Ateliê Abstração
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Ateliê Abstração, Samson Flexor Mulata

Ateliê criado em São Paulo pelo pintor romeno Samson Flexor, em 1951, tendo sido um dos espaços pioneiros na difusão da arte abstrata na capital paulista. Entre seus integrantes relacionam-se Alberto Teixeira, Anésia Pacheco Chaves, Gizela Eichbaum, Jacques Douchez, Wega Néri, Emílio Mallet, Ernestina Karman, Izar do Amaral Berlinck, Leopoldo Raimo, Leyla Perrone-Moisés, Maria Antonia Berlinck, Norberto Nicola e Zilda Andrews, entre outros. O pintor Nelson Leirner, que se destacaria, nos anos 60, no movimento de retomada da figuração na arte brasileira, também frequentou o ateliê por um curto período.

Samson Flexor (1907-1971) chegou em São Paulo na segunda metade da década de 1940, após longa e sólida formação artística em Paris. Apesar de ter se aproximado do Abstracionismo pouco antes de deixar a Europa, a ele só aderiu plenamente ao se instalar na capital paulista, no exato momento em que a cidade recebia os primeiros influxos daquela linguagem artística. Teve peso considerável em sua decisão a influência do crítico de arte Leon Degand, primeiro diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Em 1949, o pintor romeno participou da mostra Do figurativismo ao abstracionismo, que inaugurou as atividades daquele Museu e, dois anos depois, da Primeira Bienal de São Paulo, evento no qual se destacou o suíço Max Bill, um dos principais teóricos do Concretismo no plano internacional, e que desde sua primeira apresentação no Brasil, em 1950, causara forte impacto em alguns artistas brasileiros, especialmente entre os mais jovens. Além de suas atividades como professor, Flexor também exerceu influência artística através de textos como “Considerações sobre a Arte Abstrata”, publicado na revista Habitat, em 1956. Sendo uma das figuras centrais nos primórdios do Abstracionismo no Brasil, o idealizador do Ateliê Abstração não se comprometeu diretamente com nenhum dos grupos que se formaram no interior daquela corrente, embora sua defesa de uma arte baseada em conceitos matemáticos e geométricos o aproximasse mais dos concretistas paulistas, desde 1952 organizados no Grupo Ruptura.


Ateliê Abstração, Max Bill litografia

O Ateliê Abstração funcionava na própria residência de Flexor, na capital paulista, a princípio na Alameda Santos, e a partir de abril de 1954 na Rua Gaspar Lourenço, na Vila Mariana, em casa especialmente projetada pelo arquiteto modernista Rino Levi. A inauguração da casa-ateliê foi um evento de grande repercussão na vida cultural da cidade, contando com a presença de conceituados artistas, como Alfredo Volpi, Flávio de Carvalho, Antônio Gomide e Aldo Bonadei, bem como do empresário Ciccilo Matarazzo, famoso mecenas das atividades artísticas na capital paulista.

Como professor, Flexor desenvolvia rigorosos estudos com a linha, levando seus alunos, num primeiro momento, a produzir desenhos geometrizados. Em seguida, trabalhava o uso das cores, primeiros as quentes, depois as frias. Segundo Jacques Douchez, Flexor tocava piano durante as aulas, para inspirar seus alunos. O ateliê funcionava também como palco para recitais e como espaço para debates e conferências sobre arte, que contavam com a presença de intelectuais. A produção artística ali realizada caracterizava-se pela busca de unidade e equilíbrio entre as formas geométricas, pela preocupação com o ritmo e o movimento nas composições, e pela atenção às questões cromáticas. No catálogo da exposição realizada pelo grupo em 1956 no MAM-SP, Flexor afirma sua concepção da pintura como arte capaz de se afirmar por elementos intrínsecos a ela própria, independentemente da representação da realidade: “Um quadro abstrato não representa, mas se apresenta. Um quadro abstrato não exprime, mas se exprime. Um quadro abstrato em si mesmo já é uma presença e significa só ele mesmo”.


Ateliê Abstração, J. Douchez tapeçaria

A partir de 1953, Flexor e seus alunos passaram a apresentar o resultado de suas pesquisas em exposições, quase sempre na própria cidade de São Paulo. A primeira delas aconteceu na sede paulista do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), em novembro de 1953 e a segunda no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em julho de 1954. O texto introdutório dessa segunda mostra fornece dados importantes sobre as bases conceituais que orientavam o trabalho no ateliê, definindo a pintura como a “organização de uma superfície plana em áreas diversamente coloridas, tendo entre si relações quantitativas e qualitativas voluntariamente estabelecidas no que diz respeito a seus tamanhos, formas, intensidades e matérias, excluindo qualquer tentativa de interpretação de aparências do mundo exterior, e tendo por único fim apenas a existência intensa e exaltada destas relações”. Nos anos seguintes, exposições coletivas dos membros do ateliê foram realizadas no Instituto Mackenzie (1955), novamente no MAM-SP (1956), e na Galeria Roland de Aenlle, em Nova York (1958).

Em sua primeira fase, o Ateliê Abstração funcionou até 1958. Em 1961, Flexor promoveu a formação de um novo grupo, o Ateliê Abstração 2, integrado por Charlotta Adlerová, Halina Drapinski, Maria Helena Occhi, Ida Shaib, Michiko Komatsu, André Cahen, Hans Grunebaum e Sérgio de Freitas Azevedo. O grupo teria, porém, vida curta, tendo realizado uma única exposição, no mesmo ano de sua criação, na Associação Cristã dos Moços, na capital paulista.

Fontes
- ALVARADO, Daisy Peccinini; GUERRA, Tatiana Rysevas. Ateliê Abstração. Museu de Arte Contemporânea. Arte no século XX / XXI: visitando o MAC na web. <http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo3/atelierabs/ogrupo.html>
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Ateliê Abstração, p. 41).
- Itaú Cultural – Verbetes: Ateliê Abstração
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_texto&cd_
verbete=3748&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>