Salão Revolucionário - Salão de 1931 ou Salão dos Tenentes
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Lucio Costa

Nome pelo qual ficou conhecida a 38ª Exposição Geral de Belas Artes, realizada entre os dias 1° e 29 de setembro de 1931, na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), no Rio de Janeiro. Tradicional reduto da arte acadêmica, o Salão daquele ano foi excepcionalmente dominado pelos artistas modernistas, devido à orientação dada ao evento pelo arquiteto Lúcio Costa, que havia assumido a direção da ENBA em dezembro de 1930, e procurava promover a renovação da instituição.

A nomeação de Lúcio Costa, que contava então apenas 28 anos de idade, para a direção da tradicional Escola Nacional de Belas Artes se deu no contexto das mudanças políticas ocorridas no país após a Revolução de 1930, e do decorrente processo de renovação dos quadros administrativos do governo federal. Destacava-se, nesse processo, a ascensão política de um grande número de oficiais de patente intermediária das Forças Armadas, genericamente designados como “tenentes”, que na década anterior haviam tentado, seguidas vezes, depor o regime oligárquico vigente no país através de levantes armados, e que agora eram alçados a importantes postos do governo federal e ao comando de diversos estados da federação. Assim, por conta de suas intenções radicalmente reformadoras, o Salão de 31 foi jocosamente apelidado por alguns como “Salão dos Tenentes”.

Na direção da ENBA, Lúcio Costa tentou reformar o ensino das artes plásticas na instituição, que em plena década de 1930, já então centenária, permanecia sendo um sólido reduto da arte acadêmica. Mesmo a representação pictórica impressionista e a linguagem simbolista, que havia décadas tinham deixado de ser novidade nos grandes centros europeus, até então só haviam ganhado terreno na Escola de forma muito tímida. As vanguardas modernistas que agitavam a cena artística européia desde as primeiras décadas do século XX, por sua vez, eram ali completamente ignoradas. Para mudar tal situação, Lúcio Costa contratou professores identificados com o ideário modernista, como os arquitetos Alexander Buddeus e Gregori Warchavchik, esse último provavelmente o único, até então, a ter projetos arquitetônicos de caráter modernista construídos no Brasil; bem como o escultor Celso Antônio e o pintor Leo Putz.

Ao mesmo tempo, e de forma mais frontal, o novo diretor atacou também o tradicionalismo que dominava as Exposições Gerais de Belas Artes, evento que cumpria importante papel na perpetuação dos padrões estéticos conservadores por selecionar, para compor as mostras, apenas obras de perfil acadêmico, e também por premiar com bolsas de estudo na Europa apenas aqueles alunos que se mostrassem claramente refratários à aproximação com as correntes modernistas. Por suas intenções renovadoras, o Salão de 31 foi realizado à revelia do Conselho Nacional de Belas Artes, dominado pelo tradicionalismo estético. Sua Comissão Organizadora era composta pelo próprio Lúcio Costa, o escultor Celso Antônio, os pintores Cândido Portinari e Anita Malfatti e o poeta Manuel Bandeira. Sob a alegação de dificuldades financeiras, nesse ano não foi promovida qualquer tipo de premiação.


L. Segall Morro Vermelho 1926

A Comissão Organizadora do Salão de 1931 optou por não excluir nenhum dos trabalhos inscritos, o que fez com que a mostra tivesse um número recorde de obras expostas: 506 pinturas, 129 esculturas e 35 projetos de arquitetura. Entre os participantes estavam alguns dos principais pioneiros do modernismo brasileiro, bem como artistas um pouco mais jovens, que só então começavam a aparecer. Anita Malfatti compareceu com sete obras, entre as quais O homem amarelo e A estudante russa, que integraram a sua famosa exposição de 1917. Outras obras marcantes presentes na mostra foram Morro Vermelho (1926), de Lasar Segall; A Feira (1925), de Tarsila do Amaral; e Retrato de Manuel Bandeira (1931), de Cândido Portinari. Victor Brecheret apresentou Tocadora de guitarra em pé (1923), Fuga para o Egito (1924) e Tocadora de guitarra sentada (1927). Estiveram presentes também Aldo Bonadei, Antônio Gomide, Emiliano Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Friedrich Maron, Guignard, Ismael Nery, John Graz, José Bernardo Cardoso Júnior, Leo Putz, Moussia Pinto Alves, Orlando Teruz, Paulo Rossi Osir, Pedro Luiz Correa de Araújo, Quirino da Silva, Regina Graz, Valdemar da Costa e Vittorio Gobbis, entre outros. Para o escritor e crítico de arte Mário de Andrade, as principais revelações do Salão foram Portinari, Vittorio Gobbis e Guignard, esse último, com 27 obras, o artista com o maior número de trabalhos expostos. Outro destaque foi Cícero Dias, que apresentou o imenso painel Eu vi o mundo ... Ele começava no Recife, que teve partes que retratavam cenas eróricas danificadas pelo público.

