Entre outras preciosidades, estes viram na mansão um relicário com mechas de cabelo de Inês, o que mereceu uma explicação: quando as tropas de Napoleão invadiram Portugal, alguns soldados, em busca de riquezas, saquearam o Mosteiro de Alcobaça, violando os túmulos de Inês de Castro e do seu amor, o rei Dom Pedro I. Parte dos cabelos da ilustre amante acabou sendo vendida e recuperada. O imperador brasileiro inquiriu se a tradição da fonte tinha fundamento histórico. A resposta foi negativa, pois no tempo daquele drama havia ali somente uma zona de moinhos numa área descampada. O assassinato deveria ter ocorrido no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, onde o imperador estivera pela manhã. Ao retirar-se, Dom Pedro II levou algumas pedrinhas vermelhas como lembrança.


Túmulo da Rainha Santa

Saindo da Quinta das Lágrimas, dirigiram-se de carruagem até o Convento de Santa Clara (conhecido como Santa Clara-a-Nova), para visitar o mausoléu da Rainha Santa (Santa Isabel), sendo recebidos pelo prelado. Numa deferência especial, a madre abadessa abriu o túmulo, enquanto as freiras entoavam cânticos. Suas majestades e o prelado beijaram a mão da santa, parte do corpo que se mantém, até os dias atuais, com aspecto mumificado.

Eram cinco e meia da tarde quando os monarcas regressaram ao hotel, com jantar marcado para as seis, limitado à presença do pequeno séquito. Ao chegar, o Imperador passou pessoalmente pela cozinha e avisou que o horário do repasto se aproximava.  

Às nove horas seguiram até à Rua Larga, onde ficava o Teatro Acadêmico e assistiram o drama Pedro, da autoria do conselheiro Mendes Leal.

No dia 5 o Imperador madrugou, pois queria assistir a algumas lições na Universidade, onde o reitor o esperava. Às oito da manhã estava presente na aula de história eclesiástica, do 1º ano de Teologia, o que certamente lhe pareceu suficiente, pois às 10 horas foi visitar a Biblioteca da Universidade, uma joia do barroco português. Quando saiu, dirigiu-se ao Museu da Universidade, que reunia laboratórios, aparelhos científicos, sobretudo relacionados com a medicina e a fisiologia experimental. Dom Pedro II teve ocasião de assistir a uma aula científica, preocupando-se, numa demonstração de modéstia, em não perturbar o trabalho do professor. Ainda voltaria à Universidade para conhecer o Observatório Astronômico. Após cumprir uma visita pessoal, o imperador e sua comitiva encaminharam-se para o Jardim Botânico, seguindo depois para o Observatório Metereológico.

Terminada a excursão, o séquito dirigiu-se para o hotel, onde havia uma recepção e mais longos discursos. Num deles, uma personalidade local se desculpou pela ausência de grandes pompas em Coimbra, para homenagear Dom Pedro II, mas este respondeu, apertando-lhe afetuosamente a mão: “ Tudo estava bom. Estou satisfeito e nem era preciso tanto”.

Chegava a hora da partida, uma chuva interrompera a amenidade do tempo e o grupo de visitantes seguiu para a estação da estrada de ferro, seguido por uma multidão. Tinham recebido inúmeros presentes, de toda a ordem (sobretudo muitos livros) que levaram junto com as bagagens. Já no trem, que saiu em direção a Pombal, o imperador saudou a todos agitando o chapéu, respondendo aos gritos de “vivam suas majestades”. Abandonaram o trem em Pombal e seguiram em carruagens até Leiria, onde chegaram no dia 5 de março, às dez e meia da noite.

 

VISITA A LEIRIA E ARREDORES

Dia 5 e 6 de março de 1872

 


Mosteiro de Alcobaça

Mosteiro da Batalha, modelo exemplar  do gótico português

Esta cidade era então um pequeno burgo e recebeu os visitantes com foguetório e acolhedora algazarra. A Câmara Municipal estava engalanada, com vistosos arcos e colunas da ordem dórica e profusão de bandeiras portuguesas e brasileiras. Pernoitaram numa hospedaria confortável.

No dia 6 dirigiram-se ao Mosteiro da Batalha, que o imperador desejava conhecer, já que se tratava de um imponente e belo edifício gótico, ligado à história de Portugal. Eram cinco da manhã quando chegaram ao local. Sendo ainda madrugada, o monarca esperou que houvesse mais luz, para admirar o interior do mosteiro.

Ao todo, permaneceram três horas no local, seguindo depois para o Mosteiro de Alcobaça, da ordem cistersense. Neste monumento puderam admirar os túmulos de Dom Pedro I de Portugal (o pai do imperador tinha sido Dom Pedro IV) e de sua amada, Inês de Castro.


