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CENTRO ARTÍSTICO JUVENTAS (SOCIEDADE BRASILEIRA DE BELAS ARTES)
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Centro Artístico Juventas, 1910

Entidade fundada no Rio de Janeiro, em 10 de agosto de 1910, por jovens artistas, entre os quais o pintor Aníbal Matos, seu primeiro presidente, Angelina Agostini, Antônio Pitanga, Armando Magalhães Corrêa, Fedora do Rego Monteiro e Marques Júnior. Em 1° de julho de 1919, uma assembleia geral da entidade, realizada no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, decidiu alterar o seu nome para Sociedade Brasileira de Artes Plásticas, que se mantém até os dias de hoje.

Em seus primeiros anos, a principal atividade desenvolvida pelo Centro Artístico Juventas foi a organização de seus salões anuais, realizados em diversos locais, já que a entidade não possuía uma sede. O primeiro deles, em 1911, teve lugar na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), e os seguintes na Associação de Imprensa (1912), na Associação dos Empregados do Comércio (de 1913 a 1915) e no Liceu de Artes e Ofícios (1916 e 1917). Segundo Rafael Cardoso, “em torno do Juventas e do Liceu foi se consolidando um circuito artístico consistente, detentor de características muito peculiares e análogas àquilo que geralmente se associa ao surgimento do modernismo, alguns anos depois”. A influência dessa nova geração de artistas já se fez sentir no Salão Nacional de Belas Artes de 1913, que premiou vários daqueles jovens, com destaque para Rodolfo Chambelland, que teve o seu quadro O Baile à Fantasia agraciado com o prêmio de aquisição.

 


Centro artistico H. Cozzo

Nos anos seguintes, a entidade continuaria a reunir importantes artistas brasileiros que, formados na ENBA e sem pretender romper frontalmente com os postulados acadêmicos vigentes naquela tradicional instituição, vinham incorporando de forma contida algumas das inovações estéticas que já haviam se imposto, havia décadas, nos meios artísticos europeus, especialmente aquelas associadas ao impressionismo. Artur Timóteo da Costa, por exemplo, segundo afirma Teixeira Leite, “nunca pautou sua arte pela cega obediência aos cânones acadêmicos, pouco lhe importando a fidelidade ao modelo ou a plasticidade de suas figuras. Toda a sua preocupação ia, muito ao contrário, para a cor e para a textura, e através dela, para a expressão.” Rodolfo Chambelland, por sua vez, foi caracterizado por Angyone da Costa como “um impressionista forte, cheio de sol, cheio de claridade, cheio de tons vivos que reproduzem a natureza como ela dever ser vista, animada, colorida, na alegria pagã com que os nossos olhos de homem moderno a vêem”. Professor da ENBA por muitos anos, Chambelland chegou a defender os modernistas brasileiros na década de 20 e, numa entrevista concedida em 1927, afirmaria: “Procuro praticar a pintura moderna como o meu temperamento a sente, e seria repudiar o meu trabalho enfileirar-me  entre os que combatem a pintura nova”. Francisco Manna também é apontado por Teixeira Leite como um artista de “sentimento cromático, pintura solta e desenho apurado”, que em certas obras se aproximava do fauvismo. Faziam parte ainda desse rol de renovadores moderados da pintura brasileira, entre outros, o casal Lucílio e Georgina de Albuquerque, Henrique Cavalleiro e Hélios Seelinger, esse último mais próximo das tendências simbolistas. Porém, as tendências estéticas propriamente modernistas, que logo depois irromperiam no cenário artístico brasileiro, jamais encontraram espaço no interior da Sociedade. Ao contrário, com o passar dos anos a entidade abandonou qualquer perspectiva renovadora, passando a se identificar de forma cada vez mais resoluta com o conservadorismo artístico.

