Grupo Frente
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Grupo Frente, Lygia Pape

Grupo de artistas que constituiu o núcleo carioca do movimento concretista brasileiro. Liderado por Ivan Serpa, realizou quatro exposições entre 1954 e 1956, dissolvendo-se a seguir. Em 1959, vários de seus integrantes reagruparam-se para dar origem ao movimento Neoconcreto, que aprofundava as restrições já levantadas pelo Grupo Frente à rigidez programática dos concretistas paulistas, organizados no Grupo Ruptura.

As primeiras manifestações da arte abstrata no Brasil datam do final da década de 1940, quando os seus pioneiros encontraram terreno fértil para atuarem junto a algumas importantes instituições então criadas, como o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e os Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo; campo que seria ainda ampliado com as Bienais Internacionais realizadas regularmente na capital paulista, a partir de 1951. No Rio de Janeiro, a difusão do Abstracionismo muito deveu também à atuação do crítico de arte Mário Pedrosa, em torno do qual reuniu-se o primeiro núcleo abstracionista carioca, formado por Ivan Serpa, Abrahan Palatnik e Almir Mavignier. Após anos de exílio na Europa, onde travou contato com as vanguardas artísticas do Velho Continente, Pedrosa retornara ao Brasil após a queda da ditadura do Estado Novo, passando a desenvolver intensa atuação na imprensa. Em 1949 defendeu, junto à Faculdade Nacional de Arquitetura, a sua tese Da natureza afetiva da forma na obra de arte.

Grossomodo, os abstracionistas dividem-se em duas vertentes: a geométrica e a informal (ou lírica). Da vertente geométrica derivou o chamado Concretismo, movimento criado no início da década de 1930 pelo artista plástico holandês Theo Van Doesburg, e que ganharia forte impulso após a II Guerra Mundial, quando passou a ser liderado mundialmente pelo suíço Max Bill. Segundo os princípios concretistas, a obra de arte deve ser a concretização de uma idéia previamente concebida com base em princípios racionais, universalmente inteligíveis, realizada exclusivamente através de elementos plásticos, como planos e cores, combinados a partir de uma lógica matemática e geométrica. De acordo com o Concretismo, a obra deve apresentar uma significação intrínseca a ela mesma, não lhe cabendo representar a natureza ou qualquer realidade que lhe seja exterior.


Grupo Frente, Franz Weissmann

Convictos defensores da razão e do ideal científico, os concretistas defendem ainda a plena inserção da arte na sociedade industrial.

No Brasil, o Concretismo começou a ganhar terreno a partir da exposição de Max Bill no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1950, que causou grande impacto sobre alguns jovens artistas brasileiros; impacto esse que seria reforçado, no ano seguinte, pela forte presença do Abstracionismo Geométrico na primeira edição da Bienal de São Paulo. Impulsionado por tais eventos, surgiria na capital paulista, em 1952, o Grupo Ruptura, liderado por Waldemar Cordeiro, o primeiro no país a se reivindicar como concretista.