Túmulo de Inês de Castro

Após o almoço, às onze da manhã, tinham concluído a visita e continuaram em direção a Caldas da Rainha, aqui chegando à uma e meia da tarde. A próxima deslocação seria em direção a Lisboa onde, como sabemos, os soberanos já haviam passado, na primeira parte de seu périplo. Às 8 e meia da tarde subiram no Carregado em um trem especial, que os deixou em Lisboa às 9 e trinta e oito do dia 6 de março.

 

 

SEGUNDA ESTADIA EM LISBOA

Dias 6 a 13 de março de 1872

Quando a comitiva chegou à estação de Lisboa era esperada pelo rei Dom Luiz de Portugal, representantes da nobreza e autoridades, todos os ministros, o governador civil e  representantes da Câmara Municipal, não esquecendo os diplomatas brasileiros que serviam no país. Dom Luiz beijou a mão da imperatriz brasileira e abraçou efusivamente seu tio, Dom Pedro II. O encontro prolongou-se em uma sala da própria estação, onde os monarcas brasileiros contaram peripécias da longa viagem e foram avisando que estavam fatigados. Às dez horas, uma fila de mais de cem carruagens saiu da estação, demorando quase uma hora para chegar ao Hotel de Bragança, o mesmo que tinha sido reservado na primeira passagem por Lisboa. O clima de festa tinha voltado à capital portuguesa, com as ruas apinhadas e as saudações aos monarcas. O séquito permaneceu em repouso até o dia seguinte

No dia 7, Dom Pedro II levantou-se às cinco e meia, saiu do hotel às sete e pouco e entrou na bela carruagem (um landau) que tinha sido colocada à sua disposição, dirigindo-se ao Palácio das Necessidades, para visitar seu familiar Dom Fernando e a Condessa d’Edla. Foi uma conversa cordial de parentes e amigos, que durou horas, versando sobretudo as artes, que os dois monarcas cultivavam.


Rua do Ouro (ou Rua Áurea)

O imperador regressou ao hotel, onde almoçou cedo e recebeu diversos convidados, entre os quais o Conde de Paraty e o cônsul brasileiro. Eram 11 horas quando o casal de imperadores se dirigiu ao Palácio das Janelas Verdes, para visitar a imperatriz dona Amélia, viúva de Dom Pedro I do Brasil. Ficaram durante duas horas e o que se passou nesse encontro, certamente gratificante mas doloroso, não foi divulgado.

Dali foram em direção a Benfica, indo por Alcântara, São Sebastião e Sete Rios, ao encontro da Infanta dona Isabel Maria, tia do casal, que morava numa vivenda. Depois, saíram para conhecer a igreja e o convento de São Domingos de Benfica, voltando pela Estrada de Laranjeiras em direção à Igreja da Graça e do Aqueduto das águas, chegando ao hotel pelas quatro da tarde, onde receberam a visita da rainha de Portugal e de outros nobres. Às nove da noite, Dom Pedro foi visitar a Academia Real das Ciências. Estava sobriamente vestido, foi convidado a ocupar a presidência e pronunciou um breve discurso.

O imperador voltou ao hotel e saiu com a mulher no carro descoberto, passeando pelo Largo do Rossio e Rua do Ouro, sendo reconhecidos e saudados pelos populares. Quando se recolheram eram duas da madrugada – o que não impediu o monarca de sair no dia seguinte às sete da manhã, para conhecer o Museu da Real Associação dos Arquitetos Civis Portugueses, que então estava instalado no Convento do Carmo. Foi junto com alguns acompanhantes.

O presidente da instituição era Joaquim Possidônio Narciso da Silva, arquiteto da Casa Real.  Cabe aqui lembrar que este arquiteto, decorador e antiquário, esteve no Brasil, onde realizou algumas decorações. (Nota do autor deste texto: seu sobrenome deu origem ao adjetivo, até hoje usado, “possidônio”, como indicativo de gosto duvidoso).

Dotado de imensa versatilidade e informação privilegiada sobre as artes, o presidente da casa e outros presentes conversaram longamente com o Imperador, que admirou as preciosidades em exposição. Na despedida, o monarca recomendou que tratassem convenientemente dos monumentos nacionais, já que alguns se encontravam em estado de abandono.


Palácio da Pena

Saindo do local, o grupo de visitantes dirigiu-se à Praça da Figueira, no centro de Lisboa, onde Dom Pedro II comprou maçãs. Um saloio (caipira) comentou: “Então este é que é o Imperador? Não se parece nada com os reis!”. O monarca passou pela Sé e regressou ao hotel, de onde saiu com sua mulher, dirigindo-se para o Palácio das Janelas Verdes, onde residia a Imperatriz viúva de seu pai. Era meio dia quando partiu sozinho para visitar o Hospital São José, o maior do reino de Portugal. Foi recebido pelos diretores e fez uma verificação cuidadosa, observando os corredores limpos e bem cuidados, em especial as dependências medico-cirúrgicas. Em nenhum momento da viagem o imperador se interessou por coisas fúteis, sempre demonstrando curiosidade com as instituições literárias ou científicas, e particularmente com assuntos de medicina.

