Grupo Seibi
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Grupe Seibi, Manabu Mabe Abstrato

Grupo de artistas de origem japonesa, formado na cidade de São Paulo, em março de 1935, com o objetivo de facilitar a troca de experiências entre seus integrantes, promover o seu aperfeiçoamento técnico e dar maior visibilidade à sua produção. Também conhecido como Seibikai, o grupo era composto, a princípio, por Tomoo Handa, Walter Shigeto Tanaka, Kiyoji Tomioka, Hajime Higaki, Kichizaemon Takahashi, Masato Aki, Iwakichi Yamamoto (escultor), Yoshiya Takaoka e Yuji Tamaki, os dois últimos então radicados no Rio de Janeiro, onde estabeleceram vínculos com o Núcleo Bernardelli. Na organização do Grupo Seibi também tiveram papel relevante o jornalista Yoshimi Kimura e o poeta Kikuo Furono.

Os integrantes do Grupo Seibi eram todos de origem social modesta e muitos deles, ao chegarem no Brasil, tiveram que trabalhar, por algum tempo, em atividades agrícolas no interior paulista, antes de se deslocarem para a capital. Quando o grupo foi formado, todos eles exerciam outras profissões para sobreviver, reunindo-se apenas nos horários de folga para pintar. A liderança do grupo, ainda que informalmente exercida, coube ao pintor Tomoo Handa, a quem o crítico Walter Zanini referiu-se como o “pintor patriarcal” da colônia japonesa no Brasil. A artista Tomie Ohtake também destaca a ascendência de Handa sobre os demais artistas nipônicos radicados no Brasil, apontando-o como a melhor personificação do Grupo Seibi e um dos principais responsáveis pela contribuição dada pelos japoneses à arte brasileira. Tomoo Handa chegou ao interior paulista em 1917, quando contava apenas 11 anos de idade, transferindo-se, em 1921, para a capital paulista, onde cursou a Escola de Belas Artes entre 1932 e 1935. Os demais fundadores do Seibikai chegaram ao Brasil ao longo da década de 1920 ou início da de 30 e tiveram trajetória semelhante à do líder do grupo. Mesmo os que já traziam alguma formação artística de seu país de origem – como Tanaka, Higaki e Takaoka – a tiveram segundo as tradições estéticas ocidentais, que haviam se difundido no Japão desde a segunda metade do século XIX, quando se iniciou a Era Meiji. Assim, na produção artística do Grupo Seibi não se nota senão traços distantes da tradicional cultura japonesa, a ponto de Teixeira Leite afirmar ser ele composto por “pintores à maneira ocidental, dentro de uma linha estilística que, partindo do Impressionismo, ia desaguar nas várias tendências da Escola de Paris”. Os temas mais frequentes nos trabalhos do grupo, por sua vez, eram os retratos de membros da colônia japonesa, as paisagens urbanas e rurais do Brasil e as naturezas mortas. Assim, pela origem imigrante e pela condição social modesta de seus integrantes, bem como pela temática dominante na obra de todos eles, o Grupo Seibi apresentou importantes semelhanças com o Grupo Santa Helena, que seria fundado em São Paulo alguns anos depois, por artistas de origem italiana, e com o qual ao menos Yoshiya Takaoka manteve contato.

Em 1938, realizou-se no Clube Japonês, na capital paulista, a primeira exposição do Grupo Seibi, que foi também a única durante muitos anos. Nesse mesmo ano, Yuji Tamaki ganhou a medalha de ouro no Salão Nacional de Belas Artes, mesmo certame em que Yoshiya Takaoka conquistou a medalha de prata. Em 1942, com o estabelecimento do estado de beligerância entre o Brasil e os países do Eixo, por conta da II Guerra Mundial, os japoneses aqui residentes passaram a sofrer restrições em suas atividades, o que levou o Seibikai a praticamente suspender suas atividades.


