Grupo Rex
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Grupo Rex, Wesley D. Lee Composição

Grupo de artistas plásticos atuante na cidade de São Paulo, em 1966 e 67, formado por Geraldo de Barros, Nelson Leirner, Wesley Duke Lee e três alunos desse último: Carlos Fajardo, Frederico Nasser e José Resende. A atuação do grupo foi marcada pela irreverência e por forte contestação a diversos aspectos relacionados ao universo das artes plásticas, como seus espaços expositivos tradicionais (museus e galerias), o processo de mercantilização da obra de arte, o modelo de crítica consagrado na imprensa e as próprias concepções sobre a natureza do objeto artístico. Outro aspecto comum entre seus membros era o apreço pela expressão figurativa, o que os fazia alinhados com os movimentos da nova figuração e do novo realismo, que então se difundiam no plano internacional, principalmente entre os artistas norteamericanos. Destaque, nesse sentido, para o Neodada, movimento de características marcadamente experimentais e anticonvencionais; bem como para as referências visuais e a temática urbana da Pop Art, através da qual pretendia-se estabelecer uma comunicação rápida e direta com o público. Por outro lado, em virtude do acentuado gosto de seus integrantes pelas performances, o Grupo Rex é identificado por alguns críticos ao movimento Fluxus.

O Grupo Rex cumpriu, de fato, importante papel na inflexão figurativista ocorrida na arte brasileira nos anos 60; visto que, desde o início da década anterior, projetavam-se em maior número no país os artistas identificados com o Abstracionismo, em suas vertentes geométrica ou informal. A opção pelo figurativismo anárquico que marcaria o Rex já se podia notar, por sinal, na mostra promovida por Wesley Duke Lee na Galeria Atrium, na capital paulista, em 1964; bem como na exposição conjunta realizada por Geraldo de Barros e Nelson Leirner no ano seguinte, no mesmo local. Tais eventos, diga-se, integravam-se no contexto das manifestações contrárias ao regime militar instaurado no país em 1964, e que então se difundiam pelas mais diferentes áreas artísticas. Ainda em 1965, Duke Lee, Barros e Leiner fizeram parte do grupo de artistas que se retiraram da exposição Propostas 65, realizada na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, em protesto contra a censura feita pelo regime militar a algumas obras do artista Décio Bar.


Grupo Rex, Carlos Fajardo Vidro latão e seda

Logo em seguida, os três artistas passaram a ocupar conjuntamente uma loja localizada no bairro dos Jardins, onde, a 3 de junho de 1966, seria inaugurada a Rex Gallery & Sons, evento que deu início oficial às atividades do Grupo Rex. Na mesma ocasião, foi lançado o primeiro número de Rex Time, periódico que veiculava as idéias e objetivos do grupo e que teria ainda outras quatro edições. Durante quase um ano, realizaram-se na Rex Gallery diversas exposições, como as de Carmela Gros e Marcelo Nitsche, happnenings, palestras e projeções de filmes.

O grupo e a galeria Rex encerrariam suas atividades em maio de 1967, com a Exposição – Não – Exposição, de Nelson Leirner. Tratou-se, na verdade, de um happening, em que o público foi convidado, de antemão, a levar para casa os objetos expostos na galeria, desde que conseguissem retirá-los das barras de ferro, correntes, cadeados e blocos de cimento a que estavam presos. O resultado foi a depredação do recinto num curtíssimo espaço de tempo. Muitos anos mais tarde, o próprio Leirner comentaria a experiência com a galeria e o evento que encerrou suas atividades: “O propósito da Rex era ter um espaço próprio, que não dependesse da crítica ou do mercado. O artista teria o seu próprio espaço. Era uma cooperativa. Sobreviveríamos com o resultado que a Rex eventualmente desse. Não pagávamos aluguel, já que o espaço era do Geraldo de Barros, que também assumia as despesas com secretária, telefone, etc., e nós tínhamos o espaço para mostrar o nosso trabalho. Mas depois de um ano terminou o oba-oba. E qual a melhor maneira de fechar a porta? Dando todos os meus trabalhos. Depois que as pessoas levassem meus trabalhos, estava combinado que fecharíamos a galeria, tiraríamos a placa da frente do prédio e entregaríamos o espaço de volta aos seus donos. Seria o fim da Rex. Não há uma lógica perfeita nisso tudo? O que decorreu disso é que não estava na nossa lógica. Não podíamos saber que iria acontecer toda aquela destruição em trinta segundos.

