ANJO AZUL
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Carlos Bastos

Bar fundado em Salvador (BA) no final da década de 1940 pelo escritor e antiquário José de Souza Pedreira e pelo pintor Carlos Bastos, tendo logo se tornado ponto de encontro de artistas, escritores e intelectuais envolvidos com o expressivo movimento de renovação cultural que então ocorria na capital baiana. A casa funcionou também como galeria de arte e entre os seus frequentadores habituais encontravam-se diversos artistas plásticos que contribuíram para a difusão da arte moderna na Bahia, como Mário Cravo Júnior, Carybé, Genaro de Carvalho, Calazans Neto e Jenner Augusto, bem como o cantor e compositor Dorival Caymmi. O ambiente, ao mesmo tempo boêmio e intelectualizado, fez com que o bar fosse identificado em Salvador como um reduto do pensamento existencialista, corrente filosófica muito em voga no mundo ocidental no pós-guerra, motivo que levou o local a ficar mal visto nos meios mais conservadores da cidade.


Genaro de Carvalho, tapeçaria

Foi somente nessa época, final da década de 1940, que os postulados estéticos do modernismo se difundiram em Salvador, portanto com considerável atraso em relação a outras capitais do país. Entre os fatores que contribuíram para que esse processo de renovação da vida cultural finalmente ocorresse na cidade, destacam-se a revitalização da Escola de Belas Artes, incorporada à Universidade da Bahia, que absorveu professores identificados com a arte moderna e com posturas inovadoras quanto ao ensino da arte; bem como o profícuo trabalho desenvolvido pelo educador Anísio Teixeira à frente da Secretaria Estadual de Educação e Saúde, no governo de Otávio Mangabeira, que entre outras iniciativas modernizou o Museu de Arte da Bahia, cuja direção foi entregue ao jornalista, historiador e crítico José Valadares, responsável pela instalação do Salão Baiano de Belas Artes. Nesse contexto, marcado pela efervescência cultural, importantes artistas se fixaram em Salvador, como Carybé e Pancetti; ao mesmo tempo em que uma nova geração de artistas locais começava a se projetar. Entre esses últimos, destacava-se o proprietário do Anjo Azul, Carlos Bastos, pintor figurativo que se utilizava de elementos característicos da paisagem e da cultura de Salvador – as igrejas, o casario, os tipos humanos, a religiosidade – para construir uma obra de grande personalidade e que, segundo José Valadares, resgatava a tradição barroca na pintura baiana. Numa mostra individual realizada por Bastos em 1949 - na mesma época, portanto, da criação do Anjo Azul - algumas das obras expostas apareceram cortadas a gilete por visitantes, o que demonstra o quanto ainda era forte na ocasião a hostilidade à arte moderna na capital baiana.


Jenner Augusto, A evolução humana, afresco

O Anjo Azul localizava-se na Rua do Cabeça, na parte alta de Salvador, num acanhado sobrado, onde antes funcionara uma quitanda. Devido às condições inadequadas de iluminação e ventilação do imóvel, o bar só pode ser aberto em virtude da intervenção direta do secretário Anísio Teixeira. Em sua decoração destacavam-se quatro murais elaborados por Carlos Bastos, um dos quais acabou por dar nome ao bar. Segundo José Valadares, esses murais eram “carregados de figuras angustiadas” e o Anjo Azul, especificamente, evocava a obra do pintor florentino Sandro Botticelli. O escritor e marchand Carlos Eduardo da Rocha, por sua vez, afirmou que os referidos murais exerceram grande influência sobre os jovens artistas da capital baiana e abriu uma nova dimensão para a arte na Bahia. Quanto ao nome do bar, porém, José Pedreira afirmou certa vez que ele derivava não só de seus elementos decorativos, mas também da admiração pelo filme homônimo do diretor alemão Josef Von Sternberg, estrelado por Marlène Dietrich, ou ainda de um bar, também com o mesmo nome, que Bastos frequentara em Nova Iorque, onde viveu entre 1947 e 1948, após concluir a Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Outra peça de destaque na decoração do Anjo Azul era uma polêmica Madona, esculpida em ferro por Mario Cravo Júnior, artista que naquele período também desempenhou enorme influência na renovação das artes plásticas na Bahia. Segundo Carlos Eduardo Rocha, a leveza da obra apresentava “uma quase sugestão do panejamento do manto tradicional da Virgem em movimento, erguido pelo mesmo sopro místico das imagens tradicionalmente barrocas tantas vezes estudadas, manuseadas e desenhadas pelo jovem escultor”. A decoração do bar apresentava ainda inúmeras peças de arte da coleção de José Pedreira, incluindo fragmentos de talha de antigas igrejas baianas, o que também contribuía para conferir uma atmosfera barroca ao local. Ainda segundo a descrição de Rocha, “o mobiliário era antigo, com mesas e cadeiras de jacarandá trabalhado, misturados com nichos e imagens de santos mutilados, louças antigas e vidros de farmácia”.


Mário Cravo Junior, Monumento, Salvador

No Anjo Azul foram realizadas algumas das primeiras exposições de arte moderna na Bahia, como as mostras de Jenner Augusto, Maria Célia e Genaro de Carvalho. No início da década de 1950, funcionou por algum tempo no local a Galeria Oxumaré, que recebeu exposições de artistas baianos e de outros estados, entre os quais Aldo Bonadei, Lothar Charroux, Manuel Kantor e Tiziana Bonnazola.

Com a transferência de Carlos Bastos e José Pedreira para a Europa no início da década de 1950, o Anjo Azul foi vendido. Segundo José Valadares, já em 1954 o bar era apenas uma casa freqüentada por “pessoas ricas”, tendo perdido a sua condição de referência cultural da capital baiana; enquanto a Galeria Oxumaré, nessa época instalada em outro endereço, substituiria o Anjo Azul como ponto de encontro de artistas e pessoas interessadas em arte. Mesmo sem desfrutar do prestígio intelectual do período de sua fundação, o Anjo Azul continuou existindo por toda a década de 1960. O imóvel que abrigou o bar foi destruído em 1978.

Fontes
- CAVALCANTI, Carlos. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos, MEC/INL, 1974. (Verbete:  Bastos, Carlos Frederico. p.189)
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988.  (Verbete: Anjo Azul. p. 31; Bastos, Carlos Frederico. p. 60)
- OLIVEIRA, Denisson de. “A arte na Bahia e seu mercado no século XX”.
<http://www.provadoartista.com.br/popups/arte_bahia.html>
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbete: Bastos, Carlos Frederico.  (pp.58-59)
- ROCHA, Carlos Eduardo da. “Anísio Teixeira e as artes na Bahia”.
<http://www.bvanisioteixeira.ufba.br/livro6/at_artesbahia.html>
- ______. “Artes plásticas na Bahia”. In: Prova do Artista Galeria de Arte (site).
<http://www.provadoartista.com.br/popups/artes_plasticas.html>
- VALADARES, José. “Belas Artes na Bahia de hoje”. In: Álbum Comemorativo da Cidade do Salvador. São Paulo: Habitat Editora, 1954. <http://www.cravo.art.br/jose_valadares.htm>
- Itaú Cultural: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm
?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=1334&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item>

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