Grupo dos Dissidentes
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


A. Ceschiatti a Justiça Brasilia

Agrupamento formado por estudantes de Arte e de Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), em 1942, que se insurgiram contra a decisão tomada pelo diretor da Escola, Augusto Bracet, de proibir que uma obra do escultor Alfredo Ceschiatti, com pintura de Francisco Bologna, e também um painel do arquiteto Maurício Roberto, fossem expostos na mostra de alunos, anualmente realizada na instituição. Segundo Bracet, as obras em questão estavam em desacordo com a estética oficialmente adotada pela ENBA. Além dos artistas vetados, o grupo foi formado também por Sansão Castelo Branco, José Pedrosa, José Morais, Percy Deane, Ahmés de Paula Machado, Maria Campello, Milton Ribeiro, Eduardo Corona e Flávio d’Aquino, entre outros.

O grupo, autodenominado Dissidente, organizou, ainda em 1942, uma mostra de suas obras nas dependências da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), localizada a pequena distância da ENBA, no centro do Rio de Janeiro. A exposição obteve grande repercussão na imprensa, graças ao apoio que lhe foi dado por artistas e intelectuais de prestígio, como o pintor Alberto da Veiga Guignard, o cenógrafo Santa Rosa e os escritores Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Marques Rebelo e José Lins do Rego. Uma segunda mostra dos dissidentes foi realizada no ano seguinte, no mesmo local, dissolvendo-se o grupo logo em seguida. Ainda em outubro de 1943, a sede da ABI seria palco de um outro evento relacionado com as disputas no interior da Escola Nacional de Belas Artes, quando recebeu uma exposição montada com obras de Guignard e seus alunos do ateliê Nova Flor do Abacate (ou Grupo Guignard) que, inaugurada poucos dias antes no salão do Diretório Acadêmico da ENBA, fora desmontada à força por um grupo de alunos conservadores da Escola, num lamentável episódio que chegou a danificar algumas obras.


Sansão Castelo Branco composição

A formação do Grupo dos Dissidentes, em 1942, representou mais um episódio da longa luta travada contra o tradicionalismo acadêmico no interior da Escola Nacional de Belas Artes, processo esse que tem origens mais remotas, mas que ganhou intensidade a partir dos anos 1930. No início daquela década, a ENBA foi sacudida pela curta, porém marcante, gestão do arquiteto Lúcio Costa à sua frente, cujo resultado mais expressivo foi o perfil conferido ao Salão Nacional de Belas Artes (SNBA), em 1931. Evento expositivo mais tradicional da instituição, e até então exclusivamente reservado à arte acadêmica, o Salão daquele ano, também chamado de Salão Revolucionário, abriu suas portas, pela primeira vez, à arte moderna; não sem a oposição, evidentemente, dos professores mais conservadores. Lúcio Costa logo se veria forçado a demitir-se da direção da ENBA, mas a disputa na Escola permaneceria nos anos seguintes, como indica a presença em seu interior dos jovens artistas do Núcleo Bernardelli, que reivindicavam uma renovação no ensino das artes plásticas que permitisse maior liberdade de expressão aos alunos. Em 1940, finalmente, a crescente presença do modernismo na cena artística brasileira obrigaria a direção da ENBA a criar a Divisão Moderna no interior do Salão Nacional de Belas Artes.


A. Bracet Os primeiros sons do Hino da Independência 1922

O veto do diretor Augusto Bracet às obras de Ceschiatti, Bologna e Maurício Roberto na exposição dos alunos em 1942 deve ser visto, assim, como uma tentativa pontualmente vitoriosa de conter o avanço das manifestações de cunho moderno no interior daquela tradicional instituição; mas incapaz de reverter a tendência mais geral de afirmação das novas linguagens estéticas no panorama mais amplo da arte brasileira, tendência essa que acabaria por abarcar, inevitavelmente, a própria ENBA. A prova disso é que Ceschiatti, o centro da polêmica em 1942, já nos anos seguintes conquistaria seguidas premiações na Divisão Moderna do SNBA (medalha de bronze em 1943, de prata em 1944 e o prêmio de viagem ao exterior em 1945, todas como escultor; e também em 1945, a medalha de prata como desenhista). Da mesma forma, outros “dissidentes” logo conquistariam também posições de relevo na Escola: José Pedrosa integrou o júri de escultura da Divisão Moderna em 1944 e conquistou a medalha de ouro em 1945; José Moraes foi quatro vezes premiado no SNBA durante a década de 40, inclusive com o prêmio de Viagem ao Exterior, em 1949; Percy Deane conquistou a medalha de prata e o prêmio de viagem ao país, em 1943; e Milton Ribeiro conquistou medalhas de bronze nos anos de 1944 e 1945, para citarmos apenas alguns exemplos.

A atuação dos “dissidentes”, em 1942, se insere, portanto, no processo de avanço do ideário estético modernista no cenário artístico carioca que, nos anos seguintes, se consolidaria ainda mais com a criação do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ) em 1948; e, no âmbito da própria ENBA, com a transformação da Divisão Moderna do SNBA numa mostra exclusivamente dedicada à arte moderna, o Salão Nacional de Arte Moderna, em 1952.

Em 1986, a rebeldia dos alunos da ENBA no início dos anos 1940 seria relembrada na exposição Os Dissidentes, realizada na Galeria de Arte do Banerj, no Rio de Janeiro.

Fontes
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Grupo dos Dissidentes, p.401).
- CAVALCANTI, Carlos. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos, MEC/INL, 1974. (Verbetes: Ceschiatti, Alfredo, p.397; Pedrosa, José, p.360).
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbetes: Ceschiatti, Alfredo, p.127; Deane, Percy, p.161; Pedrosa, José, p. 413; Ribeiro, Milton Martins, p. 452)