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GRUPO GRIMM
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


França Júnior, Morro da Viuva, Rio de Janeiro

Grupo de artistas formado em torno do pintor e professor alemão Georg Grimm, cujas aulas ao ar livre, na década de 1880, foram responsáveis por expressiva renovação no ensino da pintura de paisagem no Brasil. O grupo tinha sete integrantes: Antônio Parreiras, Giovanni Battista Castagneto, José da França Júnior, Francisco Joaquim Gomes Ribeiro, Hipólito Boaventura Caron e Domingos Garcia y Vasquez, além do assistente Thomas Driendl, que por vezes assumia a direção das aulas. A princípio, todos eram alunos de Grimm na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), mas acompanharam o mestre quando ele, insatisfeito com os rígidos padrões de ensino vigentes naquela instituição, deixou-a para dar aulas particulares em seu “ateliê ao ar livre” na Praia da Boa Viagem, em Niterói, entre 1884 e 1886. A designação Grupo Grimm, porém, só seria cunhada bem mais tarde, em 1909, pelo crítico Gonzaga Duque, para destacar a grande influência exercida pelo mestre alemão sobre os seus discípulos.

Johann Georg Grimm (1846-1887) nasceu na Baviera, filho de um carpinteiro, profissão que também exerceu na juventude. Matriculou-se na Academia de Belas Artes de Munique em 1868, mas não chegou a terminar o curso. Deixando sua terra natal em 1870, percorreu nos anos seguintes Itália, Grécia, Oriente Médio, África do Norte e Portugal, antes de chegar ao Brasil, por volta de 1878. Após passar por Petrópolis e algumas cidades de Minas Gerais, fixou-se no Rio de Janeiro, onde trabalhou como ajudante do decorador F. Steckel. Projetou-se no cenário artístico do país a partir de março de 1882, quando, numa expressiva mostra realizada no Liceu de Artes e Ofícios, expôs mais de uma centena de paisagens, pintadas ao ar livre nos diversos locais que conheceu. A luminosidade das cenas e a exuberância cromática de seus trabalhos despertaram grande interesse do público carioca, até então acostumado às paisagens normalmente pálidas de nossos pintores, invariavelmente produzidas em ateliês fechados. Ainda em 1882, Grimm foi contratado como professor interino da cadeira de Paisagem, Flores e Animais da AIBA, onde permaneceu por dois anos. Apesar de breve, sua passagem pela Academia foi bastante marcante, ali introduzindo e incentivando o ensino da pintura ao ar livre. Em 1884, recebeu a medalha de ouro de primeira classe na Exposição Geral de Belas Artes; mesma ocasião em que obras de alguns de seus discípulos também foram expostas e premiadas. Mas apesar de reconhecido e premiado num salão oficial, seu método de ensino se chocava frontalmente com o convencionalismo das práticas vigentes na AIBA, o que o fez deixar a instituição em 1884, quando passou a dedicar-se ao ensino particular em Niterói. Após a dispersão do grupo, em 1886, Grimm andou pelo interior das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, pintando, com riqueza de detalhes, fazendas, vistas urbanas e paisagens naturais. Acometido, porém, por grave enfermidade, retirou-se para a Itália, onde morreu no ano seguinte, com apenas 41 anos de idade.


G. Grimm, Fazenda

Georg Grimm e seu grupo foram fundamentais para o desenvolvimento da pintura de paisagens no Brasil. Sua proposta de observar diretamente a natureza para melhor representá-la rompia, por completo, com o ensino ministrado até então entre nós, baseado na cópia de modelos no interior dos ateliês. Para Grimm, só a prática da pintura ao ar livre, in loco, permitiria ao artista identificar as especificidades da paisagem brasileira, especialmente a sua luminosidade; eliminando ou reduzindo a influência dos modelos acadêmicos consagrados. Nesse sentido, deixaram marcas na arte brasileira suas incursões, acompanhado de seus alunos, pelos arredores do Rio de Janeiro e de Niterói para registrar as cores e texturas locais, procurando captar diretamente da natureza o que se pretendia fixar na tela. Antônio Parreiras em sua autobiografia, História de um pintor contada por ele mesmo, publicada em 1937, descreve a dureza dessas expedições por praias distantes, rochas íngremes, florestas densas e pântanos insalubres, muitas vezes sob sol inclemente.

A preocupação documental dos trabalhos de Grimm, nos quais se nota, por exemplo, grande detalhamento de plantas e rochas, contribuiu para valorizar, entre nós, a pintura de paisagem como gênero autônomo, rompendo com a tradição de considerá-la mero acessório para outros gêneros. Mas esse caráter documental de sua pintura foi também criticado por muitos, que apontam a sua falta de emotividade. Essa é a opinião, por exemplo, do próprio Antônio Parreiras, para quem o mestre era um grande pintor, mas não um artista: “Dominava-o a preocupação única de copiar com extrema fidelidade a natureza, sem alterar uma linha, sem modificar um tom. Daí a falta frequente de emotividade, notável em suas telas”.Há também os que destacam o quanto certos padrões acadêmicos europeus se mostram arraigados em sua obra, como o historiador Maciel Levy, para quem, “a despeito da poderosa e benéfica influência exercida, Grimm foi um artista condicionado por bem demarcadas limitações e suas pinturas atestam os resquícios de uma formação por demais rígida e pouco propensa às modificações de ordem estrutural.” De toda forma, sua influência sobre os destinos da arte brasileira é inegável. Rodrigo Melo Franco de Andrade o aponta como o artista que maior influência exerceu sobre os paisagistas brasileiros entre o final do século XIX e o estabelecimento do Modernismo.


