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PORTO-ALEGRE, Manuel de Araújo
Pintor, desenhista, caricaturista, arquiteto, historiador de arte, escritor, ativista cultural e professor.
Manuel José de Araújo, dito (1806: Rio Pardo, RS – 1879: Lisboa, Portugal).

Foi aluno dos integrantes da Missão Artística Francesa, amigo e discípulo de Jean-Baptiste Debret, tendo sido imensa sua influência no desenvolvimento da inteligência e da arte brasileira do século XIX. Suas ocupações de homem público e escritor cercearam sua carreira como pintor.

Teve infância difícil, ficando órfão de pai aos cinco anos e de padrasto aos doze, indo trabalhar em uma relojoaria, quando foi notado seu talento para o desenho.
1816 – Foi morar em Porto Alegre, RS, onde aprendeu cenografia e pintura com João de Deus e Manoel Gentil, tendo depois aulas com o pintor francês François Ther. Neste ano chegava ao Rio de Janeiro a Missão Francesa, circunstância que seria fundamental na biografia do artista e intelectual gaúcho.
1827 – Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde frequentou a Academia Imperial de Belas Artes, recebendo ensinamentos de arquitetura com Grandjean de Montigny, de escultura, com João Joaquim Alão e de pintura com Jean- Baptiste Debret.
1828 – Foi aluno da Escola Militar do Rio de Janeiro.
Além dos estudos artísticos, sua voracidade intelectual o levou a estudar medicina (no Hospital da Santa Casa da Misericórdia) e filosofia, com o padre beneditino Francisco Polycarpo Maia.
1829 e 30 – Participou da Exposição Geral de Belas Artes, promovida anualmente pela perial.
1831-37 – Acompanhou Debret em seu retorno à França, realizando seu sonho de conhecer Paris. Nesta capital foi acolhido na residência do arquiteto François Debret, irmão de Jean Baptiste. Graças aos conhecimentos do anfitrião, pôde estudar com o pintor Jean-Antoine Gros e frequentar a Escola Superior de Belas Artes.
Como a Europa vivia o clima do romantismo literário e artístico, conviveu com diversos compositores que habitavam Paris: Adrien Boieldieu, Gioachino Rossini, Ferdinando Paer e Luigi Cherubini. Entre outros intelectuais, conheceu outro romântico, o escritor português Almeida Garret.
1833 – Recebeu a terceira medalha, em concurso na Escola Superior de Belas Artes. 1834 – Viajou com seu amigo, o poeta Gonçalves de Magalhães, para Roma, onde recebeu lições do arqueólogo Antonio Nibby. Prosseguiram ambos num périplo pela Suíça, Bélgica e Inglaterra, aproveitando para conhecer museus e firmarem seus próprios conhecimentos teóricos e práticos das artes plásticas e da literatura. Continuou sua viagem sozinho, visitando, na Itália, Veneza, Turim, Milão e Nápoles.
1836 – Foi nomeado pelo Institut Historique de France para fazer parte da comissão da Exposição Geral do Museu do Louvre, em Paris.
1837 – De volta ao Rio de Janeiro, lecionou na Academia Imperial de Belas Artes, começando uma carreira de arquiteto e decorador. Coordenou modificações e reformas no Palácio de São Cristóvão (Quinta da Boavista), inclusive pintando um painel para um teto; na sede da Alfândega (centro da cidade); no Paço da Cidade (hoje Praça XV) e no Banco do Brasil). Também colaborou em jornais como chargista.
1838 – Deu aulas no Colégio Pedro II, como professor interino.
1839-40 – Foi nomeado pintor da Câmara Real. Decorou o pano-de-boca e cenários para o Teatro São Pedro (demolido em 1937), quando foi encenada a peça Olgiato, de Domingos José Gonçalves de Magalhães. Encarregou-se também das decorações para as cerimônias da coroação e do casamento de dom Pedro II.
1842 – Assumiu a direção do setor de Numismática, Belas Artes e Arqueologia do Museu Nacional.
1843 – Foi um dos fundadores do Conservatório Dramático Nacional.
1844 – Realizou o projeto para a capela da residência dos Imperadores, no Palácio de São Cristóvão.
1847 – Abandonou a Academia Imperial de Belas Artes, após sucessivas brigas internas com os artistas ligados a Félix Taunay, entre os quais Correia de Lima e Louis Auguste Moreaux).
1849-57 – Lecionou desenho, como professor substituto, na Escola Militar.
1849 – Dedicou-se a projetos de arquitetura, como a sede do Banco do Brasil e a residência de verão dos Imperadores, em Petrópolis, RJ.
1852-54 – Tocado pela ambição política, foi suplente na Câmara de Vereadores do Rio, 1854 – Assumiu a direção da Academia Imperial de Belas Artes, atendendo a convite de dom Pedro II, empreendendo ampla reforma da instituição.
Tinha consciência de que o desenvolvimento das artes passava pela ampliação da base dos candidatos a artistas, tanto no que concerne aos conhecimentos teóricos, como práticos. Melhorou os salários dos professores, ampliou as instalações físicas da Academia, organizou a pinacoteca, aumentou o currículo, introduziu as disciplinas de desenho industrial e de aquarela, dilatou os prazos das bolsas de estudo concedidas através dos prêmios de viagem (de três para seis anos), reorganizou administrativamente a instituição e organizou um catálogo para a biblioteca.
1854 – Fez parte da comissão que escolheu a estátua equestre de Dom Pedro I, da autoria do escultor francês Louis Rochet.
1855 – Coordenou as reformas no Paço Imperial. Em carta ao seu discípulo e futuro genro Pedro Américo, deu alguns conselhos que ilustram seus parâmetros estéticos:
