BAHIA, ARTE COLONIAL DA
Arnaldo Marques da Cunha


Centro histórico, Salvador

Professor na Casa das Artes de Laranjeiras, Rio de Janeiro (CAL). Curso de Jornalismo (incompleto), Escola de Comunicação, UFRJ. Revisor técnico e tradutor.

A primeira tentativa de organização político-administrativa do território brasileiro data de 1534, com a sua divisão em capitanias hereditárias. Demonstradas as insuficiências deste sistema e diante das incursões de corsários estrangeiros ao litoral desprotegido, o governo português decidiu ocupar-se diretamente da colônia.

Na região que corresponde hoje ao estado da Bahia, só foram construídas igrejas coloniais de maior valor arquitetônico na área correspondente à antiga capitania da Baía de Todos os Santos, que compreende as cidades que contornam o Recôncavo Baiano e as que se encontram junto à baía de Todos os Santos, em especial a capital Salvador.


Teófilo de Jesus, Anunciação, M. Afro-Brasil

O fato de Salvador ter sido fundada em 1549, com a finalidade específica de sediar o governo-geral – mantendo, portanto, um contato direto com a metrópole – propiciou um maior desenvolvimento para a cidade e, consequentemente, a construção de um grande número de igrejas.

A construção desses monumentos da arquitetura religiosa colonial só foi possível devido ao desenvolvimento econômico da região, decorrente, sobretudo, do cultivo de cana-de-açúcar e dos respectivos engenhos, construídos principalmente na área do Recôncavo. Nem mesmo a transferência da capital para o Rio de Janeiro, em 1763, acarretou uma diminuição da importância de Salvador, sempre incluída entre os principais núcleos urbanos do Brasil colônia.

No panorama urbano das cidades marítimas, as fortalezas ocupavam situação de destaque, pois balizavam os principais pontos estratégicos da faixa litorânea e das ilhas adjacentes. No caso de Salvador, destaca-se o forte São Marcelo. De complexo desenho curvilíneo, a exemplo de construções congêneres, o forte foi planejado e construído por engenheiros militares. A criatividade e a perícia técnica destes profissionais, os únicos do mundo lusitano com formação teórica especializada em construções, influenciaram a arquitetura religiosa colonial nos principais núcleos urbanos da época.


Rodrigues Nunes, São João, Santa Isabel e São Zacarias

Em Salvador, também foram construídos imponentes sobrados senhoriais, com seus brasões e portadas barrocas trabalhadas em arenito local, como os do antigo Solar Saldanha. A maioria destes sobrados, um dos principais atrativos da arquitetura colonial da cidade, data das últimas décadas do século XVII e das primeiras do XVIII. Nas áreas rurais, mais alinhadas com as tradições lusas, as casas-grandes dos engenhos da Bahia, quando comparadas às demais regiões do país, apresentam uma acentuada homogeneidade, a exemplo do que ocorreu com as construções urbanas.

Atualmente, encontram-se poucos vestígios materiais e artísticos das igrejas construídas na Bahia do século XVI ao início do século XVII. Algumas são apenas ruínas, enquanto outras encontram-se bem descaracterizadas em relação à sua concepção original. Sempre de pequeno porte e construídas com materiais não-duráveis, essas igrejas foram, em sua maioria, demolidas ainda no primeiro século da colonização e, em seguida, substituídas por outras de maiores dimensões e imponência, com as características arquitetônicas em voga na época.


J. Joaquim da Rocha, São Domingos, Salvador

Entre os raros monumentos que ainda se conservam, por terem sido adaptados a outras funções, encontra-se a igreja do antigo Colégio Jesuíta de Salvador – atualmente, a Catedral Metropolitana. Construída entre 1657 e 1672, possui fachada monumental em pedra-de-lióz portuguesa e, entre outros elementos, incorporou as torres baixas laterais de sabor essencialmente lusitano.