H. Caron, Vista da Gamboa, Rio, 1882

Além do mestre, outros integrantes do Grupo Grimm deixaram marcas importantes na história da arte brasileira. O mais bem sucedido deles foi, sem dúvida, Antônio Parreiras (1860-1937), que após a dispersão do grupo viveu na Itália, entre 1888 e 1890, tendo lá se aproximado timidamente da estética impressionista. Ao retornar ao Brasil, teve brevíssima passagem pela ENBA, de onde se afastou em protesto contra as demissões de Pedro Américo e Vitor Meireles, ocorrida no contexto da reforma implementada na instituição pelo recém-instalado regime republicano. Parreiras tentou, então, seguir os passos de seu mestre, ao fundar a Escola do Ar Livre em Niterói, crítica ao ensino oficial, mas sua importância como professor não foi das maiores. Dedicou-se também, ao longo da vida, à pintura histórica e aos nus, mas foi mesmo com a representação paisagística que deixou sua principal marca na história da pintura brasileira. A tonalidade mais clara das paisagens produzidas a partir de meados da década de 1890 revela sua preocupação em capturar a luminosidade típica do país, o que o aproximava de seu mestre. Entre 1906 e 1919 alternou-se entre Niterói e Paris, onde mantinha ateliê e expunha em salões prestigiados. Morreu consagrado, em 1937.

O italiano Castagneto (1851-1900), chegado ao Brasil em 1874, dedicou-se, fundamentalmente, à pintura de paisagens, sobretudo marinhas. De condição social modesta, precisou da ajuda de amigos para viajar à França em 1890, onde permaneceu por três anos. De volta ao Brasil, montou seu ateliê num pequeno barco, no qual percorria a baía de Guanabara para representá-la em telas marcadamente autorais. Dos discípulos de Grimm, foi o que mais se aproximou do Impressionismo, tendência que se manifesta em sua constante preocupação com os efeitos da luz na água do mar e com as mutações da atmosfera marinha. Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, “seu tratamento pictórico é impulsivo e quase violento, percebe-se a pincelada cortante e o empastamento farto. Representa embarcações de pesca, simples canoas, que adquirem dignidade e imponência. (...) Destacam-se a fatura original dos trabalhos e o tratamento personalíssimo da superfície pictórica: os empastamentos muitas vezes são trabalhados com a espátula, em certos pontos, até com o polegar.

Hipólito Caron (1862-1892) fixou-se na França, entre 1885 e 1888, quando aperfeiçoou seus estudos de paisagem com Hector Hanoteau. Deixou uma obra pictórica expressiva; marcada, segundo Maciel Levy, “por planos definidos, pelo naturalismo da imagem, refinamento técnico no uso da cor e pela extrapolação do caráter documental da pintura de paisagens oitocentista”, sendo por isso apontadocomo aquele que, entre os discípulos de Grimm, “mais de perto cultivou problemas estéticos análogos àqueles que transformariam a arte internacional na virada do século XIX”. Morreu cedo, porém, com pouco mais de trinta anos.


Garcia y Vásquez

Domingos Garcia y Vasquez (c.1859-1912) era considerado pelo próprio Grimm como o seu melhor aluno, e por Thomas Driendl como o melhor paisagista de sua geração. Após a dissolução do grupo, também foi para a França estudar com Hanoteau, exatamente no mesmo período de Caron. Ao retornar ao Brasil, porém, não conseguiu se firmar como artista. Suas obras foram consideradas excessivamente convencionais e sem emoção. Vivendo no abandono em Niterói e com equilíbrio emocional bastante comprometido, acabou suicidando-se em 1912. Teixeira Leite destaca a identidade de sua obra artística com as de Caron e Castagneto, e chama a atenção para a poesia de suas paisagens, “vazadas numa pincelada fluente, cheias de cor e de movimento, custando acreditar tivessem-lhe motivado tantas críticas, ao tempo em que nasceram”.

O Grupo Grimm foi abordado pelo historiador Carlos Roberto Maciel Levy em O Grupo Grimm: paisagismo brasileiro no século XIX, publicado em 1980; e também no artigo “O Grupo Grimm”, que integra a obra Aspectos da arte brasileira, de Wladimir Alves de Souza, de 1981.

Fontes
- CAVALCANTI, Carlos. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos, MEC/INL, 1974. (Verbetes: Grimm, Jorge, pp.283-284; Parreiras, Antônio, pp.335-336; Castagneto, Giovanni, p.112-114; Caron, Hipólito, p.360).
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Grupo Grimm, p.234; Grimm, Georg, pp.230-232; Parreiras, Antônio, pp.386-388; Castagneto, Giovanni, p.112-114; Caron, Hipólito, p.108; Vasquez, Domingos Garcia y, p.518).
- PARREIRAS, Antônio. História de um pintor contada por ele mesmo. 3. ed. Niterói, RJ: Niterói Livros, 1999.
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbetes: Grimm, Georg, pp.251-252; Parreiras, Antônio, pp.406-407; Castagneto, Giambattista, p.117-118; Caron, Hipólito, p.112; Vasquez, Domingos Garcia y, p.535).
- Itaú Cultural. Verbetes: Grupo Grimm, Georg Grimm, Antônio Parreiras, Castagneto. Hipólito Caron, Garcia y Vasquez. http://www.itaucultural.org.br.

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