Exposição Nacional de Arte Abstrata
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Exp. Nac. de Arte Abstrata, Décio Vieira Abstração

Exposição realizada no Hotel Quitandinha, no município de Petrópolis (RJ) em fevereiro de 1953, reunindo mais de vinte artistas brasileiros ou residentes no Brasil, todos de alguma forma vinculados às tendências estéticas abstratas. A mostra foi idealizada pelo pintor e professor Edmundo Jorge, residente em Petrópolis, também responsável pelo texto de apresentação de seu catálogo. A organização do evento ficou a cargo da Associação Petropolitana de Belas Artes, em parceria com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ).

A arte abstrata começou a se desenvolver no Brasil nos últimos anos da década de 1940 quando, simultaneamente, se formaram os primeiros núcleos de artistas não figurativos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na capital paulista, a difusão do Abstracionismo foi então favorecida pela criação do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e do Museu de Arte Moderna (MAM-SP), instituições que desde o início de suas atividades abriram amplo espaço às tendências artísticas renovadoras, como ficaria patente no próprio evento inaugural do MAM, a mostra Do Figurativismo ao Abstracionismo. Foram também decisivos nesse processo a criação do Ateliê Abstração pelo pintor e professor romeno Samson Flexor, cujas atividades se estenderam por toda a década de 1950; a mostra individual do suíço Max Bill, então o principal teórico mundial do movimento concretista, realizada no MASP, em 1950; e a criação da Bienal Internacional de São Paulo, regularmente promovida a partir de 1951. Refletindo esse ambiente artístico receptivo às inovações na capital paulista, foi criado, em 1952, o Grupo Ruptura, liderado por Waldemar Cordeiro. Estreitamente vinculado aos princípios estéticos concretistas defendidos por Max Bill e pela Escola de Ulm, da Alemanha, o grupo concebia a obra de arte como o resultado de um rígido projeto construtivo, que envolvesse exclusivamente elementos de ordem plástica (planos, linhas e cores), racionalmente combinados a partir da linguagem matemática e geométrica. A arte dos concretistas paulistas pretendia-se, portanto, desvinculada não só da representação da natureza como de qualquer outra realidade a ela exterior, inclusive da subjetividade do artista.


Exp. Nac. de Arte Abstrata, A. Mavignier Abstração

No Rio de Janeiro, por sua vez, o advento da arte abstrata foi impulsionado, a princípio, pela atuação do crítico Mário Pedrosa, em torno do qual se reuniram, em fins dos anos 40, Ivan Serpa, Abrahan Palatnik e Almir Mavignier. Por essa época, a cidade também ganharia o seu Museu de Arte Moderna, onde Ivan Serpa passaria a lecionar no início da década seguinte, reunindo um conjunto de jovens artistas interessados em assimilar e aplicar os postulados do Abstracionismo Geométrico. Dali surgiria, em 1954, o Grupo Frente, núcleo carioca do movimento concretista. Embora também partidários de uma arte racionalmente construída, os concretistas cariocas, diferentemente dos paulistas, sempre manifestaram certa resistência em conceber a arte a partir de princípios estritamente objetivos; custando aos seus integrantes aceitarem que a produção artística fosse ancorada exclusivamente na teoria, e que a intuição e a subjetividade fossem simples traços residuais de antigas concepções estéticas a serem superadas. As divergências entre paulistas e cariocas se aprofundariam ao longo da década, acabando por resultar na chamada dissidência neoconcreta, promovida pelos cariocas.

Paralelamente às atividades desenvolvidas pelos concretistas do Rio e de São Paulo, outros artistas também aderiram, por essa época, ao abstracionismo geométrico no país, preferindo  manter, no entanto, uma trajetória individualizada, sem vínculos formais a grupos. Foram os casos, por exemplo, de Alfredo Volpi, Milton Dacosta e Mira Schendell, entre outros. Tal opção foi ainda mais acentuada entre os integrantes da outra grande vertente da arte abstrata, a dos não geométricos, chamados informais ou líricos, avessos que sempre foram, pela própria natureza de suas concepções estéticas, à participação em grupos que pudessem de alguma forma tolher a sua individualidade.

Com o advento do Abstracionismo, a arte brasileira ingressava num novo período, atualizando-se, de certa forma, com relação às tendências que desde algum tempo já vinham se desenvolvendo na Europa e nos Estados Unidos. Como observa o crítico Ronaldo Brito, até então “não havia uma arte moderna no Brasil; não se tinha compreendido ainda de todo as operações levadas a efeito pelo Cubismo e a partir dele. Tarsila, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Guignard, Portinari são a rigor pintores pré-cubistas, mesmo que alguns deles tenham incorporado inteligentemente elementos cubistas às suas produções. Estavam aquém da radical transformação proposta pelo Cubismo, permaneciam presos, independente da qualidade e do interesse de seus trabalhos, aos antigos esquemas de representação”.


Exp. Nac. de Arte Abstrata, Palatnik Objetos cinéticos

É nesse contexto que a Exposição Nacional de Arte Abstrata se realiza em 1953. Havia entre os expositores um certo predomínio do núcleo concretista carioca, que, por sinal, somente no ano seguinte formalizaria a criação do já citado Grupo Frente. Dessa vertente, participaram da exposição Ivan Serpa, Lígia Clark, Lígia Pape, Abraham Palatnik, Aloísio Carvão e Décio Vieira, além do próprio coordenador do evento, Edmundo Jorge, ligado ao grupo carioca. Ainda que em menor número, os concretistas paulistas também estiveram representados por Geraldo de Barros e Antônio Maluf. O Abstracionismo Informal, por sua vez, esteve presente com Anna Bella Geiger, Antônio Bandeira, Fayga Ostrower e Rossini Perez. Havia ainda artistas que, na maior parte de suas trajetórias, desenvolveram obra de caráter figurativo, mas que na época flertavam com o Abstracionismo, como Santa Rosa, France Dupaty, Margaret Spence, Ramiro Martins e Zélia Salgado. Registre-se ainda os nomes de José Jardim de Araújo e de Antônio Luiz Cardoso de Mello e Silva. O júri da mostra, composto por Mário Pedrosa, Niomar Muniz Sodré e Flávio de Aquino, premiou os artistas Décio Vieira e Lígia Clark.

A Exposição Nacional de Arte Abstrata representou, como se vê, importante momento de afirmação do Abstracionismo no país, cumprindo o papel de mapear as manifestações dessa tendência até então desenvolvidas no Brasil. Anos depois, seria realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente no fim de 1956 e no início de 1957, a Exposição Nacional de Arte Concreta. Nessa ocasião, em que pese a diversidade de artistas presentes, os abstracionistas informais foram excluídos. Além disso, a mostra explicitaria as divergências entre os concretistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, que se afastariam definitivamente após o seu encerramento.




Fontes

- BRITO, Ronaldo. Neoconcretismo: vértice e ruptura do projeto construtivo brasileiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.
- COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinqüenta. Rio de Janeiro: FUNARTE / Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1987.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Exposição Nacional de Arte Abstrata).
- Itaú Cultural. Verbete: Exposição Nacional de Arte Abstrata.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_texto&cd_verbete=3759>
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (verbete: Jorge, Edmundo Palma de, p.282).