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EXPOSIÇÕES GERAIS DE BELAS ARTES
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Barandier, Comendador Luciano de Almeida, 1849

São assim designadas as exposições de artes plásticas promovidas pela Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), a partir de 1840, no Rio de Janeiro. Ao longo do período imperial foram realizadas 26 edições da mostra, com periodicidade irregular, a última delas em 1884. Suspensas por uma década, voltariam a ser realizadas em 1894, após o advento da República e a transformação da AIBA em Escola Nacional de Belas Artes (ENBA); tendo assumido, a partir de então, maior regularidade. Em 1934, a mostra passou a se chamar Salão Nacional de Belas Artes, denominação que, no entanto, já era informalmente utilizada desde a primeira edição ocorrida no período republicano.

A origem das Exposições Gerais remonta às duas mostras de arte organizadas pelo pintor francês Jean Baptiste Debret na sede da AIBA, nos anos de 1829 e 1830. Foi o próprio Debret, membro destacado da Missão Artística Francesa que chegara ao país em 1816 e professor de pintura da instituição, quem financiou os catálogos das exposições. Em ambas, os trabalhos expostos – 115 na primeira e 126 na segunda - foram produzidos exclusivamente por professores e alunos da própria Academia. Com o retorno de Debret à França, em 1831, as exposições da Academia Imperial deixaram de ser realizadas, sendo retomadas somente em 1840, por iniciativa de Félix Émile Taunay, que assumira a direção da instituição em 1834. Aberta também a artistas não vinculados à Academia, desde que acatassem as normas acadêmicas, a mostra de 1840, denominada de I Exposição Geral de Belas Artes, contou com trabalhos de Correia de Lima, Augusto Müller, Claude Joseph Barandier e Abraham Louis Buvelot.


Correia de Lima, Retrato do marinheiro Simão, 1853-57

As Exposições Gerais ocorridas no período imperial eram eventos de grande importância social, que normalmente contavam com a presença do imperador e de outras autoridades, em sua abertura. Organizadas por um júri especializado que selecionava os participantes, concedia premiações e escolhia as obras a serem adquiridas pela Academia para compor sua pinacoteca, as mostras cumpriram um papel decisivo na afirmação dos padrões estéticos defendidos pela AIBA, rigidamente ancorados nos princípios acadêmicos do neoclassicismo e do romantismo, que durante um longo período foram a referência quase que exclusiva de gosto artístico no país. Os vencedores das exposições gerais eram agraciados com medalhas de ouro e prata, comendas e menções honrosas. Paralelamente, a Academia Imperial distribuía prêmios de viagem ao exterior em concursos abertos exclusivamente a alunos nela matriculados.

As mostras apresentavam nítido predomínio da pintura, com destaque para o retrato e as paisagens, gêneros muito valorizados no interior da AIBA. Há que se notar também a presença marcante de desenhistas, escultores, arquitetos e até fotógrafos entre os expositores, como demonstra a presença precoce de alguns daguerreótipos já na edição de 1842. Revestidas de caráter oficial, as exposições da AIBA constituíam-se também em espaço privilegiado para a apresentação de alguns dos mais portentosos exemplares da pintura histórica que marcou a produção acadêmica brasileira no século XIX, amplamente identificada com o projeto imperial de construção de uma memória e de uma identidade nacionais, idealizadas ao gosto romântico.


Décio Villares, Retrato de Francisco Portella

Como passar do tempo, as exposições gerais da AIBA foram ganhando vulto. Sua 13ª edição, realizada em 1859, após uma interrupção de sete anos, contou com expressivo catálogo de 104 páginas. Apesar do crescente espaçamento entre as edições realizadas no final Império - o que pode ser visto como uma evidência da crise então vivida pela AIBA - as duas últimas Exposições Gerais desse período chamam a atenção por suas dimensões e sua qualidade. Na penúltima mostra, realizada em 1879, foram expostas importantes obras de caráter histórico, como Batalha do Avaí, de Pedro Américo, e Batalha dos Guararapes, de Vitor Meireles, painéis de grandes dimensões, que obtiveram grande repercussão junto ao público. A Exposição aberta em agosto de 1884, por sua vez, contou com a participação de 75 artistas e 399 obras. Entre os pintores, destacavam-se novamente Pedro Américo (David e Abisag, Rabequista Árabe e outras 13 telas), Vitor Meireles (Passagem de Humaitá e Combate Naval do Riachuelo), Almeida Júnior (Fuga para o Egito, Derrubador Brasileiro e Descanso do Modelo), Oscar Pereira da Silva, Georg Grimm, Castagneto, Rodolfo Amoedo e Décio Vilares, entre outros. O fotógrafo Marc Ferrez também integrou o seu rol de expositores. A Exposição Geral de 1884 ficou aberta durante cem dias e foi visitada por mais de 20 mil pessoas, que pela primeira vez na história do país pagaram ingresso para ver uma exposição de artes plásticas. Além disso, a mostra contou também, pela primeira vez, com um catálogo ilustrado, contendo desenhos elaborados pelos próprios artistas, cuja tiragem de apenas cem exemplares numerados foi organizada e custeada por L. de Wilde, proprietário de uma das mais importantes galerias de arte do Rio de Janeiro na época.