Por essa época, os postulados concretistas começavam a ser assimilados também no Rio de Janeiro por Ivan Serpa, premiado na I Bienal paulista com a tela Formas. A partir de 1952, Serpa passaria a divulgar as novas idéias em suas aulas ministradas no MAM-RJ. No ano seguinte, concretistas paulistas e cariocas, bem como diversos abstracionistas informais, promoveriam a Exposição Nacional de Arte Abstrata, no Hotel Quitandinha, em Petrópolis; evento que ofereceu um amplo painel das novas tendências que então se desenvolviam na arte brasileira. Mas foi somente com a criação do Grupo Frente, em 1954, que os abstracionistas cariocas formalizaram sua opção pelo Concretismo. Sua primeira exposição, realizada naquele mesmo ano, na Galeria do Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), reuniu oito artistas: Ivan Serpa, Aluísio Carvão, Lígia Clark, Lígia Pape, Décio Vieira, Carlos Val, João José da Silva Costa e Vincent Iberson; com texto de apresentação redigido pelo poeta Ferreira Gullar, muito próximo do grupo. A exposição teve, porém, pouca repercussão. Em julho do ano seguinte, o Grupo Frente realizou sua segunda mostra, dessa vez no MAM-RJ, quando juntaram-se aos oito artistas da primeira exposição, sete novos nomes: Abraham Palatnik, Franz Weissmann, Helio Oiticica, César Oiticica, Elisa Martins da Silveira, Eric Baruch e Rubem Mauro Ludolf. Dessa vez, o texto de apresentação ficou a cargo de Mário Pedrosa. Os mesmos 15 artistas presentes nessa segunda mostra estiveram também nas outras duas realizadas pelo Grupo: em março de 1956, no Itatiaia Country Clube, em Resende (RJ), que contou com texto de apresentação do escritor Macedo Miranda; e, por fim, na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, em junho do mesmo ano. O local dessa quarta e última exposição do grupo, uma usina siderúrgica, merece ser destacado, já que, como já se disse, uma das intenções do Concretismo era promover a aproximação entre arte e indústria.


Grupo Frente, Ivan Serpa

O relacionamento entre os concretistas de São Paulo e do Rio nunca foi tranquilo. Já nos primeiros contatos entre os dois grupos manifestaram-se divergências quanto ao grau de adesão aos postulados teóricos defendidos, no plano internacional, por Max Bill e pelos alemães da Escola de Ulm, importante centro formulador e difusor do Concretismo. Diferentemente da linha hegemônica em São Paulo, os concretistas cariocas demonstraram sempre uma maior independência frente àqueles postulados, mostrando-se mesmo cautelosos em aceitar plenamente a ideia de uma arte essencialmente ancorada na teoria, negadora do papel da intuição e da subjetividade no processo criativo. A maior liberdade desfrutada pelos membros do Grupo Frente favorecia, entre outras coisas, uma maior diversificação de materiais e de linguagens em suas obras, que incluíam, além da pintura e da escultura, as diversas modalidades da gravura, a arte cinética, as colagens, etc.

Em suma, os integrantes do Grupo Frente evitavam definições estilísticas e programáticas mais rígidas, como faziam os paulistas do Grupo Ruptura; que, por sua vez, acusavam os cariocas de não terem o devido compromisso com os princípios mais fundamentais do Concretismo. A profundidade das divergências entre os dois grupos acabaria por ficar evidenciada por ocasião da I Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada no MAM-SP, em dezembro de 1956, e no edifício do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, em fevereiro do ano seguinte. Encerrada a mostra, paulistas e cariocas se afastaram definitivamente, ao mesmo tempo em que o Grupo Frente se dissolvia, optando seus integrantes por aprofundar a tendência individualizante que, de certa forma, sempre estivera presente em suas trajetórias.

Vários deles, porém, voltariam a se agrupar em 1959, para dar origem ao Movimento Neoconcreto, que se apresentava como uma reação organizada à ortodoxia do Concretismo paulista e sua “perigosa exacerbação racionalista”. Os neoconcretos reafirmavam a importância fundamental da expressão subjetiva no processo de criação artística e negavam-se a conceber a obra de arte como um simples artefato produzido cientificamente pela sociedade industrial. Mais abertos às preocupações expressivas, deram grande contribuição ao desenvolvimento da arte no Brasil ao proporem, de forma inovadora entre nós, a interação entre a obra de arte e o expectador. Segundo Ligia Canongia e Paulo Venâncio Filho, a importância do Neoconcretismo para a arte brasileira está no “rompimento da visão racional e planejada do Concretismo, tentando reintroduzir o caráter expressivo no âmbito da arte, em franca estratégia de resgate da subjetividade. O retorno das intenções expressivas representava a busca de uma saída humanista para a geometria, fugindo ao racionalismo funcional e mecânico dos concretos. A sensibilização do trabalho de arte, que caracterizou a construção neoconcreta, estava associada à idéia de revitalizar o relacionamento do sujeito com a obra, assim como incrementar a participação do espectador em seu próprio processo de criação.