 


Centro artistico H. Seelinger

Nas duas décadas seguintes, a Sociedade continuou a realizar os seus salões, ainda que, ao que parece, sem a mesma regularidade dos anos iniciais; registrando-se tal evento em 1926, 1927, 1932 e 1935. Em compensação, outras exposições coletivas de importância foram promovidas, como o Salão Feminino, em 1921; o Salão da Primavera, em 1923; o Salão do Outono, em 1926; e a Exposição Cidade do Rio de Janeiro, em 1935; além de mostras individuais, como a de Helios Seelinger, em 1933. Nesse mesmo período, a Sociedade Brasileira de Belas Artes promoveu também algumas importantes iniciativas voltadas para a defesa da cultura nacional, que posteriormente teriam desdobramentos relevantes. Foram os casos, por exemplo, da elaboração de um anteprojeto de lei em defesa do Patrimônio Artístico Nacional, solicitado pela direção da entidade, em 1920, ao professor Alberto Childe, do Museu Nacional; e de um outro, por iniciativa de Francisco Manna, no sentido de  impedir que antigas peças de arte brasileira saíssem do país, que posteriormente foi incorporado pelo governo federal e transformado em lei. Em 1924, José Mariano Filho, então na presidência da entidade, comissionou o arquiteto Nereu Sampaio para reunir documentos sobre a arte colonial brasileira no município mineiro de São João d’El Rei, trabalho posteriormente continuado pelos arquitetos Lúcio Costa e Nestor de Figueiredo. A Sociedade marcou também sua atuação pelas frequentes gestões feitas junto ao governo federal e a diversos governos estaduais, no sentido de obter apoio à arte brasileira, como a solicitação para que fossem criados museus de arte e escolas de desenho em todos os estados do Brasil, ou a sugestão de que praças e jardins do país fossem decorados com esculturas de artistas nacionais. Por conta de iniciativas desse tipo, já em 1922 a Sociedade foi reconhecida como de utilidade pelo governo federal. Em junho de 1925, a entidade inaugurou seu curso livre de modelo vivo.

Por volta de 1929, após viver um período de dificuldades financeiras, quando se cogitou, inclusive, na sua dissolução, a Sociedade voltou a se recuperar, estabelecendo sua sede em espaço que lhe foi cedido pela ENBA. Por encomenda do Itamaraty, formulou, então, as bases para o concurso de baixos-relevos destinados à decoração do Arquivo e da Biblioteca do órgão. Mas com o passar dos anos, a atuação da Sociedade foi assumindo um caráter cada mais identificado com a simples celebração dos nomes consagrados da arte acadêmica brasileira. Foi assim que, por iniciativa sua, os restos mortais do pintor Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), morto em Portugal, puderam ser repatriados; ou que hermas dedicadas a Pedro Américo e Rodolfo Bernardelli foram inauguradas no Passeio Público do Rio de Janeiro, em 1928 e 1935, respectivamente. Segundo o historiador Carlos Rubens, entre os anos de 1919 e 1938 a Sociedade teve como presidentes: Rafael Paixão, Bruno Lobo, José Mariano Filho, Marques Júnior, Humberto Cozzo, Corrêa Lima, novamente Rafael Paixão, Euclides Fonseca, Jordão de Oliveira e Manuel Ferreira de Castro Filho.

 


Centro artistico R. Chambelland, Baile à fantasia, MNBA

Após viver décadas sem uma sede definitiva, a Sociedade Brasileira de Belas Artes estabeleceu-se, em 1967, no Solar do Marquês de Lavradio, edifício do século XVIII, situado na Rua do Lavradio, no centro do Rio, que lhe foi cedido pelo governo fluminense, e que durante muitos anos estivera fechado.

Reduto da arte acadêmica há muitas décadas, a Sociedade ainda mantém atividades regulares. Em 2011 sua programação incluiu as montagens do 33° Salão de Marinha do Brasil, do 1° Salão Carioca de Arte Contemporânea, do 47° Salão Feminino e do Salão Brasil, Beleza e Cores.

Fontes
- CARDOSO, Rafael. “Boêmia inspiração”. Revista de História da Biblioteca Nacional. n.35, ago/2008.
- LAPA Criativa. Bens Imóveis. Sociedade Brasileira de Belas Artes.
   <http://www.lapacriativa.com.br/bensimoveis/295>
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Centro Artístico Juventas, pp.117-118; Chambelland, Rodolfo. pp118-119; Sociedade Brasileira de Artes Plásticas, p.484; Tímótheo da Costa, Artur. p.508).
- RUBENS, Carlos. Pequena História das Artes Plásticas no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941. (pp. 376-378)
- Itaú Cultural. Verbete: Rodolfo Chambelland.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?
fuseaction=marcos_texto&cd_verbete=3761&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>

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