De acordo com levantamento feito pelo crítico e historiador de arte Carlos Roberto Maciel Levy, as 26 exposições gerais realizadas no período imperial envolveram, no seu todo, 516 artistas e 3.315 obras. Pelo menos algumas dessas mostras eram enriquecidas com trabalhos pertencentes a coleções particulares, principalmente a do imperador Pedro II.


Jean Baptiste Debret

Ao serem retomadas em 1894, as Exposições Gerais passaram também a atribuir prêmios de viagem aos seus vencedores; continuando a ENBA a conceder premiação semelhante em concursos abertos exclusivamente a seus alunos. No período republicano, a mostra passou a ter periodicidade anual, com pequenas interrupções. A mostra de 1894, oficialmente denominada 27ª Exposição Geral de Belas Artes, ficou conhecida também como Primeiro Salão Nacional de Belas Artes. Durante toda a Primeira República - mesmo após a Semana de Arte Moderna, em 1922 - as Exposições Gerais permaneceram completamente dominadas pela arte acadêmica, cuja posição no interior da Escola Nacional de Belas Artes continuava intocada. Essa situação seria radicalmente alterada na Exposição de 1931, quando, por influência do novo diretor da ENBA, o arquiteto Lúcio Cota, a mostra foi amplamente dominada pela arte moderna, tendo por isso ficado conhecida como Salão Revolucionário, Salão de 31, ou ainda Salão dos Tenentes, numa referência aos militares revoltosos que haviam ascendido ao poder com Getúlio Vargas, em 1930. Mas a hegemonia da arte moderna no certame seria breve, e já em sua edição seguinte a Exposição Geral de Belas Artes voltaria a ser um reduto do conservadorismo acadêmico. O próprio Lúcio Costa, demitido da direção da ENBA ainda durante o ano de 1931, se referiria mais tarde ao polêmico evento como “um simples intermezzo na sequência tradicional dos Salões”. Ainda assim, é inegável a importância do Salão de 1931 para a história da arte no Brasil, já que representou a primeira chancela oficial à arte moderna no país. Dele participaram alguns dos artistas presentes na Semana de 22, bem como outros importantes renovadores das artes plásticas brasileiras que não tiveram a chance de se apresentar na famosa mostra do Teatro Municipal de São Paulo.

As tensões entre acadêmicos e modernos se prolongariam, porém, nos anos seguintes. No 46º Salão, de 1940, foram criadas duas divisões: a Geral e a Moderna. Já em 1952, porém, a Divisão Moderna seria extinta, com os artistas modernos passando a dispor de uma mostra específica reservada a eles, o Salão Nacional de Arte Moderna. Ambos os salões ficavam subordinados à Comissão Nacional de Belas Artes. Em 1978, devido à irreversível perda de espaço por parte da arte acadêmica, os dois salões foram extintos, passando a existir um único Salão Nacional de Artes Plásticas, cuja última edição foi realizada em 1990.

Fontes
- DEZENOVE-VINTE. Arte brasileira do século XIX e início do XX.
   <http://www.dezenovevinte.net/catalogos/catalogos_1884_ilust.htm>
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Exposição Geral de Belas Artes, p.182; Salão Nacional de Arte Moderna, p.457; Salão Nacional de Artes Plásticas, p. 457; Salão Nacional de Belas Artes, p. 457, Salão Revolucionário, pp.457-458)
- SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 630 p., il. p&b color.
- Itaú Cultural - Verbete: Exposições Gerais de Belas Artes
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
marcos_texto&cd_verbete=905&cd_item=11&cd_idioma=28555>

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