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Nova Flor do Abacate - Grupo Guignard
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Iberê Camargo Retrato de Werner Amacher
1943

Grupo de artistas que se formou em torno do pintor Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) para com ele ter aulas de desenho e pintura. A princípio era integrado por Elisa Byington, Geza Heller e Iberê Camargo, aos quais logo se juntaram Alcides da Rocha Miranda, Maria Campello, Milton Ribeiro, Vera Bocayuva Mindlin e Werner Amacher. O grupo teve vida curta, entre 1943 e 1944, quando manteve um ateliê coletivo na Rua Marquês de Abrantes, no bairro carioca do Flamengo, em prédio onde, anteriormente, funcionara a gafieira Flor do Abacate. Por conta disso, em artigo publicado na imprensa carioca, tratando da única exposição realizada pelos integrantes do ateliê, em outubro de 1943, o poeta Manuel Bandeira a ele se referiu como a Nova Flor do Abacate.

Quando o grupo se constituiu, Guignard já havia conquistado notoriedade como pintor. Com formação artística em Munique e outras cidades da Europa, onde viveu do início da adolescência até os 33 anos de idade, o artista retornou ao Brasil em 1929, fixando-se então no Rio de Janeiro, onde passou a frequentar os círculos intelectuais de orientação modernista. Em 1931, participou do Salão Revolucionário, na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), tendo sido, segundo Mário de Andrade, uma das grandes revelações do evento. Por diversas vezes foi premiado no Salão Nacional de Belas Artes: medalhas de bronze em 1929, prata em 1939, ouro em 1942, além do prêmio de viagem ao país, em 1940. Em 1941, integrou a Comissão Organizadora da Divisão Moderna do referido Salão. Paralelamente, desde o seu retorno ao Brasil atuou também como professor de pintura e desenho em diversos locais. Lecionou muitos anos, por exemplo, na Fundação Osório, instituição de ensino fundamental e médio voltada para órfãos de militares, localizada no bairro carioca do Rio Comprido; e, em 1935, participou da efêmera experiência da Universidade do Distrito Federal (então no Rio de Janeiro) promovida durante a gestão do prefeito Pedro Ernesto Batista, ensinando desenho livre no Instituto de Artes daquela instituição. Em 1942, iniciou um curso livre de pintura no terraço do prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE), que no ano seguinte se transferiria para o ateliê da Rua Marquês de Abrantes.


Geza Heller paisagem

Em sua curta existência, o Grupo Guignard realizou uma única exposição, no salão do Diretório Acadêmico da ENBA, aberta ao público em 25 de outubro de 1943. Composta por 153 obras, entre desenhos, aquarelas e guaches, a mostra obteve grande repercussão na imprensa. Apenas três dias após sua inauguração, porém, a exposição foi desmontada à força por um grupo de alunos da ENBA, de tendência conservadora, indignados com o caráter moderno das obras expostas. A violência do ato acabou danificando alguns trabalhos. No auge da celeuma, Iberê Camargo - que chegara a estudar algum tempo na ENBA, deixando-a, porém, para frequentar as aulas com Guignard - declarou ter aprendido mais em um dia com seu mestre do que em todo o tempo que passou na Academia. Guignard, por sua vez, com a simplicidade que o caracterizava, declarou na ocasião: “só queria mostrar meu método de ensino, demonstrar como é que os estudantes devem desenhar”.

Dois dias depois do lamentável episódio, a mostra seria remontada e reaberta à visitação na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), localizada a pequena distância da ENBA, no centro do Rio de Janeiro, onde pôde então ser apreciada pelo público. No ano anterior, a ABI já havia recebido uma exposição promovida por um grupo de alunos da ENBA, autodenominado de Dissidentes, que protestavam contra a decisão do diretor da Escola, Augusto Bracet, de vetar a inclusão de algumas obras na exposição anualmente realizada pelos alunos, por considerá-las em desacordo com os padrões oficiais da instituição.
O Grupo Guignard se manteria unido por apenas um ano já que, em 1944, o mestre se transferiu para Minas Gerais, atendendo ao convite do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, para dirigir, na capital mineira, um curso livre de desenho e pintura na Escola de Belas Artes; instituição que logo após a morte do artista, em 1962, seria rebatizada como Escola Guignard.


Alcides Rocha Miranda projeto de residência Petrópolis RJ

O crítico Frederico Morais ressalta o talento de Guignard como professor, destacando a sua capacidade de utilizar-se da intuição para estimular a verdadeira vocação de cada um de seus alunos. Os ensinamentos do artista deixaram marcas, ainda que desiguais, em seus discípulos da Nova Flor do Abacate. O húngaro Geza Heller - que dedicou, como Guignard, grande atenção à pintura de paisagens – apresenta influência do mestre em seu desenho e no colorido que confere aos seus quadros. Já Iberê Camargo, que de todos os integrantes do grupo foi o que maior notoriedade obteve como artista plástico, revela que, em suas aulas, Guignard “impunha o uso do lápis duro, duríssimo, o que deixava sulcos no papel como se tivessem sido feitos por um prego”. Ainda sobre o mestre, declararia Iberê, anos mais tarde: “a sua obra teve breve influência sobre o meu trabalho, mas marcou-me para sempre a pureza do seu espírito”.

Em 1986, a produção do grupo foi focalizada na exposição A Nova Flor do Abacate - Grupo Guignard, realizada na Galeria de Arte do Banerj, no Rio de Janeiro.

Fontes
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Camargo, Iberê, p.101; Heller, Geza, p.244; Nova Flor do Abacate, p.401).
- Itaú Cultural. Verbetes: Grupo Guignard e Alberto da Veiga Guignard.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=busca_completa>
- MORAIS, Frederico. “Todos amam Guignard”. In: O humanismo lírico de Guignard. Catálogo da exposição realizada no Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro. 2000.
- PITORESCO. Iberê Camargo. <http://www.pitoresco.com/brasil/ibere/ibere.htm>

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