“ (...) Antes de compor, veja a ação em geral, veja, depois, cada uma das suas personagens; estude-as moral e fisiologicamente para que elas possam, cada uma de per si, compor um todo harmônico e verdadeiro (...) Em Paris V. S. há de ganhar muito; é hoje aquela cidade um manancial fecundo para o espírito e tem uma escola onde tudo se encontra para facilitar o estudo. A escola francesa sempre se distinguiu pelo seu espírito filosófico, pela correção do desenho, e pela maneira grandiosa na composição. As gale¬rias de Paris lhe hão de fazer tudo, porque já viu Roma e Florença (...) Estude bem a teoria da sombra e a perspectiva, porque sem estas bases muito terá que lutar: a elas deverá o perfeito conhecimento das modificações da luz, dos planos, dos relevos; copie desenhos cenográficos (...) Estude o nu, estude anatomia, estude bem o desenho (...) Estude cavalos, porque as nossas batalhas exigem este estudo (...) Anatomia e perspectiva, e muito desenho porque nossa escola está muito fraca no desenho, muito e muito fraca, e V. S. há de chegar a tempo de tomar conta dela e dar-lhe o impulsa desejado; a sua missão é bela porque os tempos lhe são favoráveis (...)”
1857 – Renunciou à direção da Academia Imperial de Belas Artes por não concordar com a nomeação de Cabral Teive para a disciplina de pintura histórica.
1859 – Foi nomeado por dom Pedro II para a carreira diplomática.
1860 – Tornou-se cônsul do Brasil em Berlim. Cercado de honrarias, esteve em Lisboa, como correspondente das Academias de Belas Artes e de Ciências e Letras, voltando para Berlim, onde foi cônsul-geral do Brasil.
1861 – Encontrou-se em Viena, Áustria, com Domingos José Gonçalves de Magalhães, que ali era embaixador.
1862-66 – Serviu como diplomata na cidade alemã de Dresden, onde prosseguiu a carreira de pintor, especialmente de paisagens.
1867 – Coordenou em Paris a participação do Brasil na Grande Exposição Universal. Foi nomeado cônsul-geral em Lisboa, onde foi visitado por seu dileto discípulo Pedro Américo, que casou com sua filha Carlota.
1873 – Integrou a comissão brasileira à Exposição Universal de Viena.
1876 – Conseguiu das autoridades portuguesas a cópia da carta de Pero Vaz de Caminha, que se encontrava na Torre do Tombo, enviando-a para a Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro.
1877 – Com a saúde abalada, viajou à Itália, para tratamento.
1918 – Foi inaugurada em Porto Alegre a herma do artista, de autoria de Eduardo de Sá. 1922 – Seus despojos foram trazidos para o Brasil, e mais tarde transferidos para a sua terra natal.
1939 – Em Rio Pardo, RS, foi instalado o mausoléu de Porto-Alegre, projeto do escultor André Arjonas.
Ao longo de sua vida, Porto-Alegre foi agraciado com medalhas e condecorações, entre elas, do Brasil: Comendador da Imperial Ordem de Cristo; Grande Dignatário da Ordem do Rosa; nomeado por Dom Pedro II Barão de Santo Ângelo, em 1874.
A produção intelectual de Porto-Alegre como ensaísta e dramaturgo foi talvez mais impressionante que sua carreira como pintor e arquiteto:
1830 – Ode Sáfica, dedicada ao mestre Debret.
1832 – Palestra pronunciada em Paris, e ali publicada no Journal de l´Institut Historique, com o artigo “ État des Beaux Arts au Brésil” (Situação das Belas Artes no Brasil), com posições teóricas.
1836 – Em Paris, junto com Francisco de Salles Torres Homem e Gonçalves de Magalhães, fundou a revista Nitheroy – Revista Brasiliense - Sciencia, Lettras e Artes, afinada com o movimento do romantismo. No mesmo local e ano publicou o ensaio poético Tivoli.
1837 – Publicou a peça Prólogo Dramático, que foi encenada no Teatro Constitucional Fluminense; nesse ano foram publicadas caricaturas de sua autoria.
1841 – A Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro incluiu seu ensaio pioneiro Memória sobre a Antiga Escola de Pintura Fluminense, onde biografou artistas da época colonial, como Frei Ricardo do Pilar, Leandro Joaquim e José Leandro de Carvalho.
1843 – Foi co-fundador da Revista Minerva Brasiliense.
1844 – Junto com Torres Homem, lançou a primeira publicação nacional com caricaturas: Lanterna Mágica: periódico plástico-filosófico.
1845 – Publicou as peças Angélica e Firmino e A Destruição das Florestas.
1849 – Junto com Antônio Gonçalves Dias e Joaquim Manuel de Macedo lançou a revista Guanabara.
1850 – Publicou o artigo “Algumas Ideias sobre as Belas Artes e a Indústria no Império do Brasil” na revista Guanabara.
1851 – Publicou a comédia A Estátua Amazônica.
1856 – Publicou o ensaio “Iconografia Brasileira com as biografias do Padre José Maurício Nunes, Valentim da Fonseca e Silva e Francisco Pedro do Amaral” na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
1857 – Escreveu a ópera A Noite de São João. No ano seguinte apresentou a comédia Cenas de Penafiel.
1859 – Publicou duas peças: A Restauração de Pernambuco e O Prestígio da Lei.
1862 – Em Dresden, Alemanha, publicou a coletânea de poesias As Brasilianas.
1863 – Também em Dresden, lançou a comédia Os Lavernos.
1866 – Publicou o extenso poema épico Colombo, em Viena.
1877 – Publicou em Lisboa a peça Os Voluntários da Pátria, alusiva à guerra do Paraguai.