Nas adaptações coloniais de partidos arquitetônicos de tradição européia, levadas a efeito pelas ordens religiosas nas regiões litorâneas, os de maior originalidade e liberdade criativa foram, sem dúvida, aquelas promovidas pelos franciscanos. Merecem especial referência os graciosos claustros dos conventos franciscanos, com suas galerias de arcadas toscanas e revestimentos parietais de azulejos, verdadeiros oásis de verdura e frescor, admiravelmente adaptados ao clima tropical. O exemplo mais conhecido é o claustro do convento de São Francisco em Salvador, cujos azulejos – ilustrando alegorias clássicas – foram uma doação pessoal do rei D. João V à ordem franciscana.

Já a igreja da Conceição da Praia em Salvador, edificada entre 1739 e 1765, destaca-se pela inusitada solução de torres em diagonal na fachada, ímpar na arquitetura colonial das igrejas do Brasil. Este templo constitui um exemplo extremo de intercâmbio colônia-metrópole. Suas pedras – talhadas e aparelhadas em Portugal, e depois expedidas para o Brasil como lastro de navios comerciais – chegaram a Salvador acompanhadas pelo mestre-de-obras encarregado da montagem da construção.


Franco Velasco,, Caminho do calvário

Nas decorações um pouco mais tardias do “barroco nacional português”, a divisão em painéis desapareceu e a talha desenvolveu-se livremente, recobrindo paredes e tetos, também configurando as famosas “igrejas forradas de ouro”. Este é o caso da igreja do Convento de São Francisco de Assis, datada do período 1720-1740, com sua suntuosa decoração de talha dourada.

O sentido barroco de grandiloquência e dramatismo encontrou sua significação plena quando completado por pinturas em perspectiva ilusionista. Ao decorar amplas abóbadas em tabuado corrido, estas pinturas substituíram os tetos compartimentados em painéis (caixotões). Desenvolveu-se, na Bahia, uma verdadeira escola de pintores deste novo gênero em torno da figura de José Joaquim da Rocha (ca. 1737-1807), responsável pela execução, entre outras, das monumentais pinturas das abóbadas das igrejas de Nossa Senhora da Conceição da Praia, de São Domingos e de Nossa Senhora da Palma.

O forro da nave da igreja da Conceição da Praia (1772-1774) é a obra de maior impacto. Acima das paredes reais, eleva-se uma suntuosa arquitetura imaginária com colunas, balcões e galerias, cuja parte central abre-se para a representação do céu, com anjos e outros personagens celestiais rodeando a Virgem da Conceição, padroeira da igreja. Esta parte central não apresenta escorço nem uso de perspectiva aérea baseada em gradações de luz e cor, como nos protótipos italianos e centro-europeus. Esta particularidade – que afetou todas as pinturas do gênero tanto em Portugal como no Brasil – parece estar ligada à sensibilidade religiosa própria ao homem lusitano devoto, que privilegiou a comunicação direta e íntima com os santos vistos de perto e não perdidos em alturas celestiais inacessíveis.

Quanto à escultura religiosa, a Bahia ocupa lugar de destaque, tanto pela qualidade das imagens que saíram de suas oficinas conventuais quanto pela quantidade produzida em virtude da demanda do mercado interno (as imagens baianas sempre obtiveram grande aceitação). Essa aceitação pode ser explicada pelo refinamento de gestos e atitudes das figuras, pela movimentação erudita dos panejamentos e, sobretudo, pela policromia de cores vivas com douramento vibrante, o que acabou por conferir um aspecto bastante suntuoso às imagens.

O escultor de maior projeção do período foi Manuel Inácio da Costa, que nasceu em Salvador em 1762 e morreu aos 95 anos nessa mesma cidade. Sua vasta produção inclui obras exportadas para outros centros urbanos brasileiros, sendo particularmente valorizadas as suas representações dramáticas da Paixão de Cristo.      

Fontes
MAYER, Vilmar Francisco. Aspectos gerais da arquitetura colonial baiana (texto disponível no portalVitruvius/Cebrap-Novos estudos, Arquitextos de 2003).
OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. História da arte no Brasil: textos de síntese. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008, p. 19-20, 24-26, 37-38 e 51-52.

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