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CLUBE DOS ARTISTAS MODERNOS (CAM)
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Antonio Gomide, Autorretrato

Entidade cultural criada na cidade de São Paulo, no dia 24 de novembro de 1932, com a finalidade de promover manifestações artísticas inspiradas no ideário estético modernista. O Clube, que estendeu suas atividades por aproximadamente um ano, teve como idealizador e principal animador o arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho, secundado pelos também artistas plásticos Emiliano Di Cavalcanti, Antônio Gomide e Carlos Prado. Sua sede, instalada num edifício da Rua Pedro Lessa, onde anteriormente os quatro artistas já mantinham seus ateliês, transformou-se num movimentado ponto de encontro de intelectuais paulistanos, apresentando um amplo salão para exposições, concertos, recitais e conferências, além de biblioteca e bar.

A numerosa diretoria do CAM era composta por Afonso Schmidt, André Dreyfus, Anita Malfatti, Baby Prado, Beatriz Gomide, Caio Prado Júnior, Celestino Paraventi, Elza Gomes, Fausto Guerner, Jayme Adour da Câmara, John Graz, Joseph Kliass, Nabor Cayres de Brito, Nélson de Rezende, Noêmia Mourão, Paulo Magalhães, Paulo Prado, Paulo Torres, Procópio Ferreira, Sérgio Milliet, Tarsila do Amaral, Yolanda Prado do Amaral e Yvone Maia, que se dividiam pelas comissões de pintura, escultura, arquitetura, literatura, teatro, música, imprensa, estudos gerais e festas. Como salientou a historiadora Graziela Naclério Forte, circulavam ainda pelo Clube, como associados ou simples participantes de seus eventos, intelectuais de formação e interesses bastante variados, entre os quais se incluem alguns dos protagonistas da Semana de 22, como os escritores Mário e Oswald de Andrade; estudiosos das culturas indígenas brasileiras, como Pedro Faber Halembeck e Hermano Ribeiro da Silva; médicos psiquiatras interessados na arte produzida por pacientes mentais, como Antônio Carlos Pacheco e Silva, Durval Belegarde Marcondes, Pedro de Alcântara Machado e Osório César; músicos eruditos envolvidos com pesquisas folclóricas, como Camargo Guarnieri, Hekel Tavares e Elsie Houston Péret; cantores populares, como os sambistas Henricão e  Risoleta; escritores preocupados com a questão social, como Jorge Amado e Hugo Antunes; editores, como Agripino Grieco e Henrique Pongetti; teatrólogos, como Joracy Camargo; e pintores vanguardistas, como Iokanaan; ou ainda o militante anarquista Oreste Ristori, líder da histórica greve de 1917 na capital paulista, que seria expulso do país, em 1935, acusado de subversão.


Carlos Prado

O CAM foi fundado apenas um dia após a criação da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM), integrada pela maioria dos nomes mais expressivos do modernismo paulista e também por elementos pertencentes à elite econômica do estado. Na verdade, a criação de uma entidade voltada para a promoção e difusão da arte moderna vinha sendo articulada nos meios intelectuais de São Paulo havia algum tempo, e o surgimento concomitante dos dois agrupamentos ocorreu devido a uma cisão entre os envolvidos com tal projeto. Segundo o crítico de arte Paulo Mendes de Almeida, que esteve pessoalmente envolvido com as duas entidades, a SPAM era “um tanto aristocrática, porém mais sólida, mais ‘séria’, no bom sentido da palavra”, enquanto o CAM era mais “democrático, largado, mas apresentando, indiscutivelmente, uma vivacidade maior”; constituindo “um grande e vibrante movimento de arte e de inteligência, que dificilmente se repetirá”. Os membros do Clube dos Artistas Modernos criticavam a SPAM pelo seu elitismo e por sua falta de compromisso político e social; “detestamos elites; não temos sócios doadores”, dizia Flávio de Carvalho, em tom provocativo. Essa animosidade era, porém, relativa, já que vários intelectuais e artistas participaram ativamente das duas organizações. Por outro lado, mais do que a ideologia de esquerda, tão ressaltada nas manifestações de seus membros, que incluíam críticas sistemáticas ao Estado brasileiro e à Igreja, o que realmente caracterizou o CAM foi a sua postura anárquica e festiva; um traço frequente, aliás, em praticamente tudo o que esteve ligado à figura sempre inquieta de Flávio de Carvalho. Esse espírito irreverente do Clube ficaria demonstrado já no evento de sua criação, descrito por Paulo Mendes de Almeida como “uma cerimônia à la loca, regada a vinho, vodka e com ilustres presenças do meio artístico”.