A figura mais polêmica do Grupo Rex talvez tenha sido o pintor, desenhista, gravador e artista gráfico Wesley Duke Lee, cuja produção artística foi marcada pelo vínculo profissional que, em certo momento de sua vida, ele teve com o universo da publicidade. No início dos anos 50, após estudar desenho livre no MASP, transferiu-se para Nova York, onde estudou artes gráficas na Parson’s School of Design. Posteriormente, estudou pintura e desenho com Karl Plattner, em São Paulo, e gravura com Johnny Friedlaender, em Paris. Em 1963, de volta a São Paulo, foi responsável por um dos primeiros happenings realizados no país, por ocasião da abertura de sua exposição no João Sebastião Bar, naquela cidade. Por essa época, realizou também suas primeiras exposições individuais no exterior e integrou o movimento internacional Phases. Sua trajetória foi marcada ainda pelas frequentes experiências em que conjuga arte e tecnologia.


Grupo Rex, M. Nitsche Abstrato

O pintor, gravador, artista gráfico e fotógrafo Geraldo de Barros, por sua vez, estudou com Clóvis Graciano, Collete Pujol e Takaoka, em São Paulo, no final dos anos 40. Por essa época, obteve sucessivas premiações na Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes: menção honrosa (1947) e medalhas de bronze (1948) e prata (1949). Sua exposição Fotoformas, de 1950, é considerada um dos marcos iniciais do Abstracionismo no Brasil. Em 1952, após estudos de gravura em Paris, foi um dos signatários do manifesto de fundação do Grupo Ruptura, núcleo do concretismo paulista. Foi premiado nas duas primeiras edições da Bienal de São Paulo, em 1951 e 1953; e, como artista gráfico, venceu os concursos de cartazes do IV Centenário de São Paulo (1952) e do I Festival Internacional de Cinema (1956). Na época do Grupo Rex, trabalhava com obras que promoviam a justaposição de imagens características da paisagem urbana, especialmente aquelas relacionadas ao universo visual da publicidade, utilizando-se da pintura e de colagens. Segundo Carlos Cavalcanti: “suas pesquisas de cor, animadas da violência dos fauvistas, juntamente com os temas da vida urbana, aproximaram-no de outros pintores contemporâneos, nacionais e estrangeiros, também sugestionados pela força cromática de comunicação do cartaz moderno”.

Nelson Leiner, após flertar com o Abstracionismo Geométrico na década de 1950, quando foi aluno de Samson Flexor no Ateliê Abstração, em São Paulo, aderiu ao figurativismo inspirado na Pop Art. Começou, então, a utilizar em suas obras objetos típicos da cultura de massa e da sociedade de consumo. Da mesma forma, a obra escultórica de José Resende, que era também arquiteto e desenhista, utilizava-se de materiais não convencionais, retirados do cotidiano da sociedade industrial; aproximando-se num segundo momento da arte povera. O também arquiteto, além de artista plástico e programador visual, Carlos Alberto Fajardo desenvolveu fértil carreira de professor. Frederico Nasser também foi professor e, além do aprendizado de desenho com Duke Lee, estudou gravura com Marcelo Grassmann, Mario Gruber e Darel. Em 1970, Resende, Fajardo e Nasser se juntariam a Luís Paulo Baravelli, também discípulo de Duke Lee, para criar a Escola Brasil, cujo objetivo era promover o ensino da arte em bases não acadêmicas, para isso utilizando-se de intensos exercícios em ateliê. A escola, localizada num galpão no bairro paulistano de Santo Amaro, funcionou até 1974.

Sobre o Grupo Rex, a historiadora Fernanda Lopes publicou A experiência Rex: éramos o time do rei, em 2009. No ano seguinte, o grupo foi tema de uma sala especial na 29ª Bienal Internacional de São Paulo (Sala Rex), que expôs obras produzidas por seus integrantes entre 1964 e 1967.


Fontes
- ALVARADO, Daisy; PELEGRINI, Ana Cláudia. Arte do século XX/XXI. Visitando o MAC na Web Introdução ao Rex.
   <http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo4/rex/intro.html>
- CAVALCANTI, Carlos. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos, MEC/INL, 1974. (Verbetes: Barros, Geraldo de)
- Itaú Cultural – Verbetes: Grupo Rex; Wesley Duke Lee e Carlos Fajardo)
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=busca_completa>
- LEIRNER, Nelson. Entrevista concedida pelo artista a Moacir dos Anjos, Agnaldo Farias e Adolfo Montejo Navas. Rio de Janeiro, 29 e 30 de julho de 2002.
<http://www.nelsonleirner.com.br/portu/depo2.asp?flg_Lingua=1&cod_Depoimento=58>
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbetes: Lee, Wesley Duke; Barros, Geraldo de).
- 29ª BIENAL. Grupo Rex.
<http://www.bienal.org.br/FBSP/pt/29Bienal/Participantes/Paginas/participante.aspx?p=90