Em sua primeira passagem por Lisboa, Dom Pedro não encontrara o poeta e Visconde de Castilho, que se achava enfermo. Aproveitou os momentos livres e deixou o hospital em direção à Rua do Sol, onde morava o visconde. Estava acompanhado do Barão de Itaúna e do Conselheiro Lisboa, da embaixada brasileira. Foi o encontro de dois amantes das artes e das letras, e tiveram muito que comentar. Logo depois, o monarca encaminhou-se para a Câmara de Deputados e às três e meia entrava na Biblioteca Pública de Lisboa, regressando ao hotel, onde era aguardado pelo rei Dom Luiz de Portugal e numerosa comitiva. Após o jantar foram ao Teatro Trindade assistir “Médico à Força”, de Molière.


Teto da Sala das Pegas

Chegou o dia 9, previsto pelos imperadores para um passeio a Sintra, sendo aqui  esperados pelo casal Dom Fernando e a Condessa d’Edla, que os esperavam para uma visita ao Palácio da Pena, uma curiosa construção de inspiração romanesca.

No pátio, a Filarmônica de São Pedro saudou os visitantes com o Hino Brasileiro. Seguiram para o Palácio Real, onde o desditoso  Dom Afonso VI, que não teve reino nem mulher, viveu em cativeiro durante quinze anos, até à morte. Até hoje, no aposento que lhe serviu de cárcere se podem ver os ladrilhos muito desgastados, de tantos passos do infeliz nobre. Na Sala das Pegas (aves que parecem tagarelar o tempo todo) o imperador recebeu uma explicação: no teto do imenso cômodo estão pintadas muitas pegas, porque a esposa do rei D. João I, a rainha Fillippa, o teria surpreendido com galanteios a uma dama, o que deu origem a mexericos femininos na corte. O rei, alegando inocência, atribuiu à maledicência às damas e resolveu as representar como pegas, ou seja, fofoqueiras.

 


Palácio de Queluz, exemplar do rococó português

Passaram à sala onde o monarca Dom Sebastião tomara a trágica decisão de ir combater os mouros em África – de onde jamais voltaria, deixando o reino mergulhado no caos.

Eram 4 horas quando o séquito seguiu em direção ao Palácio de Queluz, local onde faleceu o pai do imperador.

Uma hora depois voltaram ao hotel e jantaram. Os imperadores, Dom Fernando, a Condessa d’Edla e a comitiva brasileira seguiram depois para o Teatro Dona Maria II, onde era exibido em noite de gala o “Gladiador de Ravena”, uma peça alemã em versão de Latino Coelho, com direito à interpretação de uma das maiores atrizes lusitanas da época, Emília das Neves. Antes do espetáculo, a orquestra executou uma partitura inédita intitulada “Brasileira”.

No dia 10, às sete da manhã, o imperador saiu com seu médico em carro fechado e foram à missa na Igreja de Nossa Senhora da Encarnação. Durante a primeira parte da estadia em Lisboa, oito meses antes, o monarca prometera ao recluso historiador Alexandre Herculano que o iria visitar em sua quinta de Vale de Lobos. Pelas nove horas, junto com o médico e dois amigos, tomou o trem em direção a Santarém, para cumprir a sua palavra. Na verdade, Dom Pedro, indo ao encontro de um dos maiores historiadores portugueses, expressava assim sua admiração e afeto pela honestidade intelectual. “Considero esta parte do meu programa muito importante” afirmou o imperador. De Santarém até Vale de Lobos seguiram em carro aberto, onde comeram um almoço campestre, com as iguarias da quinta de Herculano.


O escritor e historiador
Alexandre Herculano

Rua de Santarém

À uma meia da tarde estavam de novo em Santarém. Na Igreja da Graça demoraram-se junto ao túmulo raso de Pedro Álvares Cabral, voltando todos a Lisboa pelo trem, por volta de três e meia da tarde. Quando chegaram à capital, Dom Pedro ainda foi conhecer o Asilo de Maria Pia, em companhia do conselheiro Brás Carneiro Nogueira da Costa e Gama, segundo conde de Baependi, dirigindo-se depois ao hotel.

Enquanto nesse dia o marido viajava pelo interior, a imperatriz Thereza Christina visitou de novo a imperatriz viúva, sua sogra, e um asilo para crianças pobres.

Antes do jantar receberam no hotel um grande grupo de diplomatas. E, logo após a refeição, mais um espetáculo, desta vez no Teatro de São Carlos. Para terminar o dia, Dom Pedro passeou pelas ruas com o Barão do Bom Retiro.