Os artistas tradicionais – apelidados de generais, em contraposição aos tenentes - também se inscreveram, mas muitos deles decidiriam não participar da exposição, em protesto contra a prioridade dada às obras de orientação moderna. De fato, enquanto essas últimas foram, em geral, dispostas de forma retilínea pelo recinto da exposição, o que permitia maior destaque para cada trabalho, as obras de cunho acadêmico foram amontoadas nas paredes das salas a elas reservadas, sobrepondo-se umas às outras.

A política reformista implementada por Lúcio Costa na ENBA sofreria fortes resistências, especialmente da parte de um grupo de professores da instituição liderados por José Mariano Filho, que a dirigira entre 1926 e 1927. No exato dia da abertura da Exposição, 1° de setembro, o ministro da Educação Francisco Campos demitiu-se do governo, fragilizando a posição de Lúcio Costa na direção da Escola. Sem apoio político diante da celeuma produzida pela mostra, Costa não foi capaz de suportar as pressões e acabou por também se demitir no dia 18 daquele mesmo mês, quando o Salão Revolucionário ainda estava aberto.


Tarsila Amaral A feira

Embora o próprio Lúcio Costa tenha declarado, muitos anos depois, que o Salão de 1931 “foi um simples intermezzo, embora oficial, na sequência tradicional dos Salões”, o evento foi, na verdade, bem mais do que isso. A par da grande qualidade artística das obras expostas, foi exatamente o seu caráter oficial que fez do Salão de 31 um marco na história da arte brasileira, já que representou o primeiro evento dominado pela arte moderna no Brasil a ter a chancela de um prestigiado órgão estatal. E, neste caso, da própria Escola Nacional e Belas Artes, responsável por ditar os padrões de produção e recepção das artes plásticas no país. Nesse sentido, por ter iniciado a conquista de espaços institucionais para a arte e a cultura modernas no país, o Salão Revolucionário é considerado por muitos tão importante quanto a Semana de 1922. Esse aspecto ganha ainda maior relevo se levarmos em conta que, nos anos seguintes, ocorreria uma notável ampliação da atuação do Estado brasileiro no campo cultural, acompanhando a tendência mais geral de intervencionismo do poder público na vida social, que marcou o período varguista.

O legado do Salão foi significativo. Naquele mesmo ano de 1931, quando Lúcio Costa ainda dirigia a ENBA, formou-se no seu interior o Núcleo Bernardelli, integrado por jovens artistas - Ado Malagoli, Eugênio de Proença Sigaud, Joaquim Tenreiro, José Pancetti, Milton Dacosta e Quirino Campofiorito, entre outros - que também propugnavam por reformas no ensino de arte no Brasil que permitissem maior liberdade criativa. Quase uma década mais tarde, em julho de 1940, o desejo de modernização que se expressara no Salão de 31 ganhou formas mais sólidas quando foi criada a Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes, permanecendo os acadêmicos na denominada Divisão Geral do mesmo Salão. Em 1952, a Divisão Moderna se desmembraria do tradicional Salão para dar origem ao Salão Nacional de Arte Moderna.

Fontes
- LIMA, Lúcia Meira. “Salão de 31: a XXXVIII Exposição Nacional de Belas Artes”. In: Cadernos do PROARQ. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, UFRJ, 2008.
<http://www.proarq.fau.ufrj.br/novo/arquivos/anexos/cadernos_proarq/cadernos-proarq12.pdf>
- ALVARADO, Daisy Peccinini; MACHADO, Vanessa. Salão Revolucionário. Museu de Arte Contemporânea. Arte no século XX / XXI: visitando o MAC na web.
<http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo2/modernidade/eixo/salaorev/index.html>
- SILVA, Raul Mendes. Artes Visuais 1930-54. Arte Brasileira / Textos.
<http://www.raulmendesilva.pro.br/artes_visuais.shtml>
- Itaú Cultural. Verbete: Salão Revolucionário.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_
texto&cd_verbete=3838&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=8>