Ateliê Coletivo
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Ateliê Coletivo, Abelardo da Hora Escravatura

Ateliê de arte criado no Recife em 1952, pelo artista plástico Abelardo da Hora, cujas atividades se estenderam até 1957. Vinculado à Sociedade de Arte Moderna, fundada na capital pernambucana em 1948, pelo próprio Abelardo da Hora e pelo arquiteto e artista plástico Hélio Feijó, o Ateliê cumpriu importante papel na renovação das artes plásticas em Pernambuco, ao promover cursos livres de pintura, escultura e gravura que rompiam com os padrões acadêmicos vigentes na Escola de Belas Artes do Recife. Segundo declararia o seu fundador, muitos anos depois, o objetivo do Ateliê Coletivo era não só criar uma entidade com personalidade jurídica para representar os artistas junto aos poderes públicos, mas também “democratizar o ensino da arte e realizar um amplo movimento de integração de artistas, intelectuais, governo e povo de valorização e pesquisa da cultura popular, no intuito de fixar uma característica eminentemente brasileira em todos os setores das artes”.

Do grupo fundador do Ateliê também faziam parte os artistas plásticos Gilvan Samico, Ionaldo, Ivan Carneiro, José Cláudio da Silva, Marius Lauritzen Bern, Wellington Virgolino e Wilton de Souza, aos quais vieram se juntar, posteriormente, Anchises de Azevedo, Antonio Heráclito Campelo Neto, Bernardo Dimenstein, Celina Lima Verde, Corbiniano Lins, Cremilson Soares, Genilson Soares, Guita Charifker, Ladjane Bandeira, Leda Bancovski, Reynaldo Fonseca e Rosa Pessoa, entre outros.

Com a queda da ditadura do Estado Novo em 1945, o Brasil iniciou uma fase de sua história marcada por forte mobilização política e cultural. O regime democrático então instaurado possibilitou a emergência de uma importante corrente de opinião identificada com ideais de esquerda, que se expressava com bastante vitalidade no campo das atividades culturais. No universo das artes, em particular, seguindo uma tendência que então se manifestava em diversos países, ganharam terreno entre nós artistas que procuravam transpor para o universo estético suas preocupações de ordem política e social. Essa arte politicamente engajada, genericamente identificada pelo termo Realismo Social, procurava retratar a vida do povo e denunciar as condições de vida da classe trabalhadora e dos setores socialmente excluídos. Mais do que simples partidários de um movimento estético, tais artistas alimentavam a intenção de levar a arte ao povo – ou, como diziam, contribuir para que brotasse a autêntica arte popular - acreditando na eficácia da linguagem artística como meio de conscientização política da população explorada.

Por outro lado, no plano estritamente político, o período aqui referido foi marcado também pelo crescimento da força de organizações de esquerda em alguns dos principais centros urbanos do país, inclusive no Recife, cidade com considerável tradição de mobilizações populares. Nesse sentido, constituiu-se ali, na década de 1950, um campo político de esquerda que elegeu, sucessivamente, como prefeitos, os socialistas Pelópidas da Silveira (1955) e Miguel Arrais (1959), num movimento que desdobraria-se ainda na eleição desse último para o governo do estado, em 1962. Além disso, na segunda metade dos anos  1950, surgiriam no interior de Pernambuco as Ligas Camponesas, que traziam para o cenário político a questão da reforma agrária e da organização dos trabalhadores rurais.


Ateliê Coletivo, Reynaldo Fonseca A beleza

É nesse contexto histórico, marcado por intensa agitação política e cultural, que surgiu no Recife, em 1948, a Sociedade de Arte Moderna. Já no ano seguinte, Abelardo da Hora assumiu a presidência da entidade, promovendo cursos de desenho no Liceu de Artes e Ofícios da cidade, embrião do Ateliê que seria fundado três anos depois. Ao longo de sua existência, o Ateliê reuniria artistas plásticos cuja produção identificava-se fortemente com as características gerais do Realismo Social, a começar pelo domínio quase absoluto da representação figurativa, sobretudo da figura humana, isso numa época em que as correntes abstracionistas já começavam a ganhar espaço nos meios artísticos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas a própria importância dada no Ateliê à representação da vida do povo, acabaria por conferir traços bastante originais às obras ali produzidas, promovendo-se uma aproximação da temática regional e do artesanato com as linguagens artísticas modernas. De fato, a obra de praticamente todos os artistas envolvidos no ateliê apresentava temática fortemente centrada na vida do povo nordestino, incluindo-se aí, muitas vezes, o imaginário mítico e religioso da população.

Ao ser fundado em 1952, o Ateliê Coletivo tinha sua sede na Rua da Soledade, mudando-se no ano seguinte para um imóvel localizado na Rua Velha, onde Abelardo da Hora chegou a morar com a família. Em 1956, nova mudança, agora para a Rua da Matriz. Segundo relata a historiadora Bianca Nogueira da Silva Souza, os membros do Ateliê costumavam frequentar os locais onde se manifestava a mais típica cultura popular, como festas de rua, terreiros de candomblé e autos populares, a fim de encontrar nessas manifestações a inspiração para sua arte, de forma a não deixá-la cair no elitismo que, segundo acreditavam, havia tomado conta dos círculos modernistas.

