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SALÃO DE MAIO
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Livio Abramo, gravura

Mostra de artes plásticas organizada na cidade de São Paulo durante três anos consecutivos (1937, 1938 e 1939), reunindo importantes nomes da arte moderna brasileira e estrangeira. O I Salão de Maio foi inaugurado em 25 de Maio de 1937, no Esplanada Hotel, por iniciativa do artista e crítico de arte Quirino da Silva, que contou com a colaboração de Flávio de Carvalho, Geraldo Ferraz, Irene de Bojano, Madeleine Roux, Odete de Freitas e Paulo Ribeiro Magalhães. Anteriormente, Quirino já havia participado da organização de outras importantes exposições de arte, como o Salão da Primavera (1923) e o Salão de Outono (1926), ambos no Rio de Janeiro e que, anos mais tarde, se tornaria o primeiro secretário do Museu de Arte de São Paulo (MASP). De acordo com o texto de apresentação do seu catálogo, o I Salão de Maio tinha o objetivo de retomar a realização de exposições coletivas de arte moderna em São Paulo – a última havia sido promovida três anos antes, pela extinta Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) – e, dessa forma, reunir “a produção dos nossos pintores e escultores que são capazes de rasgar novos horizontes à expressão plástica, absorvendo e reproduzindo o sentido da história da arte de nosso tempo, nos seus progressos técnicos e no seu conteúdo sentimental, ideológico e poético”. Dessa primeira edição do Salão, que, como as duas outras, não contou com nenhum tipo de premiação, participaram somente artistas brasileiros ou radicados no Brasil, como Antônio Gomide, Cândido Portinari, Carlos Prado, Cícero Dias, Flávio de Carvalho, Guignard, Hugo Adami, Lasar Segall, Lívio Abramo, Quirino da Silva, Santa Rosa, Tarsila do Amaral, Victor Brecheret, Vittorio Gobbis, Waldemar da Costa e Yolanda Mohalyi, entre outros. Destaque-se aqui a presença do escultor Ernesto de Fiori, que pela primeira vez participava de uma mostra coletiva no Brasil. Paralelamente, foram realizadas, no próprio recinto da exposição, diversas conferências sobre arte, como as de Flávio de Carvalho (O aspecto mórbido e psicológico da arte moderna), Elias Chaves Neto (O Sentido Político da Arte Moderna) e a do italiano Anton Giulio Bragaglia (As tendências modernas da cenografia); além das de Álvaro Moreyra, Julieta Bárbara, Carlos Pinto Alves e Vera Vicente de Azevedo. O Salão obteve grande sucesso de público e de crítica, e várias das obras expostas foram vendidas.


Flávio de Carvalho, Retrato de P. Maria Bardi, 1964,
MAB-FAAP

A segunda edição do Salão de Maio foi inaugurada em 27 de junho de 1938, no mesmo local tendo, basicamente, os mesmos organizadores do evento anterior. No texto de apresentação do seu catálogo, o escritor Jorge Amado afirma que, no Brasil de então, enquanto a literatura moderna já tinha ganhado o público e enterrado definitivamente as “Academias de Letras e os anjinhos literários”, nas artes plásticas ainda havia “um triunfo absoluto do academismo”. Para o escritor baiano, porém, tal situação vinha sendo triunfalmente superada pelas mostras então realizadas: “O Salão de Maio rompeu esse ambiente com a sua mostra de 1937. A de 1938, muito mais importante, selecionada, internacional, viva, contendo as mais diversas tendências das artes plásticas modernas, é a vitória definitiva. O sucesso do Salão de Maio representa o melancólico enterro dos salões acadêmicos”. Além de muitos dos artistas já presentes em sua primeira edição, dessa segunda mostra participaram outros importantes nomes da arte brasileira, como Alfredo Volpi, Di Cavalcanti, Francisco Rebolo, Lisa Ficker Hofmann, Luís Soares, Manoel Martins, Oswaldo Goeldi, Orlando Teruz e Paulo Rossi Osir. A exposição contou ainda com a participação de pintores surrealistas e abstracionistas ingleses, como Ben Nicholson, Roland Penrose, Ceri Richards, Eric Smith, Geoffrey Graham e John Banting; além dos mexicanos Leopoldo Méndez (gravador) e Diaz de Leon (pintor). Como da primeira vez, foram realizadas conferências paralelas à mostra, das quais três foram publicadas na Revista do Arquivo Municipal, a saber: As musas deveriam dançar, de Carlos Pinto Alves; A pintura moderna; de Jean Maugue; e A pintura e a mística, de Roger Bastide. Também fizeram parte do programa dessa segunda mostra as conferências de Aníbal Machado, Elias Chaves Neto, Geraldo Ferraz, Graciliano Ramos, Hernández Catá (ministro de Cuba), Jorge Amado e Quirino Campofiorito, entre outros. O catálogo da exposição apresentava capa de Lívio Abramo e textos de Flavio de Carvalho, Lasar Segall, Jorge Amado, Mario de Andrade, Sergio Milliet e Vittorio Gobbis.


Guignard, Autorretrato

O II Salão foi novamente bem recebido pelo público e pela crítica, sendo vendida grande parte das obras expostas. É ainda Jorge Amado quem, no já referido texto do catálogo, avalia antecipadamente a recepção do Salão: “o público, falo do grande público que não entende de técnica de pintura mas vê, sente e se emociona, reage de um modo favorável aos artistas modernos expostos pelo Salão de Maio. Terminou a época dos risinhos. Existe um ambiente de compreensão. Criar esse ambiente tem sido a grande tarefa do Salão de Maio”.