Em março de 1959 realizou-se no MAM-RJ a I Exposição de Arte Neoconcreta, cujo manifesto de lançamento foi assinado por Amílcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. Ainda em 1959, uma exposição em Salvador reuniu os sete artistas presentes na mostra carioca e ainda Aluísio Carvão, Helio Oiticica e Willis de Castro, além dos poetas Cláudio Melo e Souza e Fortes de Almeida. Novas exposições do grupo seriam realizadas no edifício do Ministério da Educação, em 1960, e no MAM-SP, em 1961.

O Grupo Frente reuniu alguns dos mais destacados artistas plásticos brasileiros da segunda metade do século XX, que já no final da década de 1950 apresentavam trajetórias bastante individualizadas, ainda que, na sua maior parte, fieis aos princípios construtivos fundamentais. Ivan Serpa, após o período de maior identificação com o Concretismo, nos anos 1950, incorporou a expressão gestual aos seus trabalhos, o que acabou por levá-lo de volta ao expressionismo e à figuração. Por conta disso, participou das exposições Opinião 65, Opinião 66 e Nova Objetividade Brasileira (1967), todas realizadas no MAM-RJ, que marcaram o estabelecimento de uma nova vaga figurativa na arte brasileira. Até o final de sua vida, oscilaria entre o construtivismo e a figuração.

Abraham Palatnik, outro pioneiro do Abstracionismo entre nós, combinou, como poucos, os universos da arte e da indústria, atuando com grande sucesso como desenhista industrial. Um dos pioneiros da arte cinética no mundo (já em fins da década de 1940 apresentava seus aparelhos cinecromáticos), sempre procurou conferir um sentido construtivo à sua obra, o que levou o crítico Clarival Valadares a classificá-la de “abstração formal dinamizada”.

Ligia Clark, um dos nomes da arte brasileira de maior reconhecimento internacional, dedicou, na época em que integrava o Grupo Frente, grande atenção à superação de antigas questões referentes à relação entre figura e fundo na pintura, o que a fez eliminar a moldura de seus quadros. Segundo Ferreira Gullar, a importância de suas obras realizadas entre 1954 e 1958 “reside no fato de ter ela libertado o quadro de suas conotações tradicionais, rompendo com o espaço de representação que se mantinha ao longo da evolução pictórica não figurativa, de Mondrian aos concretistas”. Essa sua preocupação com a relação entre a obra e o seu espaço externo acabaria por levá-la para a tridimensionalidade, eliminando as fronteiras entre pintura e escultura, ao mesmo tempo em que estimulava suas experiências relacionadas à interação entre obra e observador. É o que se vê na série Bichos, iniciada por volta de 1960, constituída de planos móveis e manipuláveis.

A aproximação entre obra e espectador esteve também no centro das preocupações de Lígia Pape e, principalmente, de Hélio Oiticica. Esse último, após apresentar, nos anos 50, obra ainda presa às questões essencialmente visuais, caminhou em seguida para trabalhos que propunham um amplo envolvimento sensorial do sujeito na fruição da obra, como nos Penetráveis e nos Parangolés.

O escultor Franz Weissmann, por sua vez, notabilizou-se por suas estruturas formais de grande originalidade rítmica, bem como pelos trabalhos em que os vazios cumprem importante papel na construção do espaço, verdadeiros “desenhos no espaço”, segundo sua própria definição.


Fontes
- CANONGIA, Ligia; VENÂNCIO FILHO, Paulo. Abstração Geométrica. Rio de Janeiro: SESC, s.d. 
- COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinqüenta. Rio de Janeiro: FUNARTE / Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1987.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Grupo Frente. pp. 233-234).
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbetes: Clark, Lígia, 136-37; Palatnik, Abraão, p.401).
- Itaú Cultural. Verbetes: Grupo Frente
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_texto&cd_verbete=336&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>