O Ateliê Coletivo realizaria o seu Primeiro Salão em 1954, mesmo ano em que alguns de seus integrantes, como Abelardo da Hora e Wellington Virgolino, participaram de uma exposição realizada pelo Clube da Gravura de Porto Alegre, que percorreu diversos países europeus e asiáticos. Apesar das condições materiais de trabalho no Ateliê serem sempre muito precárias, e seus integrantes não conseguirem sobreviver exclusivamente de sua produção artística, a intensa troca de experiências entre eles foi fundamental para a formação de uma das mais notáveis gerações de artistas plásticos pernambucanos. A identidade então gerada seria notada pela arquiteta Lina Bo Bardi quando, por ocasião da exposição Civilização Nordeste, realizada no Museu de Arte Popular da Bahia em 1963, destacou a unidade poética presente na representação de Pernambuco, formada por alguns antigos integrantes do Ateliê, como Abelardo da Hora, Gilvan Samico, Wellington Virgolino e Wilton de Souza.

A figura central do Ateliê Coletivo foi mesmo Abelardo da Hora. Nascido em 1924, no município de São Lourenço da Mata, no interior pernambucano, Abelardo estudou na Escola de Belas Artes do Recife. Desenvolveu, desde os primeiros anos de sua carreira, diversificada atuação como artista plástico, dedicando-se especialmente à escultura e ao desenho, mas também à pintura, à gravura e à cerâmica. Quando criou a Ateliê Coletivo em 1952, já conquistara reconhecimento artístico, tendo obtido a medalha de bronze em escultura, no Salão Nacional de Belas Artes, em 1950. Sua obra apresentava forte caráter expressionista, exacerbado pelo material rude (pedra, barro e cimento) utilizado para retratar a aspereza da vida do povo. Suas tapeçarias e painéis monumentais, por sua vez, indicavam a influência do muralismo mexicano. Quando da realização do Primeiro Salão da entidade, em 1954, Abelardo da Hora explicitaria as influências recebidas: “Todo trabalho que desenvolvíamos tinha, no que diz respeito a nossa índole antiacadêmica, muita afinidade com Paris, mas, pela semelhança dos objetivos que já vínhamos palmilhando dentro do Atelier, era com o México nossa maior afinidade”.

À frente da Sociedade de Arte Moderna por cerca de dez anos, Abelardo da Hora procurou sempre promover atividades que integrassem ao Ateliê Coletivo as diversas manifestações artísticas, em especial as artes plásticas, a música e o teatro, como ocorreu na incorporação do Coral Bach do Recife, dirigido por Geraldo Menuchi. Vinculado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Abelardo da Hora conjugou sua produção artística com uma intensa militância política, sendo um dos principais incentivadores do Movimento de Cultura Popular (MCP), iniciativa desenvolvida durante o governo Arrais, voltada para a promoção de atividades culturais junto à população pobre, incluindo o audacioso projeto de alfabetização de adolescentes e adultos que projetaria o nome do educador Paulo Freire. No início dos anos 1960, Abelardo da Hora ocuparia ainda os cargos de diretor da Divisão de Parques e Jardins e da Divisão de Artes Plásticas e Artesanato da Prefeitura do Recife. Após a deposição de Arrais e a perseguição aos grupos de esquerda, promovida pelo regime ditatorial implantado no país em 1964, fixou-se em São Paulo.


Ateliê Coletivo, G. Samico gravura

Outro integrante do Ateliê Coletivo que merece ser destacado é o recifense Gilvan Samico, nascido em 1928. Sua participação na entidade se deu, sobretudo, como pintor, mas com o tempo ele foi gradualmente migrando para a gravura, que acabaria por dominar quase que por completo a sua produção artística após o fim do Ateliê, quando estudou xilogravura com Lívio Abramo, em São Paulo (1957) e com Osvaldo Goeldi, no Rio de Janeiro (1958). A partir de então, Samico tornaria-se um dos mais importantes nomes da gravura brasileira, participando de diversas mostras nacionais e internacionais. Em 1962, foi premiado na Bienal de Veneza. Suas gravuras, frequentemente coloridas e caracterizadas por enorme apuro técnico, associam os temas recorrentes do Realismo Social ao universo da fábula e dos mitos populares, sendo povoadas por animais fantásticos e seres lendários. Em toda sua obra nota-se um forte interesse pela cultura popular nordestina, especialmente pela literatura de cordel, fator determinante na sua aproximação com a xilogravura. Nos anos 1970, Samico integraria o Movimento Armorial, organizado pelo escritor Ariano Suassuna.

Ainda no final da década de 1970, o pintor e desenhista José Cláudio da Silva, outro fundador do Ateliê, publicou o livro Memória do Ateliê Coletivo, que apresenta uma série de depoimentos colhidos por ele sobre aquela importante experiência ocorrida na capital pernambucana.

Fontes
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Ateliê Coletivo, p.41).
- Itaú Cultural. Verbetes: Ateliê Coletivo, Abelardo da Hora e Gilvan Samico.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=busca_completa>
- CAVALCANTI, Carlos. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos, MEC/INL, 1974.
   (Verbetes: Hora, Abelardo Germano da, p.340)
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbetes: Hora, Abelardo da, pp. 266-67; Samico, Gilvan, p.470)
- RODRIGUES Galeria de Arte. Abelardo da Hora.
<http://www.rodriguesgaleria.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=83:abelardo-da-hora&catid=23:artistas&Itemid=62>
- SOUZA, Bianca Nogueira da Silva. A identidade do intelectual-artista: a construção de um personagem social na cidade do Recife nos anos 1950-1960. In: História e-história. 2010.
<http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=professores&id=106#_ftnref18>