Sem menosprezar a contribuição dos demais organizadores, o crítico Paulo Mendes de Almeida atribui o grande sucesso de público e de crítica dos dois primeiros Salões de Maio a duas pessoas em particular: Quirino da Silva, que além de garantir o alto nível artístico da mostra, foi capaz de fazer dela um evento social de grande repercussão; e Geraldo Ferraz, que além de também cuidar da parte artística, realizou ampla e minuciosa cobertura jornalística do evento.

Na sequência, porém, uma disputa pelo controle do Salão acabou por comprometer a sua continuidade. No início de 1939, Flávio de Carvalho registrou em seu nome o título Salão de Maio, sob o argumento de que a mostra corria o risco de ser desvirtuada e de perder o seu caráter revolucionário; no que foi contestado por outros fundadores do Salão, que o acusaram de querer, simplesmente, controlar o evento. Com a cisão, Quirino da Silva, Geraldo Ferraz e outros que haviam participado da criação da mostra, ficaram de fora de sua terceira e última edição, realizada na Galeria Ita, no segundo semestre daquele ano, com a participação de 39 artistas. Foi criada, então uma Comissão de Aceitação de Obras, da qual faziam parte Flávio Carvalho, Antônio Gomide, Jacob Ruchti, Lasar Segall e Victor Brecheret. Entre os expositores brasileiros e radicados no Brasil estavam nomes já presentes nas edições anteriores e também Clovis Graciano, Anita Malfatti e Fúlvio Pennacchi, entre outros. Entre os estrangeiros estavam os norte-americanos Alexander Calder e Jean Xceron, o alemão Josef Albers, o francês Jean Hélion e o italiano Alberto Magnelli. Mais uma vez, a mostra foi acompanhada de conferências sobre arte. Como catálogo, foi lançada a Revista Anual do Salão de Maio, ricamente ilustrada, com capa de alumínio, que apresentava um histórico do movimento modernista no Brasil, através de artigos redigidos por alguns de seus principais expoentes, como Lasar Segall, Anita Malfatti, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Rino Levi, Paulo Mendes de Almeida; além do manifesto dessa terceira edição do Salão e de notas biográficas sobre os seus participantes.


Quirino da Silva, Retrato de F. Matarazzo, MAC-USP

O Salão de Maio não foi um evento isolado, inserindo-se, ao contrário, numa série de iniciativas promovidas pelos artistas modernistas ao longo da década de 1930; principalmente em São Paulo, mas também no Rio de Janeiro. Meses após a realização de sua primeira edição, inaugurou-se, também em São Paulo, a I Exposição da Família Artística Paulista (FAP), idealizada pelo pintor Rossi Osir, e que também teria duas outras edições, a segunda novamente na capital paulista, em 1939, e a terceira no Rio de Janeiro, em 1940. Ainda que tenha sido grande o número de artistas presentes nas duas mostras, o Salão de Maio foi sempre identificado como um espaço dominado pelos modernistas mais radicais, que anos antes haviam promovido as expressivas, ainda que breves, experiências da Sociedade Pró-Arte Moderna, capitaneada por Lasar Segall, e do Clube dos Artistas Modernos, liderada por Flávio de Carvalho. As exposições da Família Artística, por sua vez, ficaram identificadas com um Modernismo de tom mais moderado, não tão preocupado em assumir posturas vanguardistas; mas que, ao contrário, procurava conjugar os princípios estéticos renovadores trazidos pela geração anterior com uma busca do apuro técnico na produção dos trabalhos artísticos, o que fazia seus integrantes terem uma postura mais respeitosa com as tradições construídas ao longo da história da arte. O texto de apresentação da I Exposição da Família Artística, redigido pelo crítico Paulo Mendes de Almeida – que, por sinal, também participou do Salão de Maio – reflete essas preocupações e faz críticas à forma abusiva com que o termo “moderno” vinha sendo utilizado nas artes. Tais críticas motivaram, por sua vez, uma virulenta resposta de Geraldo Ferraz, organizador do Salão de Maio, para quem os incentivadores da FAP eram “tradicionalistas, defensores do carcamanismo artístico da Paulicéia, a morrer de amores pelos processos de Giotto e Cimabue”. Outra iniciativa que assumiu grande importância nessa época foi o Salão Paulista de Belas Artes, promovido pelo Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo (antiga Sociedade Paulista de Belas Artes), dominado a princípio pelas vertentes artísticas tradicionalistas, mas que foi, gradualmente, assimilando artistas de orientação renovadora, até ser dominado pelos modernistas de tendência moderada, em princípios da década de 1940. Diferenças de concepção à parte, é amplamente reconhecida a importância que as exposições da FAP, os Salões Paulistas e os Salões de Maio tiveram no processo de afirmação do Modernismo em São Paulo no final dos anos 30 e no início da década seguinte.

Fontes
- ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo: Perspectiva, 1976. (pp. 87-113)
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Salão de Maio, pp.456-457).
- Itaú Cultural. Verbetes: Salão de Maio.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
marcos_texto&cd_verbete=3769&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>
- MONTEIRO, Paulo. Salões de Maio. <http://www.cap.eca.usp.br/ars12/saloes_maio.pdf>

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