É importante perceber que o surgimento do Clube dos Artistas Modernos e da Sociedade Pró-Arte Moderna integra uma tendência mais ampla da vida cultural paulistana e carioca, na década de 1930, marcada pela opção dos artistas de buscarem fortalecer sua atuação através do associativismo. Em São Paulo, essa tendência daria origem ainda a importantes agrupamentos, como o Grupo Santa Helena, em 1934, e a Família Artística Paulista, em 1937; enquanto no Rio de Janeiro ela se manifestou, por exemplo, na formação do Núcleo Bernardelli, em 1931, e do Clube da Cultura Moderna, em 1935. Adeptos todos dos postulados estéticos modernistas que vinham se afirmando no país desde a década anterior, esses grupos divergiam, porém, na forma como tratar a relação entre tradição e inovação. Nesse aspecto, o CAM perfilava-se entre aqueles que afirmavam uma postura marcadamente vanguardista e experimentalista, posição assumida também, ainda que num tom menos estridente, pela SPAM. Segundo afirmam Daisy Alvarado e Vanessa Machado, sobre o Clube: “seu caminho foi traçado na contra-corrente e determinado pela inovação. Toda sua programação convergia numa coerência; valorizava-se a arte moderna e execrava-se os tabus da sociedade”.


Flávio de Carvalho

Entre as exposições promovidas pelo CAM em sua sede, destacou-se a de Käthe Kollwitz, artista plástica alemã que retratava em obras expressionistas as condições de vida da classe trabalhadora. Por ocasião dessa exposição, realizada em junho de 1933, o crítico Mário Pedrosa proferiu a conferência As tendências sociais da arte de Käthe Kollwitz, título dado também ao seu ensaio crítico publicado no semanário antifascita O homem livre, considerado por muitos como um marco na história da crítica de arte no Brasil, por utilizar-se de elementos analíticos de caráter sociológico. Bastante importante também, por seu pioneirismo, foi a mostra A Arte dos Loucos e das Crianças, inaugurada em agosto daquele ano. Realizada numa época em que os estudos psicanalíticos ainda davam seus primeiros passos no Brasil, a exposição teve a curadoria do psiquiatra e crítico de arte Osório César, que desde 1923 interessava-se pela produção artística dos pacientes do Hospital psiquiátrico Juqueri, em Franco da Rocha, onde trabalhava. Como parte do evento, foi promovida uma série de conferências sobre o tema. A realização de conferências, por sinal, esteve entre as atividades mais marcantes do Clube, merecendo destaque também a de Tarsila do Amaral sobre a arte proletária; a de Jaime Adour da Câmara sobre o escritor Raul Bopp; a do historiador marxista Caio Prado Júnior, recém-chegado da União Soviética; a do escritor Jorge Amado sobre as condições de vida e trabalho nas fazendas de cacau da Bahia; e a do pintor muralista mexicano David Alfaro Siqueiros. Tais conferências, feitas em geral sem formalismos, eram seguidas de debates e, por vezes, obtinham grande repercussão.

Realizaram-se também na sede da entidade apresentações musicais de Camargo Guarnieri, Frank Smith, Elsie Houston, Lavínia Viotti, Marcelo Tupinambá e Ofélia Nascimento, entre outros.

Em novembro de 1933, Flávio de Carvalho instalou, no andar térreo do mesmo prédio da rua Pedro Lessa, o seu Teatro da Experiência, que segundo Teixeira Leite se propunha a ser um “laboratório de experiências cênicas e performáticas”. A primeira e única peça encenada no Teatro foi o polêmico Bailado do Deus Morto, escrita e dirigida pelo próprio Carvalho, que logo enfrentaria problemas com a censura, sendo acusada de atentar contra a moral e os bons costumes. Após três apresentações, o Teatro foi fechado pela polícia, apesar dos protestos de diversos intelectuais.

Desde então vigiado de perto pelas autoridades e enfrentando sérios problemas de ordem financeira, o Clube dos Artistas Modernos acabaria por ser fechado também, no início do ano seguinte. Flávio de Carvalho continuaria, porém, ocupando uma posição de relevo na cena cultural paulista por muitos anos, como o demonstra sua destacada participação na organização das três edições do Salão de Maio, ocorridas entre 1937 e 1939; e que tiveram, como o CAM, importante papel na consolidação dos espaços da arte moderna em São Paulo.

Um levantamento detalhado das atividades desenvolvidas pelo Clube dos Artistas Modernos é apresentado por J. Toledo, em eu livro Flávio de Carvalho: o comedor de emoções.

Fontes
- ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo: perspectiva, 1976. (pp. 75-85)
- ALVARADO, Daisy Peccinini; MACHADO, Vanessa. CAM: Clube dos Artistas Modernos. Museu de Arte Contemporânea. Arte no século XX / XXI: visitando o MAC na web.
<http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo2/modernidade/eixo/cam/index.
html>
- FORTE, Graziela Naclério. Entre os salões e a institucionalização da arte. Revista de História [online]. 2010, n.162, pp. 271-284.
<http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?pid=S003483092010000100011&script=sci_
arttext#nt26>
- TOLEDO, J. Flávio de Carvalho: o comedor de emoções. São Paulo: Brasiliense; Campinas: Editora da Universidade de Campinas, 1994. (pp. 129-193)
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Clube dos Artistas Modernos. p.124; Carvalho, Flávio de. pp.108-110).
- Itaú Cultural. Verbete: Clube dos Artistas Modernos.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_
texto&cd_verbete=3754&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>

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