Nova Objetividade Brasileira
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Nova Objetividade, Gerchman Lindoneia

Exposição de artes plásticas realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), em abril de 1967, com o objetivo de apresentar um amplo balanço do que fora produzido pelas vanguardas artísticas brasileiras nos anos anteriores. A Nova Objetividade Brasileira reunia, assim, artistas vinculados tanto às vanguardas abstracionistas da década anterior (Concretismo e Neoconcretismo), como também integrantes da chamada Nova Figuração, movimento então recém-surgido no país, e que defendia um retorno à representação figurativa.

A intenção de reunir num mesmo evento artistas representativos das novas tendências da arte brasileira já havia sido o elemento aglutinador de mostras realizadas pouco tempo antes, como Opinião 65 e Opinião 66, também promovidas no MAM-RJ, em 1965 e 1966; Propostas 65 e Propostas 66, ocorridas nos mesmos anos no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado (MAB-FAAP), em São Paulo; e Vanguarda Brasileira, montada, também em 1966, na Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. A expressão “nova objetividade” – surgida na Alemanha, em 1925, para designar o movimento artístico que reagia contra a deformação da figura promovida pelo Expressionismo e procurava resgatar a representação realista – havia sido resgatada por Hélio Oiticica por ocasião da mostra Propostas 66, por ser, segundo ele, a mais apropriada para definir o momento então vivido pelas vanguardas artísticas brasileiras e, especialmente, por ele próprio.

Tomaram parte da Nova Objetividade Brasileira, entre outros, Alberto Aliberti, Aluísio Carvão, Antonio Dias, Carlos Vergara, Carlos Zílio, Flávio Império, Geraldo de Barros, Glauco Rodrigues, Helio Oiticica, Ivan Serpa, Lygia Clark, Lygia Pape, Marcello Nitsche, Maurício Nogueira Lima, Mona Gorovitz, Nelson Leirner, Pedro Escosteguy, Roberto Magalhães, Rubens Gerchman, Sérgio Ferro, Sonia von Brüsky e Waldemar Cordeiro. Vários desses artistas foram também signatários da Declaração de Princípios Básicos da Nova Vanguarda, documento que acompanhou a mostra e que defendia, entre outros pontos, a adoção de procedimentos capazes de valorizar a objetividade nas obras de arte, com a consequente redução dos excessos de subjetivismo, bem como o compromisso com a liberdade de expressão e a postura crítica dos artistas diante da realidade, aspectos de grande relevância se levarmos em conta que o país vivia, então, sob um regime ditatorial.


Nova Objetividade, Sonia von Brusky
Mulheres

Nova Objetividade, Roberto Magalhães
Vaso de flores

Por ocasião da exposição, Helio Oiticica, um de seus organizadores, divulgou também o texto Esquema Geral da Nova Objetividade Brasileira, no qual apresentou as principais características das novas tendências ali presentes. Eram elas: 1) a identificação com as propostas estéticas construtivas, aspecto de escopo certamente bastante amplo e que, na visão de Oiticica, englobava os postulados antropofágicos formulados por Oswald de Andrade nos anos 1920, e que agora eram retomados no debate sobre a busca de expressões que conferissem identidade à arte brasileira contemporânea; 2) a tendência de superação dos suportes tradicionais (pintura e escultura) e sua substituição por objetos ou por instalações e ambientações; 3) a valorização da participação do espectador na obra de arte através de experiências sensoriais não exclusivamente visuais, mas também tácteis, auditivas e corporais; 4) a tomada de posição diante de questões de ordem política, social e ética; 5) a abertura para proposições artísticas de caráter coletivo; e 6) a reflexão em torno das concepções sobre a natureza da obra de arte, levando ao ressurgimento das discussões sobre a antiarte. No texto, Oiticica analisou a contribuição individual de diversos artistas para a configuração da nova objetividade, por ele classificada como “um estado típico da arte brasileira de vanguarda atual”; e ao final explicitou a influência dos críticos Ferreira Gullar, Frederico Morais, Mário Pedrosa e Mário Schemberg na elaboração das idéias ali apresentadas.

A exposição foi dividida em dois grandes módulos: um deles dedicado a uma retrospectiva sobre a presença do objeto na história da arte brasileira, e o outro, voltado à produção contemporânea. Coube ainda a Helio Oiticica a apresentação de uma das obras mais impactantes do evento, a ambientação Tropicália, constituída por um labirinto de madeira forrado com areia e pedras, que ao ser percorrido pelo espectador colocava-o em contato corporal com diversos elementos naturais e culturais do Brasil, como plantas tropicais e araras nativas, num percurso que terminava em frente a um aparelho de televisão ligado. A obra acabaria dando o nome a todo um movimento cultural inspirado na antropofagia oswaldiana, o Tropicalismo, que abarcou diversas expressões artísticas, e que teve na música produzida naquela mesma época por Gilberto Gil e Caetano Veloso a sua expressão mais conhecida. Também egressas do Neoconcretismo, como Oiticica, Lygia Pape apresentou a sua Caixa de Baratas, enquanto Lygia Clark expôs alguns dos Objetos Sensoriais, a cuja construção então se dedicava. Já entre os artistas vinculados à Nova Figuração, destacaram-se Nelson Leirner, com A-doração; Rubens Gerchman, com Lindonéia; e Roberto Magalhães, com Carro Vermelho.

Fontes
- OITICICA, Hélio. Esquema Geral da Nova Objetividade. In: Tropicália. Leituras Complementares. <http://tropicalia.com.br/v1/site/internas/leituras_gg_objetividade1.php>
- SILVA, Raul Mendes da. Arte Internacional. Nova Objetividade Brasileira.
<http://www.raulmendesilva.pro.br/projetobrasil/pag027.shtml>
- TROPICÁLIA. Nova Objetividade Brasileira.
<http://tropicalia.com.br/v1/site/internas/gg_objetividade.php>
- Itaú Cultural – Verbete: Nova Objetividade Brasileira.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_texto&cd_verbete=3764&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10 >