Degenerada, Arte
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Degenerada Arte, Paul Schultze-Naumburg

Expressão criada na Alemanha para designar, de forma genérica e pejorativa, as diversas vertentes da arte moderna, constituindo-se num dos componentes centrais da política cultural implantada naquele país pelo regime nazista (1933-45) no seu combate às formas artísticas distanciadas da representação naturalista da realidade.

O conceito de arte degenerada (entartete kunst) remonta a movimentos culturais racistas surgidos na Alemanha no final século XIX, especialmente às ideias de Max Nordaus, que o tomou emprestado da biologia para desqualificar as manifestações artísticas que se opunham à tradição cultural germânica e, em especial, à sua escola de pintura realista, considerada, a um só tempo, exemplo de arte “sadia” e evidência da superioridade étnica dos arianos. Nas primeiras décadas do século XX e, especialmente, durante a República de Weimar (1918-33), a difusão da arte moderna na Alemanha teve como contraponto o revigoramento da aceitação de teses como as de Nordaus. Em 1927, ainda antes da ascensão de Hitler ao poder, Alfred Rosemberg, ideólogo do Partido Nazista, publicou vários artigos na imprensa alemã caracterizando a arte moderna como fruto de mentes doentias, vinculando-a ainda, confusamente, ao avanço do capitalismo e do bolchevismo. Em 1928, o arquiteto e teórico de arte Paul Schultze-Naumburg passou a associar, explicitamente, o termo arte degenerada à estética moderna em seu livro Arte e Raça, no qual estabelecia comparações formais entre obras de grandes nomes do Modernismo, como Modigliani e Otto Dix, e fotografias de doentes mentais, procurando com isso demonstrar a validade de suas teses. A idéia de arte degenerada era associada especialmente aos expressionistas alemães, que durante a República de Weimar retrataram o quadro de esgarçamento social então vivido pelo país,  através de imagens e figuras deliberadamente distorcidas, no que foi interpretado pelo Nazismo como uma afronta à nação alemã. Mas, como já se disse, a hostilidade de Hitler e seus seguidores se estendia também às demais correntes modernistas.

Em 1933, com a chegada dos nazistas ao poder, o obscurantismo toma conta da Alemanha. Logo em seu primeiro ano de governo, Hitler ordena o fechamento da Bauhaus, a importante escola de arquitetura, design e artes plásticas fundada por Walter Gropius, em 1919, e que desempenhava papel de referência para as vanguardas estéticas que se desenvolveram na Europa após a I Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, o regime iniciou uma política de depuração das instituições culturais alemãs, promovendo violenta perseguição a artistas, professores e diretores de museus identificados com a arte moderna, obrigando muitos a emigrarem. Milhares de obras são, então, oficialmente classificadas como “degeneradas”, seja por contrariarem os padrões clássicos de beleza, baseados na harmonia e no equilíbrio, seja por fugirem da representação naturalista, ou até mesmo por apresentarem, na avaliação dos conselheiros artísticos do regime nazista, falhas técnicas em sua feitura. Consideradas moralmente prejudiciais ao povo, tais obras são arbitrariamente retiradas dos acervos dos museus alemães, sendo parte delas vendida em leilões no exterior, enquanto outras são destruídas ou desaparecem.


Degenerada Arte, Adolf Ziegler Deusa da Arte

Nesse clima de total hostilidade à liberdade de expressão e manifestação artística, em que livros considerados indesejáveis pelo regime são queimados em praça pública, o governo alemão promove, em julho de 1937, uma exposição de Arte Degenerada na cidade de Munique. Organizada por Adolf Ziegler, presidente da Câmara de Artes Plásticas do governo alemão, a mostra tem objetivos claramente didáticos e propagandísticos, procurando estigmatizar a arte moderna como um produto de mentes doentias e degeneradas, das quais a sociedade alemã teria se livrado pela ação purificadora do regime nazista. São reunidas, então, aproximadamente 650 obras, entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas, retiradas dos museus alemães nos anos anteriores. Entre os artistas incluídos na mostra estão vários dos maiores nomes da arte moderna, de diversas nacionalidades e tendências, como Marc Chagall, Henri Matisse, Paul Klee, Wassily Kandinsky, Oscar Kokoschka, Pablo Picasso, Georges Braque, Piet Mondrian, Otto Dix, George Grosz, Max Ernst, Emil Nolde, Franz Marc, Lovis Corinth, Max Beckmann, Lyonel Feininger, El Lissitzky e muitos outros. O pintor lituano Lasar Segall, que antes de se fixar no Brasil na década de 1920 teve formação artística na Alemanha, onde se ligou aos círculos expressionistas, teve seis de suas obras incluídas na mostra. A exposição viajou por diversas cidades alemãs e austríacas até 1941, sendo vista por mais de 2 milhões de pessoas.

No Brasil, a política cultural do regime nazista afetou, ao longo da década de 1930, as atividades da Sociedade Pró-Arte de Artes, Ciências e Letras, fundada no Rio de Janeiro, em março de 1931, pelo marchand e animador cultural alemão Theodor Heuberger, com a finalidade de promover o intercâmbio cultural entre Brasil e Alemanha. Identificada, a princípio, com a arte moderna, mas dependendo do apoio financeiro do governo alemão para sobreviver, a Pró-Arte acabou tendo que se afastar em parte de sua opção inicial pela estética moderna, antes de interromper suas atividades, por ocasião do alinhamento brasileiro ao bloco dos países Aliados na II Guerra Mundial. Em abril de 1945, quando a Alemanha se rendia na Europa, realizou-se na Galeria Askanazy, no Rio de Janeiro, a Exposição de Arte Condenada pelo III Reich, com obras originais de Chagall, Kandisnky, Klee, Kokoschka, Corinth, Franz Marc, Willy Baumeister, Kaethe Kollwitz, Max Slevogt e Lasar Segall, entre outros. Na ocasião, uma tela do pintor alemão Wilhelm Woeller, que então vivia no Brasil, foi propositalmente danificada por visitantes da mostra.


Fontes

- COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinquenta. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1987.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Arte Degenerada).
- SCHILLING, Voltaire. Nazismo contra o Modernismo.
  <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2007/04/08/000.htm>
- Itaú Cultural. Verbete: Arte Degenerada.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=328&cd_item=8&cd_idioma=28555>