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PERNAMBUCO, ARTE COLONIAL
Arnaldo Marques da Cunha

Professor na Casa das Artes de Laranjeiras, Rio de Janeiro (CAL). Curso de Jornalismo (incompleto), Escola de Comunicação, UFRJ. Revisor técnico e tradutor.


Olinda, Centro histórico

Em Pernambuco, a arquitetura colonial religiosa se iniciou em 1535 com a construção, em Igaraçu, da ermida e posteriormente matriz dos Santos Cosme e Damião. Ao longo do século XVI, ainda foram construídas as igrejas de Nossa Senhora da Graça (Olinda, 1540), São Lourenço de Tejucupapo (Goiana, 1555) e Nossa Senhora de Nazaré (Cabo de Santo Agostinho, 1580).

Até a chegada dos holandeses a Pernambuco (1630), as igrejas permaneciam, pelo menos em seu aspecto exterior, com as mesmas características do século XVI – frontão triangular suportado por um entablamento clássico e este, por sua vez, suportado por cunhais de pedra a guisa de colunas dóricas, com uma composição formada por óculo, duas janelas e uma porta – o que leva, a princípio, à constatação de que o barroco não foi utilizado até a época posterior à saída dos holandeses do território brasileiro (1654).

A partir de 1654, com a retomada de Pernambuco, iniciaram-se as reconstruções e reformas das igrejas destruídas e saqueadas pelos holandeses e a construção de novos templos. A maioria das igrejas construídas antes do período holandês foi remodelada ao final do século XVII e ao longo do século XVIII de acordo com a estética barroca. Todavia, a igrejas de Nossa Senhora do Desterro, ao lado do convento de Santa Teresa, em Olinda,  e  a de Nossa Senhora do Pilar, em Recife, ambas erguidas no final do século XVII, mantiveram a feição quinhentista.


Sepúlveda, S. Pedro pontífice, S. Pedro dos
Clérigos, Recife

É importante salientar que as igrejas levaram décadas para serem construídas, como foram os casos da basílica de Nossa Senhora do Carmo (1687-1767) e da concatedral de São Pedro dos Clérigos (1728-1782), incorporando modificações sucessivas de estilo ao partirem de um barroco mais primitivo, simultaneamente alcançando resultados mais rebuscados dentro do que se denominou  barroco-rococó. Este estilo, introduzido inicialmente em Olinda e no Recife, foi aos poucos levado para povoações e engenhos da Zona da Mata, não ultrapassando, porém, os limites dessa região.

A observação dos exemplares ainda existentes levou à definição de duas fases no barroco produzido em Pernambuco. A primeira teve início por volta da década de 1680, com o início das grandes reformas das igrejas de Olinda, provocadas, sobretudo, pela mudança de status de Olinda, que de vila fora elevada à cidade, em 1676. Apresenta alguns exemplares com feições quinhentistas, apesar do trabalho de cantaria já denotar elementos barrocos, como no nicho da igreja de Nossa Senhora do Desterro (Olinda) e na cantaria das portas da igreja do Divino Espírito Santo. Outros exemplares, como a Madre de Deus (Recife) e Nossa Senhora do Carmo (Goiana), exibem frontão em volutas mais horizontalizadas, formando um conjunto pesado e sem grande movimento. As torres ora se apresentam com coroamento piramidal (Espírito Santo, São João Batista dos Militares) ou com bulbo “simples” (Madre de Deus, Nossa Senhora das Neves).


Santo Antonio, Capela Dourada, Recife

Já a segunda fase – que se estende do final da década de 1720, com o início da construção da Concatedral de São Pedro dosClérigos, em 1728, até aproximadamente a década de 1840 (já fora, portanto, da era colonial), com a conclusão do frontispício da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos deGoiana, em 1836 –, revela uma maior exuberância de formas nos frontispícios, torres e altares. O frontão é progressivamente substituído por um jogo de volutas cada vez mais altas, gerando frontispícios esguios (Carmo do Recife, Rosário dos Pretos do Recife, São Pedro dos Clérigos) ou as formas características da arquitetura franciscana, com frontispícios movimentados.