No dia 11, pelas sete da manhã, o monarca saiu do hotel, acompanhado de Silva Tullio e do conselheiro Lisboa, com o objetivo de conhecer a Igreja de São Roque, em particular a suntuosa Capela de São João Batista, mandada executar em Roma pelo rei D. João V (que ficou na história pela quantidade de ouro brasileiro que gastou com seus caprichos). A capela é tão deslumbrante que em Roma o papa Benedicto XIV a mandou armar na Basílica de São Pedro para nela rezar a primeira missa. Esta maravilha de mármores coloridos e alabastros chegou a Lisboa em 1748, mas só foi franqueada ao público em 1751, já no reinado de Dom José.


Capela de São João Batista,
na Igreja de São Roque

Brás Nogueira da Gama,
2º Conde de Baependi

Dom Pedro dirigiu-se depois à Basílica da Estrela, construída no reinado de Dona Maria I, rainha conhecida por sua religiosidade. Continuou o périplo visitando a Casa dos Bicos, do tempo do renascimento (este imóvel alberga desde 2012 a Fundação José Saramago). Encaminhou-se então para o pitoresco bairro de Alfama, que percorreu de canto a canto.

Após o almoço, outra visita de cortesia à Academia de Belas Artes, onde fora preparada uma grande exposição em sua homenagem. Passou à Câmara dos Pares e à Torre do Tombo, que guarda preciosidades da historia de Portugal e do Brasil. Às três da tarde entrava na Escola Polytecnica, de onde seguiu a pé para a Imprensa Nacional.

De noite, os monarcas portugueses ofereceram à comitiva uma festa no Paço da Ajuda. O rei lusitano não queria poupar esforços para celebrar a visita de seu tio e foi uma das maiores comemorações já vistas em Lisboa, com sarau, um grande concerto em três partes, um pot pourri de música operística - e um deslumbrante banquete, para coroar a noite.  Toda a nobreza e a elite de Lisboa estiveram presentes. A festança terminou às quatro da manhã.


Bairro de Alfama

A Casa dos Bicos

Não querendo estabelecer paralelo com o episódio do “Baile da Ilha Fiscal” no Rio de Janeiro (20 de novembro de 1889) temos que reconhecer que tanto as celebrações no Paço da Ajuda de Lisboa, quanto no palacete da Ilha Fiscal, se realizaram em ambientes de regimes obsoletos e moribundos, que ignoravam o progresso social e pouco sensíveis à situação de pobreza das suas  populações.

No dia 12, suas majestades dirigiram-se a Mafra, para conhecer o Convento e o destacamento de Infantaria 10, chegando às dez e meia da manhã. Dom Luiz, o rei de Portugal, chegou pouco depois. No local existe uma imensa e rica biblioteca, que mereceu toda a atenção do soberano.

À uma e meia da tarde, o comitê brasileiro voltou a Lisboa, sendo o soberano esperado por numerosas autoridades e pessoas de todas as classes. O temperamento afável e popular demonstrado por Dom Pedro II certamente encorajava as pessoas a visitá-lo.

Após o jantar, suas majestades foram de novo ao teatro, desta vez ao Gymnasio, onde o programa constava de um drama e três comédias. Os imperadores escutaram o Hino Brasileiro mais uma vez e receberam infindáveis visitas em seu camarote. O horário ainda permitiu que o casal continuasse a noite no Teatro de São Carlos, para assistir à ópera D. Carlos e mais um espetáculo de dança.


Convento de Mafra

Basílica da Estrela

Chegou o dia 13 de março, marcado para a partida. O Imperador saiu do hotel um pouco após as sete horas e dirigiu-se à loja Aux arts reunis (assim mesmo, em francês) na Rua Nova dos Mártires, onde se fez retratar. Foi de carruagem até ao Aqueduto das Águas Livres e depois passou pelo Palácio das Necessidades, para encontrar Dom Fernando, com quem almoçou.


 A carruagem levou o casal de imperadores ao Palácio das Janelas Verdes, para se despedir da viúva de Dom Pedro II. No último passeio foram a São Vicente de Fora, onde repousavam os restos mortais de seu pai, Dom Pedro I do Brasil. O prelado os encaminhou aos jazigos da família dos Bragança, onde oraram.

Voltando ao hotel, despediram-se do proprietário e dos funcionários, partindo todo o séquito às duas da tarde, para o Arsenal da Marinha, sendo aguardados pelos reis de Portugal, autoridades e amigos. Duas galeotas os transportaram até o paquete inglês Boyne, que seguiu pelo Rio Tejo até ao mar. Eram cinco da tarde de um bonito dia na deslumbrante cidade de Lisboa e em muitos rostos havia lágrimas. Do cais podiam-se avistar os imperadores no convés, acenando com lenços brancos.

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