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SOCIEDADE PAULISTA DE BELAS ARTES (SINDICATO DOS ARTISTAS PLÁSTICOS DE SÃO PAULO)
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Aldo Bonadei, Paisagem, 1952

Entidade fundada em 1921, sob a presidência do professor Alexandre de Albuquerque, com a finalidade de congregar os artistas plásticos paulistas e difundir o interesse pela arte, através da realização de exposições e outros tipos de evento. Em 1937, buscando beneficiar-se da legislação trabalhista então adotada no país, a Sociedade, ainda sob a presidência de Albuquerque, alterou a sua natureza jurídica e passou a atuar também no campo da representação classista, assumindo a denominação de Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo, sem abandonar, porém, suas finalidades iniciais.

Entre as iniciativas da Sociedade Paulista de Belas Artes durante a sua primeira década de existência destacaram-se a organização das três edições da Exposição Geral de Belas Artes, a primeira delas no ano de 1922. O objetivo principal dessas Exposições Gerais, bem como dos Salões que lhe seguiram, era proporcionar aos associados a possibilidade de expor seus trabalhos artísticos, visto que naquela época as mostras individuais eram um privilégio acessível a poucos. Apesar da disposição, sempre reafirmada, de evitar restrições prévias a correntes e estilos, é bastante nítido o predomínio do academicismo naquelas mostras; tendência que ainda prevaleceria nas primeiras edições do Salão Paulista de Belas Artes, nome assumido pelo evento a partir de 1933. Como argumentou o crítico Paulo Mendes de Almeida, o próprio termo Belas Artes, presente na denominação da entidade e das mostras por ela promovidas, contribuía para afastar muitos dos que então assimilavam as linguagens estéticas modernas; o que não impediu, diga-se, que o evento logo tivesse a participação de artistas que jamais poderiam ser chamados de acadêmicos, como Vittorio Gobbis e os pintores que futuramente seriam identificados como o Grupo Santa Helena (Francisco Rebolo, Mario Zanini, Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Clovis Graciano, Mário Martins, Fulvio Pennacchi, Humberto Rosa e Rullo Rizzotti). É de se notar, por sinal, a participação bastante significativa na vida do Sindicato de alguns dos integrantes desse grupo, como Rebolo, Bonadei e Zanini, que não só se filiaram à entidade como tomaram parte na organização das exposições lá realizadas.


Fulvio Pennacchi, Cena rural

A trajetória da Sociedade Paulista nas décadas de 30 e 40 guarda relação direta com o ambiente artístico e cultural da cidade de São Paulo naquele período, fortemente influenciado pelo debate sobre os rumos da arte moderna no país. De um lado, os que defendiam o aprofundamento da postura experimental dos primeiros anos do Modernismo reuniam-se em entidades como a Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) e o Clube dos Artistas Modernos (CAM), ambos fundados em 1932. De outro, havia um expressivo número de artistas que, apesar de não acadêmicos, rejeitavam os excessos vanguardistas dos primeiros modernistas, defendendo que a desejável absorção dos valores estéticos do Modernismo não deveria se confundir com o abandono do apuro técnico no fazer artístico; posicionamento que os levava a valorizar os avanços conquistados nesse campo, ao longo da história da arte. Desse modo, no final dos anos 30, destacavam-se três espaços expositivos na capital paulista: o Salão de Maio, que em suas três edições (1937, 1938 e 1939) abrigou, prioritariamente, os artistas identificados como vanguardistas; as Exposições da Família Artística Paulista, que também em três edições, realizadas entre 1937 e 1940, reunia artistas de tendência moderna mais moderada; e, por fim, o referido Salão Paulista de Belas Artes, promovido pelo Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo, que aos poucos foi deixando de ser um espaço identificado com o academismo para abrigar as manifestações artísticas modernas. Apesar das diferenças de orientação desses salões, vários artistas circulavam entre eles, como o pintor Francisco Rebolo, figura central do Grupo Santa Helena, que participou ativamente dos Salões Paulistas, integrou a Família Artística Paulista e expôs nos Salões de Maio.

A 4ª edição do Salão Paulista, realizada em 1938, a primeira sob a rubrica do Sindicato, já sinalizava claramente as novas tendências que acabariam por predominar nas mostras seguintes, tendo contado com a presença de Anita Malfatti e Oswald de Andrade Filho. De fato, nos anos seguintes, a lista dos “modernos” no Salão Paulista só cresceria. Como afirma Lisbeth Gonçalves, a história desses salões ao longo das décadas de 20, 30 e 40 acompanha a ascensão dos modernos, que aos poucos passam a dominar as mostras. Na sua 7ª edição, realizada em 1942, na Galeria Prestes Maia, então criada, eles já eram claramente hegemônicos. A própria composição da comissão organizadora do Salão de 42, da qual fazem parte Aldo Bonadei, Mário Zanini, Francisco Rebolo, Waldemar da Costa e Bruno Giorgi, entre outros, revela o pluralismo da mostra; ressaltada, por sinal, no texto de seu catálogo. Nessa edição é montada ainda uma sala especial, a “Sala dos Intelectuais”, na qual foram apresentadas “incursões” às artes plásticas de intelectuais de outras áreas, como Alberto Conte, Jenny Klabin Segall, Jorge de Lima, Luís Martins, Paulo Mendes de Almeida, Luís Saia, Mário de Andrade, Mário Neme, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Sérgio Milliet e Menotti del Picchia. Dois anos depois, a nona edição do Salão daria destaque às mulheres.


Rebolo, Veneza, 1958

Na verdade, ao longo dos anos 40, extintos a Sociedade Pró-Arte Moderna, o Clube dos Artistas Modernos, o Salão de Maio e a Família Artística Paulista, foi o Salão Paulista de Belas Artes o espaço preferencial para a divulgação da arte moderna em São Paulo, situação só alterada com a criação do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e do Museu de Arte Moderna (MAM-SP), nos anos finais daquela década. Assim, além dos artistas já citados, o Salão Paulista teve, ao longo de suas diversas edições, a participação de outros importantes nomes da arte brasileira, como Antônio Gomide, Bruno Giorgi, Carlos Scliar, Ernesto De Fiori, Flávio de Carvalho, Hilde Weber, John Graz, Lívio Abramo, Lothar Charoux, Lucy Citti Ferreira, Paulo Rossi Osir, Póla Rezende, Rino Levi, Toledo Piza e Waldemar da Costa.  Em 1949, realizou-se a 13ª e última edição do Salão.

Além dos Salões Paulistas de Belas Artes, o Sindicato organizou também exposições em bairros da periferia da capital paulista, tendo contribuído para revelar novos talentos artísticos, como a pintora Maria Leontina. Merecem ainda destaque, entre as iniciativas da instituição, a abertura de um curso livre de desenho em sua sede, em 1933; e, no ano seguinte, a realização do Primeiro Salão Paulista Infantil de Desenhos e Aquarelas, voltado para crianças de até 14 anos de idade. Nos anos seguintes ao encerramento dos Salões, em 1949, o Sindicato reduziria consideravelmente as suas atividades.

Fontes
- ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo: Perspectiva, 1976. (pp. 191-196)
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Sociedade Paulista de Belas Artes, p.484; Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo, p.483).
- Itaú Cultural. Verbetes: Sindicato dos Artistas Plásticos.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
instituicoes_texto&cd_verbete=3964&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=12>

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