Essa fase também é chamada, conforme já foi mencionado, de “barroco-rococó”, pois inclui o maior número de exemplares e aqueles com maior qualidade de soluções compositivas. Podem ser citados os trabalhos em cantaria do Recife (São Pedro dos Clérigos, Carmo, Rosário dos Pretos, Santo Antônio do convento franciscano e a matriz de Santo Antônio), que se situam entre as melhores obras de referência encontradas na região. A talha atinge seu auge na capela-mor do Carmo do Recife, em São Bento de Olinda e em São Pedro dos Clérigos. Já as torres alcançam altura mais elevada, estando o exemplar mais rebuscado localizado no Carmo do Recife.

A escolha cuidadosa e a valorização dos sítios urbanos e paisagísticos nos quais se inserem os conventos, bem como o requinte ornamental das fachadas, são características constantes. É sintomático que tenha sido em fachadas como as das igrejas de Nossa Senhora das Neves de Olinda e Santo Antônio de Igaraçu – com seus frontões movimentados em seqüências de volutas – que o barroco tenha feito, em fins do século XVII, suas primeiras incursões na arquitetura colonial brasileira.


Paineis de Iguaraçu

A arquitetura religiosa da antiga região de Pernambuco – que incluía, na época, os atuais estados da Paraíba e de Alagoas – desenvolveu uma síntese das tradições da arquitetura luso-brasileira com os padrões do rococó internacional, introduzidos via Portugal, assim como nos casos anteriores de importação de formas artísticas européias. A assimilação desse estilo na região estendeu-se da decoração interna ao desenho das fachadas das igrejas, sem atingir, entretanto, a volumetria externa das igrejas como ocorreria em Minas Gerais. Nas fachadas do rococó pernambucano, sobressaem as ondulações da cimalha que parecem projetar verticalmente o frontão e os coroamentos bulbosos das torres, de desenho variado e às vezes bastante complexo.

Datada de 1767, a fachada da igreja do convento do Carmo, situada no centro histórico de Recife, é a mais original. Em solução sem precedentes na arquitetura da região, a projeção vertical do frontão é dramaticamente enfatizada pelo movimento ascendente em curvas reversas da parte central da cornija. À esquerda da igreja, a capela da Ordem Terceira também apresenta um inusitado desenho de frontão – em linhas sinuosas bem mais leves, lembrando soluções ornamentais do mobiliário civil da época.


Mosteiro de São Bento, Olinda

A arquitetura religiosa de Pernambuco também assimilou os padrões estilísticos do rococó, com diferentes versões de retábulos: o mais suntuoso, o da capela-mor do mosteiro beneditino de Olinda, integralmente dourado. Entretanto, na maioria das igrejas locais prevaleceu uma versão mais simples: elaborado na própria região e o remate característico em forma de frontão, com curvas e contracurvas acentuadas (como na igreja da Misericórdia e no convento de Nossa Senhora das Neves, em Olinda).

A ambientação decorativa das igrejas do rococó pernambucano repetiu, de forma bem mais nítida do que em outras regiões brasileiras, a típica associação portuguesa de talha, azulejos e pinturas. Um dos melhores conjuntos de azulejos conservados é o que reveste a seção inferior das paredes da capela de Nossa Senhora da Conceição da Jaqueira, na periferia de Recife. De padrão policromado, possuem cabeceiras onduladas e decoradas com vasos em forma de rocalhas chamejantes, assinalando a fase madura do rococó (1765-1775) tanto em Portugal quanto no Brasil.

As decorações do rococó pernambucano incluem pinturas de tetos com perspectivas ilusionistas e pelo menos duas tipologias diferentes: a primeira, empregada em tetos planos ou de fraca curvatura, composta de painéis figurativos independentes, com molduras ornamentais exuberantes; a segunda desenvolve composições unitárias de pinturas perspectivistas como na fase barroca, deixando, porém, um amplo espaço vazio na parte central, reservado à representação de personagens celestiais. Na igreja do Rosário dos Pretos, no Recife, há uma bela pintura deste tipo, do qual se conservam poucos exemplares em Pernambuco, tanto pela falta de conservação adequada quanto pelas remodelações efetuadas no decorrer do século XIX.        

Fontes
NEVES, André Lemoine. A arquitetura religiosa barroca em Pernambuco – séculos XVII a XIX. Disponível no portalVitruvius/Cebrap-Novos estudos, Arquitextos de maio de 2005.
OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. História da arte no Brasil: textos de síntese. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008, p. 25-26, 33-34 e 45-46.

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