Fontes
ARTE no Brasil. Textos de Pietro Maria Bardi et al. Abril Cultural, São Paulo, 1979.
CAMPOFIORITO, Quirino. História da pintura brasileira no século XIX, Pinakotheke, Rio de Janeiro, 1983.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos (1750-1836). Itatiaia, Belo Horizonte, 1993.
CAVALCANTI e Ayala. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos. INL/MEC, Brasília, 1973-77.
GALVÃO, Alfredo. Manuel de Araújo Porto-Alegre: sua influência na Academia Imperial de Belas Artes. MEC, Rio de Janeiro, 1959.
LAGO, Pedro Corrêa do. Caricaturistas brasileiros: 1836-1999. Seztante Artes, Rio de Janeiro, 1999.
LEITE, José Roberto Teixeira. 500 Anos da Pintura Brasileira. Produção Raul Mendes Silva. CDROM, Logon Informática, Rio de Janeiro, 1999.
LOBO, Hélio. Manuel de Araújo Porto-Alegre: ensaio bibliográfico. Livraria Agir, Rio de Janeiro, 1945.
PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969.
RUBENS, Carlos. Pequena história das artes plásticas no Brasil. Ed. Nacional, São Paulo,1941.
ZANINI, Walter. História Geral da Arte no Brasil. Instituto Moreira Salles, Fundação Djalma Guimarães, São Paulo, 1983.
< http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_
verbete=3076&cd_idioma=28555&cd_item=1>
< http://www.pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_Araujo_Porto- alegre>
< http://www.5cpinturasdoegito.blogspot.com/2009/08/manuel-de-araujo-porto-alegre.html>

 

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