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OSIRARTE
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Burle-Marx, Inst. Moreira Salles, Rio, azulejos (detalhe)

Ateliê-oficina de azulejos artísticos criado pelo pintor e arquiteto Paulo Rossi Osir na cidade de São Paulo, em 1940, que funcionou por quase duas décadas. O ateliê foi instalado com a finalidade de produzir os azulejos utilizados nos paineis desenhados por Cândido Portinari, e pelo próprio Rossi Osir, para o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Capanema, que então estava sendo construído no Rio de Janeiro. Projetado por uma equipe de arquitetos, da qual faziam parte Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Afonso Reidy, a partir de um esboço original do mestre suíço Le Corbusier, o prédio do MEC, como também ainda é chamado, representou um marco na arquitetura moderna brasileira e mundial. Os referidos paineis de Portinari e Rossi Osir, localizados na parte externa do edifício, possuem grandes dimensões e são formados por milhares de azulejos, produzidos entre 1941 e 1945. São confeccionados em branco e diversas tonalidades de azul e apresentam motivos inspirados na fauna marinha. O edifício recebeu ainda tratamento paisagístico de Roberto Burle Marx e foi decorado com pinturas de Portinari, Guignard e Pancetti, e esculturas de Jacques Lipchtz, Bruno Giorgi e Celso Antonio, entre outros.


Edifício Gustavo Capanema, azulejos

A Osirarte produziria também azulejos para duas outras importantes obras de Portinari: o revestimento da Igreja de São Francisco de Assis, no bairro da Pampulha, em Belo Horizonte, em 1944; e o painel da fachada principal da Escola Municipal do conjunto habitacional do Pedregulho, no Rio de Janeiro, em 1951. Renato Wandeck, em texto publicado no site Cerâmica no Rio, relaciona outros painéis feitos com azulejos da Osirarte, como os de Burle Marx, instalados na residência do banqueiro Walter Moreira Sales, hoje sede carioca do Instituto Moreira Sales, de 1949, e na sede do Clube de Regatas Vasco da Gama, de 1950; ambos no Rio de Janeiro; o de Paulo Rossi Osir, na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, de 1953; o de Poty, na Praça 19 de Dezembro, em Curitiba, também de 1953; o de Anísio Medeiros, no Educandário Dom Silvério, em Cataguases (MG), de 1954; e ainda um de Portinari, em prédio na cidade de Juiz de Fora (MG), de 1956.

A Osirarte produziu também composições em azulejaria de diversos tamanhos, destinadas à decoração de residências (piscinas, chafarizes, lareiras, superfícies de mesa e painéis figurativos), que tiveram boa aceitação no mercado.


Poty, Praça 19 de dezembro, Curitiba

Rossi Osir, fundador e diretor-geral do ateliê, e também um dos criadores dos desenhos reproduzidos nos azulejos, era um homem de sólida formação erudita, adquirida durante longa estadia na Europa. Teve notável papel no cenário artístico paulista a partir da década de 1930, quando, entre outras coisas, organizou as Exposições da Família Artística Paulista, cujas três edições, realizadas entre 1937 e 1940, foram decisivas para dar visibilidade ao conjunto de artistas que ficariam conhecidos como o Grupo Santa Helena. De origem social modesta, esses artistas tiveram sua formação fora das instituições acadêmicas mais tradicionais e, naquela ocasião, desenvolviam suas atividades artísticas ainda em paralelo aos ofícios artesanais com que ganhavam a vida, especialmente a pintura decorativa de interiores. Ao criar a Osirarte, Rossi Osir convidou para trabalhar com ele dois destacados integrantes do Santa Helena, os pintores Mario Zanini e Alfredo Volpi, cuja enorme experiência adquirida na fatura fortemente artesanal de suas obras de arte foi de grande utilidade para a solução de problemas plásticos e técnicos surgidos na produção dos azulejos. A Osirarte contou ainda com a colaboração de outros artistas, como Hilde Weber, Cesar Lacanna, Gerda Brentani, Giuliana Giordi, Virgínia Artigas, Ettore Boretti, Maria Wrochnik, Alice Brill, Frans Krajcberg, Ernesto De Fiori e Ottone Zorlino, alguns de forma mais duradoura, outros ocasionalmente. Até 1942, as criações da Osirarte não apresentavam assinaturas, sendo as peças identificadas apenas pelo nome do ateliê. Dessa data em diante, para atender uma exigência do mercado norteamericano, onde Rossi Osir procurava entrar, os trabalhos passaram a ser assinados individualmente; ainda que, conforme Teixeira Leite, permanecesse existindo um certo sentido coletivo nas criações, com desenhos de um mesmo padrão sendo assinados por artistas diferentes.

No ateliê, a pintura era feita sobre o azulejo ainda não esmaltado, o “biscoito” no jargão dos ceramistas, cuja superfície porosa facilitava a absorção da tinta. A rapidez dessa absorção exigia, porém, grande precisão dos artistas, já que não permitia que os desenhos fossem retocados. Só depois de pronta a arte é que as peças eram submetidas à esmaltagem e à queima. No início, a Osirarte utilizou-se dos fornos da Cerâmica Matarazzo para realizar seus trabalhos, mas com o passar do tempo o ateliê foi assumindo um caráter mais empresarial, recorrendo a técnicas crescentemente sofisticadas e adquirindo fornos especializados.


Volpi e Zanini, Bica-de-água

Durante a década de 40, Rossi Osir promoveu exposições para divulgar a produção da Osirarte, que em muitas ocasiões se realizavam no próprio ateliê, mas também no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em 1943; na Galeria Benedetti, em São Paulo, em 1946; em Buenos Aires e Mendoza, na Argentina, entre 1946 e 1947; e a última delas na Rua do Arouche, novamente na capital paulista, em 1951.

Buscando integrar as atividades artística e industrial, a Osirarte representou uma bem sucedida tentativa de resgatar a tradicional arte portuguesa da azulejaria figurativa, emprestando-lhe, porém, feições brasileiras. É o que se pode notar na sua temática, quase sempre inspirada na vida e na cultura do país, bem ao gosto da estética nacional-popular, então em voga. Tipos populares em cenas cotidianas, lendas e personagens folclóricos, festas tradicionais, imagens de santos e representações do imaginário mágico e religioso das populações interioranas constituem a temática representada em seus azulejos.

No início da década de 50, Volpi e Rossi Osir se afastaram do ateliê que, contudo, continuou funcionando, sob a direção de Zanini, até 1959.

Em 2006, o espaço Caixa Cultural, de São Paulo, realizou a exposição A Osirarte, com 150 peças produzidas no ateliê, que por apresentarem pequenos defeitos não foram aproveitados na época de sua fabricação, permanecendo esquecidos durante décadas num depósito.

Fontes
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Osir, Paulo Rossi, pp.368-369; e Osirarte, pp.369-370).
- Itaú Cultural. Verbete: Osirarte.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
termos_texto&cd_verbete=334&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=8
- WANDECK, Renato. Osirarte de Paulo Rossi Osir. Cerêmica no Rio. 2003
<http://www.ceramicanorio.com/miscelanea/osiartedepaulorossiosir/osiartedepaulorossiosir.htm>
- MARGARIDO, Orlando. “Exposição relembra Osirarte, oficina chefiada por Volpi”. In: Veja São Paulo, 14 nov. 2006.
- ALVARADO, Daisy Peccinini; PELEGRINI, Ana Claudia Salvato. Osirarte. Museu de Arte Contemporânea. Arte no século XX / XXI: visitando o MAC na web.
<http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo2/modernidade/eixo/osirarte/
osirarte.htm>

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