Grupe Seibi, Flávio-Shiró Abstração

O grupo só seria reorganizado em 1947, após o fim do conflito mundial. Nessa segunda fase, além dos antigos membros, passou a contar também como novos integrantes, como Massami Tanaka, seu filho Flávio-Shiró, Tadashi Kaminagai, o casal Alina e Massao Okinaka, Shigeo Nishimura, Kenjiro Massuda, Mitsuo Tsumori Toda e Minoro Watanabe, entre outros. Nos anos seguintes, novas adesões ocorreriam, como as de Tikashi Fukushima, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Takeshi Suzuki, Kazuo Wakabayashi e Yo Yoshitome. Do Grupo Seibi, nasceram duas outras experiências associativas na capital paulista, nas quais os artistas nipônicos tinham presença destacada, mas não exclusiva. Foram elas o Grupo 15 (ou Grupo do Jacaré), liderado por Takaoka, e o Grupo Guanabara, constituído em torno de Fukushima, ambas do ano final da década de 1940.

Em 1952, realizou-se o primeiro Salão do Grupo Seibi, que em suas 14 edições, promovidas até 1970, ampliou consideravelmente a projeção dos pintores japoneses no cenário das artes plásticas brasileiras, ao mesmo tempo em que possibilitava a renovação do grupo através de novas adesões. Sempre realizado na cidade de São Paulo, o Salão teve a sua oitava edição, em 1964, levada também ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). Nessa segunda fase do Seibikai, ainda que a linguagem figurativa, inclusive a de viés acadêmico, tenha se mantido presente, ganhou relevo em seu interior o Abstracionismo Informal ou Lírico, que então se desenvolvia no Brasil. Mas em que pese a grande diversidade de linguagens presente no interior do grupo, a convivência entre os seus membros foi sempre harmoniosa.

As décadas de 1950 e 60 foram de grande prestígio para os integrantes do Seibikai, que ocuparam espaços significativos em mostras e salões no Brasil, e até no exterior. Entre os mais velhos, Tomoo Handa participou da I Bienal de São Paulo, em 1951, e do Salão Nacional de Arte Moderna (SNAM), no ano seguinte, além de mostras de pintores nipo-brasileiros nos Estados Unidos e no Japão. Walter Shigeto Tanaka, caracterizado por Walter Zanini como artista de “mentalidade inquieta e aberta aos problemas da efusão introspectiva da pintura moderna”, também participou das duas primeiras Bienais paulistas e obteve medalha de prata no SNAM, em 1952, participando ainda da Bienal de Tóquio, no ano seguinte; Yoshiya Takaoka participou das Bienais de São Paulo em 1951 e 1959, e de Tóquio, em 1953; enquanto Takahashi lecionou na Escola de Belas Artes de São Paulo.


Grupe Seibi, T. Handa Paisagem

Mas os membros do Grupo Seibi que alcançaram maior projeção foram os pintores abstrato-informais surgidos em seu meio, na década de 1950, alguns dos quais sempre relacionados entre os maiores nomes da arte brasileira na segunda metade do século XX, como Tikashi Fukushima, Flávio-Shiró, Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Flávio Shiró, que após a experiência no Seibikai viveria muitos anos em Paris, oscilou ao longo da vida entre o abstracionismo informal e o figurativismo expressionista, tendo sido premiado na Bienal da capital francesa, em 1961. Manabu Mabe, cuja obra pictórica é fortemente marcada pela gestualidade, pelas cores vibrantes e pelo cuidado com as texturas, desenvolveu notável carreira internacional a partir do final dos anos 1950, sendo premiado também na Bienal de Paris, além da de São Paulo. Tomie Ohtake, como os dois anteriores também nascida no Japão, é, igualmente, uma das principais referências da arte abstrata no Brasil.

A partir do final dos anos 1960, as atividades do Grupo Seibi entraram em declínio. Em 1969, o líder Tomoo Handa se retirou do grupo, que no ano seguinte realizou seu último Salão. Em 1972, as atividades desse importante núcleo de artistas foram definitivamente encerradas, após mais de três décadas de atuação.



Fontes
- GONÇALVES, Lisbeth Rebollo. Artistas japoneses e nipo-brasileiros na Coleção do MAC. <http://www.mac.usp.br/mac/templates/exposicoes/brasiljapao/apresentacao.asp>
- LAÇOS do Olhar. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2008.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Grupo Seibi, pp.235-36).
- Itaú Cultural – Verbete: Grupo Seibi.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3795&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=8>
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (verbetes: Handa, Tomoo; Tanaka, Walter Shigeto; Higaki, Hajime; Takahashi, Kichizaemon; Takaoka, Yoshiya; e Tamaki, Yuji).